Opinião: Pensando bem, toda boa ideia surge assim, sem grandes pretensões, mas com dedicação
Às 8h10, seu Armando Manoel despontou com uma camisa verde-amarela andando sobre pedregulhos e pedaços de vida imersos numa rua de muitos me
Atualizado em 03/05/2012 às 15:05, por
Silva Bessa.
Baú de ideias
Crédito:Leo Garbintros de lama suja, fétida e gélida. Faltavam três horas para o jogo do Brasil contra Portugal, naquela sexta-feira de junho em que ocorria a Copa de Futebol na África. Seu Armando foi o primeiro a dar contraste ao marrom dos escombros da rua do Campo, no então devastado município de Barreiros, Zona da Mata de Pernambuco. Kaline e Zuleika, ainda que com rostos desolados, também vestiram a camisa da seleção.
Barreiros foi sucumbido por uma enchente devastadora. A água do rio Una inundou com uma avalanche de lama e derrubou paredes do quilômetro no qual moravam seu Armando, Kaline e Zuleika. Todos conviviam com a estranha paisagem da qual a casa do vizinho havia desaparecido. Como repórter, fui enviada para lá. Pretendia ouvir ecos da catástrofe. Obter relatos de pessoas de áreas onde o Exército não conseguia chegar. Buscaria histórias de escassez de serviços básicos, perdas materiais, da ausência de água para beber à falta do colchão para dormir.
Avistei em seu Armando o apego ao impalpável e, nesta manhã, ele era maior que a destruição vista na rua do Campo, cujo nome era uma enorme coincidência. Falo da camisa e do inesperado amor à pátria. “Estamos passando fome, mas esse amor é a única coisa que não abandono por nada”, disse o trabalhador rural de 62 anos.
Escrevi sobre duas pautas – das perdas de centenas de famílias e do orgulho de ser brasileiro de dezenas de cidadãos que não dependiam da energia ou da TV para assistir à partida de futebol da equipe de Dunga. As duas foram capa do jornal em dias diferentes. A pauta que procurava e a que veio até mim após conversas, olhos atentos a toda cena, ouvidos abertos a qualquer desabafo, relato, frase.
Pensando bem, toda boa ideia surge assim, sem grandes pretensões, mas com dedicação contínua. Você lê algo interessante, lembra-se do que lhe contou um amigo, a mãe, o marido, corre para um livro, a web, anota, lê mais um pouco sobre o que já foi escrito e dito, tem uma ideia, aprimora, guarda por um dia, um mês, um ano. Lá para tantas, quando nem percebe, acumula um baú bem equipado de informações arquivadas na memória pronto para ajudá-lo a compor uma matéria ainda melhor.
Quando pequena, minha irmã Ana me levava à biblioteca pública para ler, participar da aula de artes e esculpir objetos de barro. Todo sábado. Dizia que era para aumentar a criatividade e ter ideias. Com 8 anos, estava longe de dimensionar a importância de produzir ideias. Já nas reuniões de pauta de redação, percebi que, na vida adulta, tê-las é uma necessidade. Mas, se a gente está disposto a encontrar ideias, do nada uma lhe surpreende como seu Armando surprendeu a mim.
Coluna publicada na edição de maio (278) da Revista IMPRENSA






