Opinião: Os novos desafios da divulgação científica

A divulgação cientifica, e o Jornalismo Cientifico em particular, têm pela frente novos desafios, especialmente tendo em vista a emergência de novos cenários, como a ação mais agressiva dos lobbies empresariais, a consolidação dos processos de comunicação nos ambientes virtuais e inclusive a conjugação de inúmeros fatores que condicionam a produção e a circulação de informações pela mídia.

Atualizado em 28/01/2013 às 10:01, por Wilson da Costa Bueno.


A literatura na área da divulgação científica tem privilegiado, quase exclusivamente, dois grandes temas: a decodificação do discurso científico (tornar a ciência acessível para o universo comum dos mortais) e o embate nem sempre tranqüilo entre pesquisadores/cientistas e jornalistas. Não que esses dois temas não incluam aspectos relevantes do processo de divulgação, mas é preciso, com urgência, incorporar ao estudo, à pesquisa e ao debate outras questões não menos fundamentais, como a pressão de interesses comerciais e políticos, a capacitação dos divulgadores e jornalistas, a aceleração da informação etc.
A visão moderna que contempla a ciência e a tecnologia como mercadorias tende a desmistificar a perspectiva secular que as associava ao interesse público, como se estivessem a serviço da humanidade, identificadas com a noção de progresso. Hoje, esta leitura deve ser refeita porque, cada vez mais, empresas e governos se apropriam da ciência e da tecnologia com o objetivo de garantir privilégios e exclusividades (elas, portanto, não circulam livremente como se postulava), de subjugar os adversários e de fazer prevalecer os seus interesses.
Os exemplos se contam às dezenas, mas é fácil identificar essa perspectiva predadora e monopolista da ciência e da tecnologia “a serviço de” em segmentos como a indústria bélica, da saúde, agroquímica e de biotecnologia, entre muitos outros. A contrapartida do chamado progresso técnico é, quase sempre, o monopólio ( como o das sementes por empresas transgênicas!), a exclusão (há países que podem e os que não podem desenvolver tecnologia) e a espionagem (o jogo para vencer a concorrência é pesado mesmo e não descarta o suborno, a espionagem, o assassinato etc).
O controle da ciência e da tecnologia se estende também ao processo de circulação de informações, com denúncias recorrentes de assédio e manipulação de importantes publicações científicas por empresas privadas, quase sempre com a cumplicidade de “cientistas/pesquisadores” sem escrúpulos.
Esta é uma questão que a comunidade científica, muitas vezes, não gosta de debater e a imprensa de investigar, certamente por inúmeras razões. Mas a relação promíscua entre pessoas que se proclamam “da ciência” e os grandes interesses privados tem se aprofundado e, volta e meia, estão elas na mídia, nos congressos científicos e até no Parlamento fazendo lobby para corporações globais.
A imprensa - e os jornalistas em particular – bastante desatentos, não conseguem enxergar além da notícia e tomam informações contidas em releases gerados por entidades a serviço de interesses poderosos como verdadeiras. A imprensa não consegue perceber que as empresas que produzem sementes engenheiradas são as mesmas que dominam o mercado dos agrotóxicos (veneno e não remédio de planta!), embora, em seu discurso, tentem propor um antagonismo irreal. Nem se dá conta de que há uma fonte recorrente (a Céleres) na divulgação das vantagens dos transgênicos e que ela está umbilicalmente comprometida com as fabricantes de biotecnologia e não deveria ser assumida como fonte independente (muito longe disso) nessa área.
A ação da Big Pharma, conjunto dos principais laboratórios farmacêuticos do mundo, também não tem sido percebida pela mídia, seduzida, geralmente, por notícias sobre medicamentos milagrosos, enquanto, por debaixo do tapete, as corporações (você lá leu A corporação, de Joel Bakan, recém lançado no Brasil, com o sugestivo subtítulo A busca patológica por lucro e poder?) inventam doenças, boicotam os genéricos, estendem patentes exauridas, quando não utilizam cidadãos em todo mundo como cobaias ( você assistiu ao filme O jardineiro fiel? ou leu o livro de Marcia Angell, A verdade sobre os laboratórios farmacêuticos?). Você pode não ter se dado conta mas os grandes laboratórios investem mais, muito mais em marketing do que em pesquisa em desenvolvimento e , particularmente nos países ricos, são grandes financiadores de campanhas eleitorais.
