Opinião: “'Novo jornalismo' = bom jornalismo", por Patrícia Paixão
Algumas pessoas pensam que para fazer jornalismo literário basta ter inspiração e contar com um texto poético, dominando algumas técnicas da
Atualizado em 30/05/2018 às 11:05, por
Patrícia Paixão.
Crédito:Arquivo pessoal O chamado “jornalismo literário” costuma gerar encantamento em muitas salas de aula de jornalismo. Aberturas climáticas como a do lendário perfil “Frank Sinatra está resfriado”, de Gay Talese (publicado na revista Esquire, em 1966), ou o irônico e elegante relato que Joel Silveira fez na década de 40 do cotidiano das famílias quatrocentonas de São Paulo (reportagem 1943: Eram assim os grã-finos em São Paulo, publicada na revista Diretrizes) continuam provocando suspiros nos aspirantes a repórter, mostrando que é possível contar histórias de maneira sedutora, como um roteiro de um filme ou um romance.
Tom Wolfe, que nos deixou em 14 de maio de 2018, é um dos mestres do chamado “novo jornalismo”, essa forma mais contextualizada e envolvente de contar o fato que, nos EUA, desabrocha nos anos 60. No livro The New Journalism, de 1973, ele aponta algumas características desse estilo de texto que, além dele e de Talese, teve expoentes como Truman Capote, Norman Mailer e Lilian Ross. Entre essas características estão a narração cena a cena, a descrição detalhada do ambiente e do entrevistado e o uso de diálogos, como maneira eficiente de definir os personagens.
Um texto construído com essas técnicas consegue conquistar o leitor, pois o coloca na cena do fato. É como se a história estivesse acontecendo de novo na frente do leitor. No entanto, exige do repórter uma entrega e um esforço muito maior, um verdadeiro mergulho no acontecimento, para captar todas as suas nuances, seu clima e conseguir relatos interessantes das fontes, a partir da relação de confiança estabelecida com elas.
Uma vez um aluno, diante do meu questionamento do porquê o perfil que ele escrevera não trazia nenhuma entrevista (nem mesmo a do perfilado), me disse: “Mas Gay Talese não entrevistou Frank Sinatra para escrever o perfil dele e mesmo assim fez um grande texto”. Com enorme indignação respondi: “Acontece, meu caro, que ele entrevistou dezenas de pessoas que conviviam com Sinatra e esteve em bares, estúdios de gravação e outros lugares que o cantor frequentava”. Ou seja, mergulhou no mundo do cantor, num grande esforço de reportagem.
literatura. Ledo engano. Jornalismo literário exige muita transpiração, muito da arte de sujar os sapatos. E nossas redações hoje, vivendo sucessivos passaralhos, com pouco investimento em reportagem de rua, são um ambiente inóspito para esse tipo de jornalismo. Os poucos que se dedicam a esse estilo de texto costumam ser os chamados “repórteres especiais” que podem se dar ao luxo de cobrir mais tempo um fato. Ou os jornalistas que atuam em revistas, que contam com deadlines mais amigáveis e maior espaço para publicar, além dos repórteres que estão em veículos mais independentes, como alguns canais jornalísticos na internet. Ou ainda aqueles que conseguem publicar livros-reportagem.
Além disso, há o efeito das novas tecnologias. Nada contra usar o WhatsApp e o Skype em um ou outro caso específico, por exemplo quando é preciso entrevistar pessoas que estão em outras cidades ou até mesmo em um país diferente. Mas ficar apenas na dependência dessas ferramentas é empobrecer demais o trabalho jornalístico. Infelizmente, hoje percebo muitos alunos privilegiando essas tecnologias, nos exercícios que propomos em aula. Pior é quando ouço: “Precisa entrevistar?” Sim, pasmem! Há certos estudantes de jornalismo (felizmente poucos) que não gostam de fazer entrevistas. Então eu pergunto: como escrever um texto atrativo, com construção de cenas e diálogos, sem estar no local do fato? Como descrever física e psicologicamente um personagem sem estar tête à tête com ele? Impossível!
“Ah, mas o leitor hoje não quer saber desse tipo de matéria. Quer texto curto e que vá direto ao ponto”. Será? As excelentes colunas de Eliane Brum para o El País, escritas artesanalmente, lapidadas como se fossem uma joia preciosa, continuam sendo muito bem lidas. Há os que querem ir direto ao ponto sim, mas existem aqueles que querem um texto para ser degustado parágrafo a parágrafo, sem a pasteurizada fórmula da pirâmide invertida. Aliás, muitos apostam que essa seria a saída para o jornalismo impresso ganhar fôlego (diante das previsões de que ele vai acabar), deixando de ser mera reprodução do que a internet, o rádio e a TV divulgaram no dia anterior.
Fazer jornalismo literário nada mais é do que fazer bom jornalismo: imergir na situação abordada, ser um exímio observador, conseguir bons personagens, fazer muitas entrevistas, apurar ao máximo e planejar um belo texto. Ter inspiração e dominar técnicas literárias são sim habilidades importantes, mas sem a ida a campo e sem entrevistas o repórter estará fazendo ficção, e não jornalismo.
