Opinião: Muito trovão e pouca chuva

O exagerado "bom mocismo", alardeado pelos departamentos de marketing, promoção e assessorias de imprensa de muitas empresas, joga no lixo uma das maiores conquistas do marketing dos últimos anos: o apoio às causas sociais e comunitárias.

Atualizado em 27/07/2011 às 16:07, por Eloi Zanetti.

O uso excessivo da mídia e da promoção usando as causas sociais que algumas empresas dizem fazer e não fazem desacredita o trabalho sério de muita gente.
Em um país onde é comum a mídia e a promoção andarem mais rápido do que o fato, haverá sempre uma enorme defasagem entre o divulgado e o que foi realmente realizado. Como sempre, falsas promessas e esperanças alimentam o nosso povo. E esse muito dizer e pouco fazer por parte das empresas mal intencionadas a respeito do assunto social comunitário criam descrédito sobre as suas propaladas intenções. O público não é ingênuo e desconfia quando o anunciado é falso. Para algumas ações empresariais, o tiro já está saindo pela culatra, ninguém acredita.
Nos últimos anos, o assunto virou moda e posar de bonzinho e benfeitor das causas comunitárias nas rodas sociais e empresariais virou sinônimo de politicamente correto. De uma hora para outra apareceram dezenas de prêmios em prol das causas sociais. Faculdades montaram às pressas cursos sobre a matéria e esses, ministrados por gente que nunca trabalhou em causa nenhuma, "ensinam". Artigos em jornais e revistas sobre esses pretensos salvadores do mundo são publicados à exaustão, pois novos empresários amigos do verde e dos pobres não faltam. Espaços especiais são abertos para tratar dos temas apresentados. Institutos, Ong´s, Osip´s e Fundações nascem todos os dias. Feiras sobre essa repentina boa vontade social das empresas brasileiras proliferam por todo o país. "Não deixe a sua mão esquerda saber o que a sua mão direita faz" pode ser aplicado em quase todos os setores.
Infelizmente algumas empresas e seus departamentos ditos de marketing, percebendo que podem tirar vantagens promocionais em aliar seus nomes em causas sociais aprenderam cedo a "usar o santo nome da ecologia, da fome, da miséria e dos meninos de rua em vão."
Recentemente, vi uma grande empresa apresentar suas atividades sobre alfabetização de adultos. Quando perguntados sobre quantas pessoas haviam sido alfabetizadas comparadas ao gasto de mídia e de promoção sobre o projeto, o apresentador meio que se desculpou e apresentou modestíssimos números. "Então, voltem para a empresa e alfabetizem umas 100 mil e só depois apresentem alguma coisa ao público. "Pois com o dinheiro que estão gastando em promoção poderiam oferecer bolsa de estudos para vários alunos por muitos anos", disse um indignado ouvinte.
Outra empresa da área financeira e que sabidamente não faz nada em prol da ecologia alardeia em outdoors e em ações promocionais milionárias a sua participação na área. Quem faz trabalho sério e competente, ao ver valores expressivos serem usados na sustentação de mentiras e não na causa final, se desestimula.
Em boa hora, a partir de 1º de agosto o Conselho de Autorregulamentação Publicitária (Conar) vai começar a olhar com mais atenção para os atributos verdes dos produtos e serviços anunciados pelas empresas. Elas terão que comprovar as qualidades sustentáveis anunciadas e o que alardearem terá que ser passível de verificação e comprovação. Já é tempo de dar um basta nesse festival de promoção enganosa. Em alguns países existe até um termo que define a promoção enganosa, quando se trata de atributos verdes - greenwashing.