Opinião: O primeiro legado dos megaeventos esportivos

Trabalho e pesquiso sobre comunicação e gestão do esporte há muitos anos. E, nesse contexto, venho acompanhando todo o processo de organizaç

Atualizado em 03/07/2013 às 17:07, por Anderson Gurgel.

A Copa das Confederações, ao escancarar a insatisfação popular com a gestão de recursos públicos, foi mídia perfeita para a potencialização dos protestos que pedem um novo Brasil

ão da Copa do Mundo e também das Olimpíadas no Brasil. Por tudo isso dá para dizer que a Copa das Confederações, que acabou de ser realizada no País, já deixou um legado.

É claro que é um legado às avessas do que o marketing do assunto tenta vender, com a profusão de imagens do brasileiro como cordial, festeiro e, por tabela, desinteressado das questões políticas e econômicas. Mas, sem dúvida, os quinze dias de torneio deixaram “algo” que contribuiu para um novo momento do País.

Acredito que esse evento contribuiu para a abertura de um amplo debate na opinião pública brasileira: pautou a discussão sobre a boa gestão dos recursos e escancarou o debate sobre os ganhos e perdas que os altos investimentos geram para os países e cidades-sedes.

Também mostrou que a relação de entidades como a Fifa com os países democráticos está exposta e deve ser foco de amplo debate, pois algumas das exigências para a realização desses megaeventos, em muitos momentos, contrariam até leis básicas de uma nação soberana.

Em minha opinião, o agendamento dessas discussões na grande imprensa brasileira e até mesmo internacional e o fato de o povo nos protestos também externar essas questões já uma grande contribuição desse megaevento para o amadurecimento da sociedade brasileira.

Daí que digo que já é um tipo de legado: o da ampliação do nosso papel cívico e da revisão da ideia de que o futebol somente serve para alienar o povo brasileiro.

É difícil levantar uma tese sem maiores pesquisas, mas de início dá para perceber que a insatisfação das pessoas com a gestão dos megaeventos brasileiros apareceu difusa. Um dos primeiros atos, que já mostra que algo não ia bem, veio com a confusão envolvendo as caxirolas. Esses instrumentos musicais, convertidos em produtos de marketing oficial da Copa do Mundo, acabaram sendo usados com peças de protesto em um jogo-teste para o Mundial, em Salvador.

A chuva desses instrumentos dentro do campo alertou para riscos de segurança no evento e ela que era para ser a “versão brasileira da vuvuzela sul-africana com selo oficial” acabou sendo banida dos estádios ainda antes do início dos jogos. O que fica desse caso? Um exemplo de falta sintonia entre o que faz o comitê organizador da Copa do Mundo e a cultura do povo brasileiro. Um caso clássico de mau planejamento do marketing e do estudo do público-alvo.

O caso das caxirolas é uma excelente antessala para os protestos, em novo formato, que surgiram no jogo de abertura da Copa das Confederações, em Brasília, quando a Presidente da República, Dilma Rousseff, e o Presidente da Fifa, Joseph Blatter, foram sonoramente vaiados pela torcida que acompanhou o primeiro jogo da campanha vitoriosa da Seleção Brasileira, ante o Japão. O cerimonial chamaria isso de falta de educação; Blatter perguntaria falaria de falta de fair play, mas a verdade já era bem outra...

Contaminada pela onda de protestos que tomou conta do Brasil, a Copa das Confederações tornou-se um palco perfeito para veicular o momento de revisão geral pelo qual passa o país. Cartazes com dizeres como “Queremos hospitais e escolas com Padrão Fifa” ganharam as arquibancas e as ruas.

O próprio Hino Nacional empacotado no cerimonial dos jogos, em versão ligeira, acabou virando também uma arma das críticas: ao não aceitar a redução do hino, a torcida continuava cantando à capela, impedindo que o roteiro do espetáculo continuasse. O ápice disso deu-se no Maracanã, no jogo da final do torneio, quando a Seleção Nacional em sintonia com a arquibancada cantou a plenos pulmões a letra que fala de um gigante “deitado eternamente em berço esplêndido”.

Nas redes sociais, mensagens compartilhadas aos milhares falam de um gigante que acordou. E que quer um “Brasil com Padrão Fifa”, ou seja, com moradia, com educação, com saúde e outros serviços básicos de qualidade.

O movimento #vemprarua apropriou-se do que o povo brasileiro já conhece: o uniforme verde-amarelo, a bandeira do Brasil, o Hino Nacional e o clima festivo. Mas esses elementos, desta vez, foram usados para protestar e exigir mudanças. A foto da torcida na rua casa mistura-se com a do povo na rua exigindo e lutando por um novo País

O tempo dirá se esses dias invernais de Copa das Confederações de 2013 marcarão uma nova era no Brasil. Uma coisa, contudo, é certa: os críticos azedos que sempre defenderam o futebol e a Copa do Mundo como motivo de alienação do povo brasileiro terão que rever seus conceitos.

O mesmo futebol que nos mantinha embalados em berço esplêndido foi catalisador fundamental dessa retomada da consciência cívica e participativa da população. Esse legado nem a Fifa nem ninguém poderá nos tirar: o futebol foi mídia perfeita para externar tudo o que pensamos e tudo o que queremos para criar um novo Brasil. Bonito em campo e, muito mais, fora dele.

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