Opinião: O outro lado dos dois lados

A rede pública de rádio nos EUA (NPR) lançou um inovador manual de ética em fevereiro. Se fosse adotado pela imprensa no Brasil, seria fatal

Atualizado em 04/05/2012 às 12:05, por Moisés Rabinovici.

O outro lado dos dois lados

Crédito:Leo Garbin : a maior parte das notícias que vemos, ouvimos ou lemos não viria a público.
A principal inovação é a que leva o repórter da NPR a procurar o melhor argumento de cada lado envolvido numa controvérsia, e não mais apenas aquele jornalismo do “fulano disse, sicrano disse”. O “outro lado”, em geral destacado para exibir imparcialidade, pode gerar um falso equilíbrio – e, portanto, um artigo falso.
Do novo manual da NPR: “Em todas as nossas coberturas, especialmente diante de assuntos controvertidos, nos esforçaremos em considerar os argumentos mais fortes que encontrarmos em todos os lados, dando à luz nuanças e clareza. Nosso objetivo não é o de satisfazer aqueles para os quais noticiamos nem produzir histórias que criem a aparência de equilíbrio, mas procurar a verdade”.
Leitores e ouvintes são os destinatários das reportagens, não as fontes. “Se uma fonte tentar nos enganar, ou oferecer informação falsa, denunciaremos a nossa audiência. Se a balança de provas numa controvérsia pender pesadamente para um lado, o reconheceremos. Queremos passar a confiança de que todos os lados foram considerados e representados com justiça.
A NPR está exorcizando alguns pecadilhos. Em 2010, ela despediu um de seus veteranos jornalistas, Juan Williams, porque ele admitiu, no programa “The O'Reilly Factor”, da Fox News, que fica “nervoso e preocupado quando embarca num avião que tenha passageiros que fazem questão de se identificar como muçulmanos”.
Quem o despediu, alguns meses depois, renunciou, alvo de um tsunami de criticismo. Em 2011, a NPR (como a CNN, a Fox News e o The New York Times) noticiou a morte da deputada Gabrielle Giffords, baleada na cabeça quando se encontrava com seus eleitores. As fontes do erro foram o xerife e os assessores da própria vítima. Um pedido de desculpas foi ao ar.
O manual da NPR lista princípios e não regras a cumprir. Nem sugere graus de punição para cada delito de ética flagrado. O professor de jornalismo Jay Rosen, da Columbia University, saudou-o com um “Bravo!”. O que ele mais elogiou foi o fim dos excessos do “he said, she said”, o outro lado de uma denúncia feita, burocraticamente, para aparentar justiça. Está valendo agora a nova abordagem de busca múltipla da verdade.
Um leitor postou nos comentários do blog de Rosen trechos da Constituição da China, que assegura a cada chinês de 18 anos o direito a voto e de se candidatar, liberdade inviolável de imprensa e religião, de assembleia e manifestação. Regras e princípios são feitos para não serem cumpridos? Sim, quando não passam de mera propaganda. Não é o caso da NPR.
Coluna publicada na edição de maio (278) da Revista IMPRENSA