Enfim, “não existe almoço grátis” nessa área e muitas fontes tidas como de prestígio, independentes, são apenas bocas alugadas, recebem soldo de empresas, disfarçado de consultorias, palestras, quando não são mesmo seus funcionários de carreira.
A divulgação científica e o jornalismo científico precisam estar mais politizados, incorporando outras vertentes além da meramente técnica (na verdade, pretensamente técnica) para que não sejam utilizados como espaços de consolidação de monopólios e cartéis de toda ordem.
Felizmente, em nosso País, encontramos um número enorme de cientistas/pesquisadores efetivamente comprometidos com a aventura da ciência, com a democratização do conhecimento e que não se prestam a este jogo sujo que privilegia o interesse financeiro em detrimento da cidadania.
A ciência e a tecnologia devem estar a serviço da coletividade e, por isso, é vital a implementação de políticas públicas voltadas para o desenvolvimento científico e tecnológico (e também a inovação) e atentas à estratégia das ações monopolistas. É preciso mesmo quebrar as patentes dos laboratórios, quando está em jogo a saúde dos brasileiros; é preciso investir contra a indústria do tabaco, das armas, do fast-food, das bebidas, a ganância das montadoras, reduzir o avanço insustentável dos agrotóxicos e o monopólio dos adubos e fertilizantes. É essencial banir de vez o amianto, enquadrar as empresas de celulares e computadores (as maiores produtoras de lixo eletrônico), exigir a rotulagem dos transgênicos (se não fazem mal por que as empresas insistem em não rotular?) e olhar com atenção para o discurso falso das mineradoras e das empresas de papel e celulose.
A divulgação científica e o jornalismo científico precisam estar livres destas pressões insuportáveis de governos e empresas. A Academia, os Sindicatos, a sociedade civil devem estar empenhados no processo de alfabetização científica e não atuarem como legitimadores de processos espúrios de manipulação, de domínio em nome de um progresso técnico que desumaniza e subjuga os cidadãos.
A formação dos jornalistas e divulgadores científicos exige, portanto, mais do que uma competência técnica para produzir notícias, reportagens ou newsletters digitais, mas deve propiciar uma visão abrangente, precisa do que ocorre nos bastidores da produção e da divulgação da ciência e da tecnologia.
Acreditar em empresas monopolistas, em autoridades ou parlamentares financiados pelos interesses comerciais e em empresas e empresários da comunicação que enxergam a ciência e a tecnologia como mais um elemento lucrativo do balcão de negócios em que se transformaram alguns veículos (jornais, revistas, emissoras de rádio e TV, portais etc) brasileiros é apostar contra a inteligência, a qualificação da informação, e mesmo a soberania nacional.
A divulgação científica e o jornalismo científico precisam, urgentemente, incorporar uma perspectiva crítica, sintonizando-se, de vez, com os interesses dos cidadãos e do país. O seu grande desafio é enxergar além da notícia, buscando identificar empresas e grupos que continuam usando a mídia para consolidar os seus privilégios. Para isso, é preciso mais do que competência técnica, é preciso vontade política e coragem para impedir que o discurso insustentável e nefasto de organizações monopolistas prevaleça em detrimento de uma comunicação democrática e libertadora.
Sem essa postura e essa disposição cívica, continuaremos acreditando que os transgênicos vão matar a fome do mundo e que são ambientalmente saudáveis, que os agrotóxicos são remédio e não veneno, que o amianto é inócuo, que os setores de mineração, de papel e celulose, de tabaco e financeiro são sustentáveis (haja banco do planeta!) e que as farmacêuticas têm como objetivo maior cuidar da nossa saúde.
Está na hora de abrir os olhos. A postura transgênica na comunicação científica, que apenas legitima as monoculturas da mente, precisa ser definitivamente excluída.

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