Opinião: "Mais um ano em que o jornalismo nos presenteou com grandes histórias", por Patrícia Paixão
2017 se encerra com notícias da chamada “crise do jornalismo”. Passaralhos, fim da versão impressa de veículos, anúncio de vagas precarizadas, colegas trabalhando, como pejotas, sem direitos básicos garantidos.
Atualizado em 19/12/2017 às 15:12, por
Patrícia Paixão.
Motivos não faltam para esta última coluna do ano ser escrita em tom de pessimismo, mas ainda assim eu consigo lembrar das coisas maravilhosas que o jornalismo nos proporcionou em 2017.
Foi graças a ele que um personagem antigo da cidade de São Paulo, que até então era reduzido ao apelido de “Fofão da Augusta”, ganhou uma identidade e teve sua história reconhecida: Ricardo Corrêa da Silva. Como não lembrar do emocionante texto do jornalista Chico Felitti, publicado no BuzzFeed em 27 de outubro? Soubemos, por meio dessa grande reportagem, que Ricardo era natural de Araraquara (interior de São Paulo), que foi um cabeleireiro renomado nos anos 80, tendo atendido atrizes como Glória Menezes, que tinha grande talento, admiradores e amigos, e também diversos tropeços na vida, como muitos de nós.
Na minha juventude pelas boates da região da Avenida Paulista, vire e mexe cruzava com Ricardo. Com a minha curiosidade de repórter, sempre quis saber mais sobre aquele homem enigmático, que andava com o rosto pintado. Chico Felitti realizou esse sonho. Mas fez muito mais do que isso! Mostrou-nos que Ricardo era um ser humano, que tinha sentimentos, pensamentos, vontades, gostos, manias. Deu vida a Ricardo, pouco antes de sua morte. Ricardo infelizmente faleceu no último dia 15 de dezembro, mas deixou esse mundo de forma mais digna, passou a ter sua história admirada por todos que leram o texto de Felitti. Morreu como Ricardo e não como uma mera figura caricata, que estampava páginas e memes no Facebook. Milhares se comoveram com sua morte, e isso graças à reportagem de Felitti. Uma homenagem em forma de texto.
Igualmente nos emocionamos neste ano com a grande reportagem de Adriano Wilkson, publicada no UOL, sobre o torturante processo de perda de peso que o lutador de MMA Acácio “Pequeno” Santos passou, em um motel, para conseguir ficar na pesagem recomendada para a sua categoria. Suamos junto com Acácio, sentimos toda a sua aflição na banheira com água quente no motel e no carro fechado, quando colocava a cabeça para fora do veículo, de tempos em tempos, para conseguir respirar. Ao final, pudemos acompanhar a luta entre Acácio e Quemuel Ottoni, e sua vitória sobre o oponente, como se, de fato, estivéssemos ao lado do octógono. Vibramos pela sua vitória, nos colocando no seu lugar, após tanto sofrimento e perseverança. Empatia, eis uma das qualidades que o bom jornalismo sabe despertar.
E como não lembrar de casos em que o nosso jornalismo reparou injustiças, como na reportagem feita por Kaique Dalapola (que encho a boca para dizer: É MEU ALUNO), da Ponte Jornalismo? Graças à denúncia feita no texto de Kaique, a Justiça inocentou o ambulante Wilson Alberto Rosa, de 32 anos, que foi detido no sinal de trânsito da Avenida República do Líbano com Avenida Ibirapuera, na zona sul de São Paulo, sob a acusação de ter roubado um aparelho celular e um tablet em 2016. Não foram encontradas provas contra o vendedor. Uma vida salva pela força da reportagem.
Ou quando o jornalismo destaca personagens que lutaram arduamente para serem reconhecidos, como no caso da matéria “Quem são as cientistas negras brasileiras?”, produzida por Beatriz Sanz (outra aluna minha, que orgulho, gente!) para o El País?
Apesar dos pesares, eu vejo o jornalismo bem vivo e vibrante. Eu vejo repórteres experientes, e também os mais jovens, atuando apaixonadamente, mesmo com todos os problemas relacionados à profissão, e fazendo o melhor dos jornalismos. Então, não vou finalizar o ano com previsões catastróficas ou comentários negativos, desanimando aqueles que pensam em seguir a profissão. Sim, há muitos problemas, sim há cortes, baixos salários, precarização, mas a reportagem vive e mostra-se cada vez mais importante. E vai continuar firme e forte, enquanto houver repórteres que amam o que fazem.
