Opinião: Não utilizar mais do que dois tipos de fontes no mesmo documento é regra básica para quem faz design
Não utilizar mais do que dois tipos diferentes de letras num mesmo documento é regra consensual e básica para quem faz design gráfico, embor
Atualizado em 27/05/2011 às 19:05, por
Vicente Gil.
Luxo ou lixo?
Na seção "Ano 1 | Nº 1", número anterior desta revista, foi divulgado o lançamento da revista GQ, "Fundada há 55 anos e publicada em 17 países, a revista de luxo, voltada para o público masculino.". O que constatamos como verdadeiro, sem considerar o conteúdo, é que conseguiram piorar graficamente o que já era ruim na versão original americana.
Citando o escultor e designer de tipos inglês Eric Gill (1892-1940), responsável, em 1928, pelo desenho da fonte Gill Sans para a Monotype Corporation: "Existem agora tantas variações tipográficas quanto a diversidade de tolos". Essa citação é anterior a 1940. Imaginem qual seria o comentário hoje, diante dessa catástrofe tipográfica utilizada na versão nacional da revista GQ, com projeto gráfico e diagramação totalmente equivocados. Houve uma má interpretação das regras básicas, completamente distorcida. Não se tratou de quebrar regras, mas de seu não entendimento. Não que chegássemos a imaginar o exagero proposto conceitualmente pelo respeitável designer ítalo-americano Massimo Vignelli, segundo o qual "um designer deveria somente utilizar cinco tipografias: Bodoni, Helvetica, Times Roman, Century e Futura" - ele não queria dizer em conjunto, mas isoladamente.
a alguns designers possam ter uma postura menos radical e fazer uso de três. Mas usar a regra de forma incorreta é com o que nos deparamos de imediato na capa da revista (figura 1). Parece que foram utilizadas duas tipografias, uma serifada e outra sem serifa, porém, com aproximadamente 12 variações nas sem serifa e quatro nas serifadas, o que destroi completamente essa regra básica e simples, produzindo um resultado pobre, que não é tradução de luxo nenhum, mas sim de lixo. Provoca um desinteresse pela leitura da revista, não temos vontade de abri-la, a não ser que seja para conferir a modelo colocada na capa. Se abrirmos, olharmos e analisarmos o conjunto da revista, aí sim, de verdade, teremos um show de horrores (figuras 3, 4, 5 e 6). Constatamos numa rápida análise que existem centenas de erros elementares que não podem ter sido cometidos propositadamente, mas, sim, por amadores que não têm noção do papel do design gráfico: letras finíssimas sobre fundos chapados de cor, ou sobre fundos claros sem nenhum contraste.
A versão americana (figura 2), mais cuidadosa, utiliza poucas variações na tipografia, mantendo-se mais coerente e equilibrada visualmente. Como nas palavras em inglês não existe acentuação nem cedilha, fica fácil a utilização de entrelinhas apertadas, na versão em caixa alta, sem grandes conflitos. Portanto temos, na versão nacional, um agravante, pois isso fica inviável. Por exemplo, o acento do nome "Ambrósio".
É um atentado ao bom senso em design gráfico elementar, assim como uma centena de outros equívocos cometidos em todas as páginas internas da revista. Desde o projeto e a diagramação da página de créditos (figura 7), na qual atestamos o interesse e níveis de preocupação do designer, assim como sua relação com o projeto, verificamos que na versão americana (figura 8) a solução é muitíssimo melhor, sem a utilização de linhas largas de expediente, cuja leitura é muito difícil.
Segundo Anneloes van Gaalen, em sua publicação "Never Use More than Two Different Typefaces - And 50 Other Ridiculous Typography Rule", "No mundo da tipografia, legibilidade e leitura reinam absolutas. Num esforço para obter simultaneamente as duas, os designers podem realmente contar com uma extensa lista de regras, restrições e regulamentos. 'Nunca estique as letras', 'Nunca utilize mais de dois tipos de letras', 'Nunca use letras brancas sobre um fundo preto'; a lista continua... Esses dogmas do design ajudam os principiantes em tipografia, mas não são justamente as novidades utilizadas em tipografia", muito menos ainda na revista GQ, edição brasileira, que, claro, em se tratando de um projeto grande e importante como o de uma revista com esse lastro, não poderíamos exigir que fossem utilizados apenas dois ou três tipos de letras na publicação toda. Como básicos, talvez, mas no conjunto poderíamos chegar até o máximo de cinco ou seis, para diferenciar seções especiais. Mas o que temos ao longo da revista, no conjunto do projeto, é um verdadeiro festival tipográfico no qual tudo é permitido. Seria esse o conceito de clássico/moderno que o editor cita no editorial? "GQ é uma revista masculina como ainda não se viu no Brasil: é clássica e, ao mesmo tempo, moderna; tem profundidade jornalística e humor fino.", o trecho em que comenta "como ainda não se viu no Brasil" atesta certo desconhecimento por parte do editor de uma das mais bem-sucedidas experiências em termos de revistas em nosso país, a Senhor. que circulou de 1959 a 1964 e sem dúvida foi um luxo - e não um lixo para os padrões até mesmo atuais.






