Opinião: Os protestos populares do “outono brasileiro” e a Copa do Mundo

MANIFESTO PRÓ-COPA NO BRASIL E FEITA PELO POVO BRASILEIRO  Uma das mensagens mais emblemáticas das manifestações dos últimos dias é afrase “Desculpem pelos transtornos, estamos mudando o Brasil”.

Atualizado em 19/06/2013 às 13:06, por Anderson Gurgel.

FEITA PELO POVO BRASILEIRO
Uma das mensagens mais emblemáticas das manifestações dos últimos dias é a frase “Desculpem pelos transtornos, estamos mudando o Brasil”. Sim, precisamos mudar o Brasil, mas fazendo uma coisa por vez.

Podemos até começar pelo futebol, mas temos que saber claramente qual é a nossa reivindicação. Queremos uma pauta?

Deixo uma sugestão: não temos como voltar atrás no que já foi feito em relação à Copa e à Olimpíada, mas podemos fazê-las do nosso jeito: com representação popular e tentando maximizar o retorno para a sociedade e não somente para alguns grupos.
, de São Paulo
No momento em que escrevo este texto, deveria estar embarcando para o Rio de Janeiro. Tinha ingressos para o jogo Espanha e Taiti, amanhã, pela Copa das Confederações. Amo o esporte, amo o futebol e realmente queria assistir a esse evento que está acontecendo no Brasil.

Mas um valor ainda mais caro para mim é o SENTIDO DE PAÍS. Acredito nas manifestações pacíficas, as que são as mais poderosas. E devemos defendê-las, apoiá-las e resguardá-las daqueles que não entendem o momento histórico que estamos vivendo.

O Brasil está antes de qualquer jogo, de qualquer esporte e até mesmo de eventos. E é nessa perspectiva que pontuo aqui algumas breves reflexões:

1. Os protestos do mês de junho de 2013 começaram por problemas no transporte público e era coisa de um pequeno grupo formador de opinião e politizado. Era realmente por 20 centavos, como símbolo do absurdo que é a política de transportes públicos nas grades capitais brasileiras. Já quase não há “ir-e-vir”, essa é a verdade.

- Os custos da locomoção são cada vez maiores e gastamos cada vez mais tempo para fazer os mesmos percursos.

- A Copa do Mundo surgiu como uma panaceia. Os políticos e dirigentes esportivos diziam que os estádios seriam feitos com recursos privados e a logística seria do Governo.

- Com isso, o discurso era que, com o megaevento, o Brasil teria um legado: mais linhas de metrôs, mais rodovias, mais trens, melhores aeroportos.

- Aos poucos, muitos dos projetos de mobilidade urbana foram sendo abandonados e boa parte dos recursos públicos foi destinada para obras em arenas. O que não era o previamente combinado.

- Os gastos com a Copa do Mundo estão perto de R$ 30 bilhões. E não há perspectiva de que, com o megaevento, as grandes cidades mudem realmente e para melhor. Se isso acontecesse, seria o maior conquista brasileira. Sem ela, a derrota é insuportável de aguentar.

2. Com a reação policial desproporcional do dia 13 de junho. A indignação ganhou a simpatia de toda a sociedade que quer liberdade e respeito aos direitos constitucionais.

- No meio de protestos cada vez maiores, a Copa do Mundo entrou na pauta. “Copa prá quê?”, dizem uns. “Não queremos Copa, mas sim educação e saúde”, dizem outros.

- A verdade é que, nós brasileiros, ainda estamos amadurecendo para a democracia e cidadania. Votamos nos nossos representantes, mas esquecemos de fiscalizá-los. Demos um documento em branco para eles e eles fazem o que querem.

- Na verdade, a maioria deles não sente muito comprometida em nos dar satisfações sobre o que fazem em nosso nome. Contam com o nosso esquecimento na hora das eleições.

- MAS A VERDADE É UMA SÓ: Eles assumiram compromissos em nosso nome e agora temos que honrá-los.
3. A verdade é que não há mais volta. TEMOS QUE FAZER A COPA DO MUNDO E AS OLIMPÍADAS.

- Assumimos esse compromisso. Os nossos representantes assumiram em nosso nome.

- Não nos manifestamos na hora certa. Também não pediriam nossa opinião e não demos à revelia também.

- Agora que já foram gastos bilhões de reais em obras, não concluir esses projetos seria gerar ainda mais monumentos à ineficiência. Seria gastar dinheiro nosso sem nenhum propósito.

- Para piorar, seria incalculável, em termos de opinião pública internacional, a perda para a imagem do Brasil. Quem confiaria no nosso país depois de uma postura dessas?

- O impacto seria muito maior que no mundo dos esportes. A credibilidade do Brasil seria comprometida por anos ou até décadas.
4. Por isso defendo que TEMOS QUE FAZER A COPA DO MUNDO.

- Não há volta para o que já feito. Mas temos que FAZER A NOSSA COPA DO MUNDO.

- E ainda que tendo que PRESSIONAR COM MANIFESTAÇÕES PÚBLICAS a Fifa, a CBF, O COI e o Governo em todas as esferas. Brigar dentro da lei e de maneira ordeira. Exigindo o direito à participação direta na gestão desses eventos.

- O que quero dizer com isso? Há muitos anos, em vários artigos, palestras, cursos de graduação e pós-graduação e até em entrevistas venho dizendo que o evento deveria ser do povo brasileiro e com PARTICIPAÇÃO DO POVO BRASILEIRO.

- Os comitês organizadores da Copa do Mundo e da Olimpíada não contam com a participação popular não governamental. Essa seria uma revolução boa para começar.

