Opinião: Num país que vive uma crise financeira, dá muito o que falar a chegada de produtos macrobióticos para um só homem

Acada dia as informações de arquivos oficiais, até então fechados a sete chaves, vazam com mais facilidade, e não só por causa do WikiLeaks.

Atualizado em 06/06/2011 às 10:06, por Yoani Sánchez.

Silêncio Macrobiótico

Essas revelações nos fazem crer que em Cuba vivemos uma descoberta sobre nós mesmos a cada semana, nutridos de passagens silenciadas pela imprensa oficial. Uma das mais escandalosas revelações dos últimos tempos ocorreu em janeiro de 2010, relacionada à morte - por inanição e frio - de dezenas de pacientes em um hospital psiquiátrico de Havana. Cerca de 300 fotos tiradas das autópsias saíram do controle do governo e foram parar nas mãos dos cidadãos, mostrando o descaso em que viviam os internos. Nunca se soube ao certo quem são os autores das imagens. Somente após a divulgação das imagens a televisão fez um anúncio sobre as mortes.
Outro exemplo recente foi a publicação da dieta macrobiótica, pela qual se mantém Fidel Castro, criada e supervisionada por um importante instituto especializado em nutrição. O menu inclui desde algas trazidas do Japão até arroz integral cultivado sem pesticidas. Em um país onde a grande pergunta é "O que vou comer hoje?", tal descoberta caiu como um balde de água fria. O que mais tem incomodado os cubanos é que tais excessos acontecem de forma mascarada, debaixo do discurso de austeridade e militância.
Desatou-se uma verdadeira caça às bruxas por parte dos encarregados da segurança de informática do centro científico para identificar os responsáveis pelos vazamentos. Analisar esse acontecimento é como ver uma bolsa cheia de água que começa a se abrir em pequenos buracos até que se esvazie por completo. Em poucas horas se revelam ao público um sistema que se baseou por tanto tempo no "secreto" e guardou por tanto tempo os cochichos do palácio e a corrupção de funcionários.
É óbvio que os 11 milhões de cubanos já não acreditavam que o comandante comia o mesmo que cada um deles recebe em sua cota mensal de alimentos. Porém, a enorme diferença entre o prato de uns e de outros tem deixado indignação no ar. Num país que vive uma grave crise financeira, uma dualidade monetária e a baixa produtividade, dá muito o que falar a chegada de um navio carregado de produtos macrobióticos italianos para manter vivo um só homem.
É como dar um salto do abismo, posto que a maior parte dos cubanos nem sequer sabe o que são agricultura orgânica e vegetais sem agrotóxicos. Muito menos já desfrutaram de um azeite de oliva de primeira prensada. Isso deixa clara a esquizofrênica dualidade entre o que se promove desde a tribuna até o que fica por trás das cortinas. Mas a cada semana que passa é mais difícil ocultar qualquer informação. Talvez nesses momentos, um ancião de barba quase branca leva a sua boca uma colher de cuzcuz integral e uma pequena porção de sushi de sabor delicado.Ele pensa que está sozinho, porém uma multidão ávida está lhe observando. Cada grama que ele leva a sua boca, se conhece de antemão, assim como cada detalhe que escondeu no passado também vai se tornando pública.