Crédito: Arquivo pessoal
* é jornalista e professora do curso de Jornalismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, da Universidade Anhembi Morumbi e das Faculdades Integradas Rio Branco. É organizadora dos livros "Jornalismo Policial: Histórias de Quem Faz" (In House, 2010) e "Mestres da Reportagem" (In House, 2012). Também é responsável pelo blog Formando Focas.
Saiba mais:
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Foi graças a ele que um personagem antigo da cidade de São Paulo, que até então era reduzido ao apelido de “Fofão da Augusta”, ganhou uma identidade e teve sua história reconhecida: Ricardo Corrêa da Silva. Como não lembrar do emocionante texto do jornalista Chico Felitti, publicado no BuzzFeed em 27 de outubro? Soubemos, por meio dessa grande reportagem, que Ricardo era natural de Araraquara (interior de São Paulo), que foi um cabeleireiro renomado nos anos 80, tendo atendido atrizes como Glória Menezes, que tinha grande talento, admiradores e amigos, e também diversos tropeços na vida, como muitos de nós.
Na minha juventude pelas boates da região da Avenida Paulista, vire e mexe cruzava com Ricardo. Com a minha curiosidade de repórter, sempre quis saber mais sobre aquele homem enigmático, que andava com o rosto pintado. Chico Felitti realizou esse sonho. Mas fez muito mais do que isso! Mostrou-nos que Ricardo era um ser humano, que tinha sentimentos, pensamentos, vontades, gostos, manias. Deu vida a Ricardo, pouco antes de sua morte. Ricardo infelizmente faleceu no último dia 15 de dezembro, mas deixou esse mundo de forma mais digna, passou a ter sua história admirada por todos que leram o texto de Felitti. Morreu como Ricardo e não como uma mera figura caricata, que estampava páginas e memes no Facebook. Milhares se comoveram com sua morte, e isso graças à reportagem de Felitti. Uma homenagem em forma de texto.
Igualmente nos emocionamos neste ano com a grande reportagem de Adriano Wilkson, publicada no UOL, sobre o torturante processo de perda de peso que o lutador de MMA Acácio “Pequeno” Santos passou, em um motel, para conseguir ficar na pesagem recomendada para a sua categoria. Suamos junto com Acácio, sentimos toda a sua aflição na banheira com água quente no motel e no carro fechado, quando colocava a cabeça para fora do veículo, de tempos em tempos, para conseguir respirar. Ao final, pudemos acompanhar a luta entre Acácio e Quemuel Ottoni, e sua vitória sobre o oponente, como se, de fato, estivéssemos ao lado do octógono. Vibramos pela sua vitória, nos colocando no seu lugar, após tanto sofrimento e perseverança. Empatia, eis uma das qualidades que o bom jornalismo sabe despertar.
E como não lembrar de casos em que o nosso jornalismo reparou injustiças, como na reportagem feita por Kaique Dalapola (que encho a boca para dizer: É MEU ALUNO), da Ponte Jornalismo? Graças à denúncia feita no texto de Kaique, a Justiça inocentou o ambulante Wilson Alberto Rosa, de 32 anos, que foi detido no sinal de trânsito da Avenida República do Líbano com Avenida Ibirapuera, na zona sul de São Paulo, sob a acusação de ter roubado um aparelho celular e um tablet em 2016. Não foram encontradas provas contra o vendedor. Uma vida salva pela força da reportagem.
Ou quando o jornalismo destaca personagens que lutaram arduamente para serem reconhecidos, como no caso da matéria “Quem são as cientistas negras brasileiras?”, produzida por Beatriz Sanz (outra aluna minha, que orgulho, gente!) para o El País?
Apesar dos pesares, eu vejo o jornalismo bem vivo e vibrante. Eu vejo repórteres experientes, e também os mais jovens, atuando apaixonadamente, mesmo com todos os problemas relacionados à profissão, e fazendo o melhor dos jornalismos. Então, não vou finalizar o ano com previsões catastróficas ou comentários negativos, desanimando aqueles que pensam em seguir a profissão. Sim, há muitos problemas, sim há cortes, baixos salários, precarização, mas a reportagem vive e mostra-se cada vez mais importante. E vai continuar firme e forte, enquanto houver repórteres que amam o que fazem.
Crédito: Arquivo pessoal
* é jornalista e professora do curso de Jornalismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, da Universidade Anhembi Morumbi e das Faculdades Integradas Rio Branco. É organizadora dos livros "Jornalismo Policial: Histórias de Quem Faz" (In House, 2010) e "Mestres da Reportagem" (In House, 2012). Também é responsável pelo blog Formando Focas.
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