- Por que não temos nesses comitês gestores representantes da OAB, do CREA, da Fenaj, da Confef, do CRM, etc.? Por que não ter representantes das universidades, das associações da área de esporte, da área de gestão do esporte? Ou ainda: das minorias, dos grupos religiosos, das escolas de samba, dos estudantes, de quem mais quiser participar... Enfim, representes de algo de um grupo que seja a cara do Brasil para fazer a Copa do Mundo do Brasil!

- Por que não há audiências públicas para apresentar os projetos, discutir os problemas, compartilhar as soluções. Seriam oportunidades, inclusive, para mostrar os custos e benefícios para todos. Falta transparência para os projetos. Só ficamos sabendo dos problemas, como no caso dos absurdos envolvendo a estrutura do Estádio João Havelange, o Engenhão, quando a bomba já estourou.

- O Instituto Ethos criou um projeto chamado Jogos Limpos, com o objetivo de criar métricas para avaliar a transparência nos investimentos feitos nos megaeventos. Essa iniciativa teve muito pouca repercussão. Por que não ganhou o vulto que deveria?

- A própria mídia, em um momento de crise estrutural, divide-se.

- Por um lado, há um grupo viciado em alienar a população em um show vazio de eufemismos campais. Fingindo que os problemas não estão cheirando mal.

- Por outro lado, há um grupo (fora do círculo do poder e dos negócios dos megaeventos) que vive do espetáculo das denúncias. Num país que as denúncias são tantas que uma acaba tirando o foco da outra!!!

Nenhum dos dois modelos nos representa. E, por isso, o modelo de negócios da comunicação está falindo e já não consegue ter a credibilidade de outrora. Se quiserem sobreviver, terão de se repensar.
5. Se quisermos uma causa, ela poderia ser exigir que o Padrão Fifa dialogue com a vontade do povo brasileiro.

- Fizemos muito pouco isso nesse processo todo. Mas quando brigamos, exigimos, algumas coisas foram conseguidas: manter as alimentações típicas nas arenas, manter o direito a meia entrada para grupos determinados.

- Sei que é pouco, mas mostra que podemos mais. Ainda mais agora que o povo entendeu que não dá mais para aceitar que as coisas sejam feitas como estão sendo feitas neste país.
6. Concluindo: Defendo que, num momento em que queremos MUDAR O BRASIL. Devemos dizer: “Sinto muito Fifa, sinto muito COI, pelos transtornos, mas vamos mudar o Brasil, honrado nossos compromissos, mas exigindo contrapartidas”.

Minha sugestão:

- Que representantes de entidades não governamentais sejam incorporados aos comitês de gestão dos megaeventos brasileiros.

- Temos talentos e técnicos que poderiam ajudar a evitar mais erros: buscando soluções para futuros elefantes brancos, para estádios em locais sem acesso de transporte público, para maximizar os recursos já aplicados e enxugar outros que ainda serão feitos.

- Que o que já foi feito seja auditado na busca de maximização dos recursos para o bem do povo brasileiro, que está financiando a festa.

- Se conseguíssemos essa mudança nos quadros vigentes, faríamos uma Copa do Mundo totalmente nova, menos pró-pequeno grupo de interesses e mais voltada para os interesses da Nação. Seria genuinamente uma Copa do Brasil e com a cara do Brasil.
UMA REFLEXÃO FINAL: Como disse no início, amo o futebol e não sou dos que acreditam que o futebol seja o ópio do nosso povo. Isso é um ponto de vista. Não a verdade toda.
Para mim, o Governo atirou no que viu e acertou no que não viu. Sim, temos algo de “Pátria de Chuteiras”, não estava errado. O futebol é uma linguagem que nos une. No Brasil todos falam essa linguagem. Ainda que alguns a conheçam para negá-la.

Num momento em que todas as insatisfações vêm à tona, o esporte é uma mídia poderosa para mediatizar todos os nossos sonhos e decepções com o nosso país.
Quando falamos de futebol, todos entendem. E, por isso, a Copa do Mundo virou um dos temas centrais dos protestos. Por meio dela, as barbaridades que rolam nos gabinetes em todas as esferas de poder nesse país ficam simples e todos entendem.

O Futebol é uma METONÍMIA DAS NOSSAS MAZELAS, DAS NOSSAS DESGRAÇAS E DAS NOSSAS GRAÇAS COMO BRASILEIROS. O atraso nas obras da Copa é um símbolo de tudo o que feio na Brasil, sem calendário fixo, com recursos caóticos e, sempre de última hora. Se percebemos isso com o futebol, talvez possamos mudar o todo, a partir da parte.
O ópio do povo é uma das linguagens do povo também.
Se o povo começasse efetivamente fazer parte da gestão dessa paixão, daríamos um sinal de que estamos mudando o Brasil. E faríamos uma Copa do Mundo com a cara do nosso país. Já seria um título histórico, a maior conquista de todas, e que geraria legado para muitas gerações.

Proponho uma pauta para os protestos logo após a vitória “quase certa” em relação às tarifas dos ônibus: QUEREMOS REPRESENTANTES DO POVO NOS COMITÊS GESTORES DOS MEGAEVENTOS BRASILEIROS. Queremos saber o que fazem com o nosso dinheiro e tentar melhorar a gestão dele, para o bem da nossa Nação.
Se gostarem da ideia, compartilhem. #VamosMudarOBrasil!
Campos, jornalista, pesquisador de comunicação, apaixonado por esportes e mais um brasileiro que também está muito insatisfeito com o que vivemos hoje, neste fim de outono de 2013.

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