Opinião: "O direito de pautar", por Leandro Massoni Ilhéu

A vitória alvinegra pelo placar de 2 a 0, acabou dando o lugar a uma polêmica envolvendo o goleiro palmeirense Jailson e sua mãe corintiana,

Atualizado em 07/03/2018 às 15:03, por Leandro Massoni Ilhéu.

Crédito:Arquivo pessoal No mês passado, Corinthians e Palmeiras jogaram mais um clássico, válido pelo Campeonato Paulista de 2018. O resultado final, que foi dona Maria Antonia, que compareceu à Arena Corinthians vestida com a camisa do rival.
O fato, um tanto curioso, rendeu pautas e até uma reportagem feita pela TV Globo, que durante a partida, flagrou a mãe do arqueiro do time alviverde torcendo, e principalmente, vibrando com o segundo gol corintiano, em cobrança de pênalti, marcado após a expulsão de Jailson. No primeiro tento do clube de Parque São Jorge, a progenitora nem sequer esboçou reação, pois observara o filho buscando a bola nas redes. Após o jogo, houve polêmicas, e muitas por sinal! Principalmente sobre o que a mãe de Jailson, corintiana “roxa”, estava fazendo lá, ainda mais no meio da torcida alvinegra.
O ocorrido gerou muitas discussões não somente entre alguns torcedores palmeirenses, que questionaram a presença de Maria Antonia no clássico, como também na própria imprensa esportiva.
Eu confesso que não vi nada demais o fato de um familiar estar num estádio torcendo pelo seu time enquanto está com o coração apertado devido à preocupação com o filho, que joga na agremiação adversária. Aliás, tanto a repercussão (positiva, e não negativa) na mídia quanto à matéria feita pela emissora pertencente à família Roberto Marinho, favoreceram a prática de um jornalismo esportivo diferente, talvez mais humano e próximo do público do que propriamente conservador e restrito nas quatro linhas.
Mas neste caso, a causa do problema está mais precisamente no público, que, ao meu ver, precisa enxergar que são salutares esses tipos de pautas para a sobrevivência do jornalismo esportivo, que tem o dever de levar informações, e por que não, fatos inusitados e curiosos que acontecem principalmente no esporte bretão.
Digo isso porque muitos colegas palmeirenses, e inclusive alguns de profissão, criticaram a postura de Jailson diante do episódio. Segundo o goleiro, ele mesmo havia pedido a dona Maria Antonia para que não fosse ao clássico na Arena Corinthians. Entretanto, contrariando a vontade do filho, ela resolveu seguir seu coração e assistir à partida.
Talvez seja um pouco complicado alguns entenderem que o futebol deve ter rivalidade apenas dentro de campo e não fora e, muito menos, com quem está transmitindo-o. O jornalismo, assim como a mãe e o Jailson, precisam ser livres para pensar e agir como bem entenderem. Nada do que aconteceu naquele jogo apagará o que o goleiro palmeirense fez e continua fazendo pelo seu time. E a (parcela da) imprensa esportiva (que apoiou a atitude do atleta e de sua mãe), na minha visão, fez o certo, pois estava cumprindo com a obrigação de deixar seu público informado.
Vale ressaltar que a formação de opinião através da informação sempre é válida, desde que haja bom senso e respeito quanto aos envolvidos no assunto. A falta de consideração vinda de uma parcela de jornalistas, palmeirenses e demais pessoas em meio a esse tema deixou claro que é necessária a separação da emoção, a paixão e a torcida da razão e o profissionalismo.
Não quero que pensem que estou defendendo o Jailson ou sua mãe, mas apenas estou esclarecendo que nós, principalmente comunicadores, devemos ser coerentes e evitar essa crucificação quase que rotineira e desnecessária de personagens que fazem do esporte que é a maior paixão de muitos brasileiros. Temos o direito de questionar e opinar acerca dos resultados e dos acontecimentos, mas sem deixar que o nosso lado pessoal seja mais forte que o profissional, a ponto de partir para a violência verbal e outras agressividades que estimulem o ódio, sentimento que tem cada vez mais contaminado aqueles que estão em torno da modalidade.
Enfim, o bom jornalismo esportivo necessita respirar as boas (e criativas) pautas e deixar de lado a interferência pessoal. Então, vivamos o direito de pautar!
* é jornalista formado pela Universidade Paulista (Unip) e pós graduado em Jornalismo Esportivo e Multimídias pela Anhembi Morumbi. É também radialista pela Rádioficina Escola de Rádio e Televisão. Tem se aventurado a escrever sobre jornalismo esportivo por meio do site Comunique Esporte. É também autor do vídeo documentário “O Futebol Nacional”, que conta a história do Nacional Atlético Clube através do ponto de vista de jornalistas e peritos no esporte bretão.