* é jornalista e professora do curso de Jornalismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie e da Universidade Anhembi Morumbi. É organizadora dos livros "Jornalismo Policial: Histórias de Quem Faz" (In House, 2010) e "Mestres da Reportagem" (In House, 2012). Também é responsável pelo blog Formando Focas.
Tom Wolfe, que nos deixou em 14 de maio de 2018, é um dos mestres do chamado “novo jornalismo”, essa forma mais contextualizada e envolvente de contar o fato que, nos EUA, desabrocha nos anos 60. No livro The New Journalism, de 1973, ele aponta algumas características desse estilo de texto que, além dele e de Talese, teve expoentes como Truman Capote, Norman Mailer e Lilian Ross. Entre essas características estão a narração cena a cena, a descrição detalhada do ambiente e do entrevistado e o uso de diálogos, como maneira eficiente de definir os personagens.
Um texto construído com essas técnicas consegue conquistar o leitor, pois o coloca na cena do fato. É como se a história estivesse acontecendo de novo na frente do leitor. No entanto, exige do repórter uma entrega e um esforço muito maior, um verdadeiro mergulho no acontecimento, para captar todas as suas nuances, seu clima e conseguir relatos interessantes das fontes, a partir da relação de confiança estabelecida com elas.
Uma vez um aluno, diante do meu questionamento do porquê o perfil que ele escrevera não trazia nenhuma entrevista (nem mesmo a do perfilado), me disse: “Mas Gay Talese não entrevistou Frank Sinatra para escrever o perfil dele e mesmo assim fez um grande texto”. Com enorme indignação respondi: “Acontece, meu caro, que ele entrevistou dezenas de pessoas que conviviam com Sinatra e esteve em bares, estúdios de gravação e outros lugares que o cantor frequentava”. Ou seja, mergulhou no mundo do cantor, num grande esforço de reportagem.
literatura. Ledo engano. Jornalismo literário exige muita transpiração, muito da arte de sujar os sapatos. E nossas redações hoje, vivendo sucessivos passaralhos, com pouco investimento em reportagem de rua, são um ambiente inóspito para esse tipo de jornalismo. Os poucos que se dedicam a esse estilo de texto costumam ser os chamados “repórteres especiais” que podem se dar ao luxo de cobrir mais tempo um fato. Ou os jornalistas que atuam em revistas, que contam com deadlines mais amigáveis e maior espaço para publicar, além dos repórteres que estão em veículos mais independentes, como alguns canais jornalísticos na internet. Ou ainda aqueles que conseguem publicar livros-reportagem.
Além disso, há o efeito das novas tecnologias. Nada contra usar o WhatsApp e o Skype em um ou outro caso específico, por exemplo quando é preciso entrevistar pessoas que estão em outras cidades ou até mesmo em um país diferente. Mas ficar apenas na dependência dessas ferramentas é empobrecer demais o trabalho jornalístico. Infelizmente, hoje percebo muitos alunos privilegiando essas tecnologias, nos exercícios que propomos em aula. Pior é quando ouço: “Precisa entrevistar?” Sim, pasmem! Há certos estudantes de jornalismo (felizmente poucos) que não gostam de fazer entrevistas. Então eu pergunto: como escrever um texto atrativo, com construção de cenas e diálogos, sem estar no local do fato? Como descrever física e psicologicamente um personagem sem estar tête à tête com ele? Impossível!
“Ah, mas o leitor hoje não quer saber desse tipo de matéria. Quer texto curto e que vá direto ao ponto”. Será? As excelentes colunas de Eliane Brum para o El País, escritas artesanalmente, lapidadas como se fossem uma joia preciosa, continuam sendo muito bem lidas. Há os que querem ir direto ao ponto sim, mas existem aqueles que querem um texto para ser degustado parágrafo a parágrafo, sem a pasteurizada fórmula da pirâmide invertida. Aliás, muitos apostam que essa seria a saída para o jornalismo impresso ganhar fôlego (diante das previsões de que ele vai acabar), deixando de ser mera reprodução do que a internet, o rádio e a TV divulgaram no dia anterior.
Fazer jornalismo literário nada mais é do que fazer bom jornalismo: imergir na situação abordada, ser um exímio observador, conseguir bons personagens, fazer muitas entrevistas, apurar ao máximo e planejar um belo texto. Ter inspiração e dominar técnicas literárias são sim habilidades importantes, mas sem a ida a campo e sem entrevistas o repórter estará fazendo ficção, e não jornalismo.
* é jornalista e professora do curso de Jornalismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie e da Universidade Anhembi Morumbi. É organizadora dos livros "Jornalismo Policial: Histórias de Quem Faz" (In House, 2010) e "Mestres da Reportagem" (In House, 2012). Também é responsável pelo blog Formando Focas.





