A nova ordem mundial - observar árvores e não ver a floresta

A queda de Yeltsin, no final do século 20, foi um ponto de virada geopolítica na direção do estabelecimento de uma nova ordem mundial, profetizada por Yeltsin como a “paz fria”

Atualizado em 21/01/2026 às 12:01, por Redação.

Ilustração de um mapa-múndi em estilo antigo, semelhante a um mapa náutico, com tons envelhecidos de bege e azul. Os continentes aparecem coloridos para representar áreas de influência geopolítica: a América do Norte em azul (EUA), grande parte da Europa em amarelo (União Europeia), a Rússia e parte da Ásia em vermelho, a China e regiões próximas em tons de vermelho mais intenso, e áreas da América do Sul, África e Oceania em verde listrado, indicando influência mista. No topo, há o título “Áreas de Influência”. O mapa é decorado com elementos clássicos, como navios à vela, rosas-dos-ventos, criaturas marinhas, um sol ilustrado e brasões, reforçando o estilo histórico e simbólico. Uma legenda na parte inferior explica as cores usadas.

Ilustração estilizada de “áreas de influência” geopolítica


Por Flavio Ferrari*

No final de 1994, Boris Yeltsin fez menção à "paz fria", como consequência dos movimentos expansionistas da OTAN, rompendo o que considerava ser um compromisso assumido pelos EUA quando da unificação da Alemanha, no final da era Gorbatchov.

Em 1997, o mesmo Yeltsin se considerou forçado a assinar o Ato Fundador OTAN-Rússia para evitar um isolamento total de seu país, mas afirmou pessoalmente a Bill Clinton em Helsinque que a expansão da OTAN em direção às fronteiras russas era um erro.

O bombardeio da Sérvia (Iugoslávia) pela OTAN em 1999, aliada histórica da Rússia, destruiu a crença de Yeltsin e de muitos russos de que a cooperação com o Ocidente era possível, acelerando a queda de Yeltsin e sua substituição por Putin, um ponto de virada geopolítica na direção do estabelecimento de uma nova ordem mundial.

De lá para cá, nesses vinte e seis anos do que Yeltsin profetizou como “paz fria”, as mudanças econômicas, tecnológicas e geopolíticas foram consideráveis.

A UE (União Europeia) se consolidou e a Alemanha, agora uma potência econômica, ganhou relevância em sua liderança em tempos de paz, já que sem a ameaça soviética, a proteção militar oferecida pelos EUA havia perdido importância.

O eixo de influência econômica e tecnológica se deslocou para o Leste, já que a Rússia se recuperou da crise do final do século 20 e a China se transformou na “fábrica do mundo”. Coreia do Sul, Japão, Singapura e Taiwan surgiram como potências tecnológicas. Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos (EAU) e Catar vêm seguindo o caminho de Israel, com investimentos significativos no desenvolvimento de novas tecnologias.

Enquanto isso, o líder hegemônico do Ocidente se tornava dependente de mão de obra e insumos externos, enfrentava crescente competição tecnológica do Leste e reorientava seu capital militar para conflitos híbridos globais, como no Oriente Médio e Ásia-Pacífico.

Nos últimos 30 anos, o capitalismo evoluiu do modelo industrial para o neoliberalismo globalizado, marcado pela financeirização, digitalização e plataformização. Socialmente, gerou precarização do trabalho (uberização), perda de direitos trabalhistas, polarização política e crises de coesão social, individualismo exacerbado (reforçada pela tecnologia), demandas por direitos individuais em detrimento de obrigações coletivas e instituições tradicionais (como Estado, Família e Trabalho) destituídas de seus significados e propósitos originais.

O capitalismo contemporâneo é mais eficiente em gerar dados e lucro para grandes corporações, mas falha na distribuição de renda e na proteção ambiental, resultando em uma sociedade mais desigual, precarizada e vigiada, tendo a corrupção e a insegurança pública como subprodutos.

O intervencionismo estatal (hiperlegislação), a cultura de massa e a necessidade de aprovação nas redes sociais infantilizam a sociedade, e a dependência de algoritmos para tomada de decisão agrava esse quadro.

Essa é a floresta.

Analisar e comentar a Guerra de Gaza, a invasão da Ucrânia, a operação militar dos EUA na Venezuela, a questão da Groenlândia, a ascensão de regimes autoritários e mesmo o surgimento de ideais e movimentos “progressistas” ou “conservadores” de forma isolada, é observar árvores e perder de vista a floresta.

Esses eventos são o que poderíamos chamar de conflitos-proxy**, na terminologia da Guerra Fria, e só podem ser mais bem compreendidos quando observados em conjunto, no contexto da nova ordem mundial que se configura.

EUA, EU, Rússia e China estão se reposicionando no tabuleiro global, cada qual no seu estilo, e testando os limites da “paz fria”.


** Conflito-proxy: confronto indireto em que grandes potências apoiam financeira, militar ou logisticamente grupos, ou Estados menores, para avançar seus interesses geopolíticos, evitando um embate direto que poderia escalar para guerra total.
 

*Flavio Ferrari é fundador do hub SocialData, professor de análise estratégica de cenários futuros na ESPM e autor do livro “O Sexto Poder – algoritmos, inteligências artificiais e reputação digital” (2025).