Opinião: Ôh de casa

Atualizado em 01/04/2013 às 15:04, por Silvia Bessa.

A distinta senhora desistiu de acusar o companheiro de ameaçá-la e agredi-la e resolveu se “retratar”, para usar um jargão jurídico. “A senhora tem o direito. Mas cadê ele?”. “Tá lá em baixo no térreo, doutor”. “Chamem, porque quero conversar com ele”, avisou o promotor a um dos auxiliares. “Boa tarde, posso entrar?”. “Boa. Sente aí. Meu nome é João Maria, sou do Núcleo de Apoio à Mulher em Pernambuco e tenho algumas perguntas a lhe fazer (silêncio). A primeira: O senhor é um bom vizinho?”. “Sim”. E lá se foi: “O senhor é um bom funcionário?”. Seguiu:

“O senhor ameaça o seu vizinho? E no seu patrão, já bateu?”, disparou, adubando o terreno para então lançar a dita-cuja, a pergunta-chave.
“Na minha terra (o promotor é do Rio Grande do Norte) homem que ameaça ou agride mulher é covarde. Na sua é o quê?”. As orelhas do cidadão baixaram. Uma voz, das mais constrangidas, respondeu: “É covarde”. Imagino que o homem deve ter saído reflexivo dessa entrevista em que o objetivo era lembrar ao tal que ele tinha (ou tem) uma honra a preservar.
Garante o promotor que a estratégia funciona. A retratação acontece entre 25 e 30% dos casos que chegam à promotoria pernambucana. Desde que assumiu o cargo, em 2007, nunca recebeu novas denúncias de mulheres que se retrataram (não foi uma; e não foi um apenas o homem a baixar as orelhas e falar sobre sua covardia).
Supõe o doutor João Maria que a conquista está relacionada à abordagem feita ao acusado – ou ao ex-quase-futuro acusado. “Nunca estudei psicologia, mas a forma como inicio a conversa de homem para homem é o que traz resultados. E a minha pergunta final – que em nenhum momento é acusatória – mexe com os brios dos agressores.”
A teoria do promotor pode valer para a prática da reportagem. Falo da abordagem a cidadãos comuns, figuras que, quando saem no jornal, toda a família fica sabendo. E cito as andanças pelo Nordeste interiorano, minha praia.

Lá, sei que abordar uma mulher primeiro que um homem na porta de casa pode definir o rumo de uma conversa. Se você chega acompanhada de um promotor, é uma conversa que ouve; se chega com um agente de saúde, é outra; se está com o padre ou sozinho, pode esperar outras respostas. Se você resolve andar pelo sertão com roupas de shopping classe A, difícil ser convidado para comer uma galinha à cabidela com cuscuz e ouvir relatos espontâneos;se empunha um caderno de anotações tipo pesquisador do Ibope, espere respostas burocráticas; se está apressado e não compreende o tempo da fonte, encontra um entrevistado superficial. Se não pensa no caminho ideal para conseguir a melhor história ou não mede as primeiras palavras, sai sem a melhor história. Porque a abordagem de um repórter à fonte faz toda a diferença.

é repórter especial do Diário de Pernambuco. Escreve sobre questões sociais e direitos humanos no Nordeste. silviabessa@gmail.com