O Risco da Língua Solta
Entre bons e maus exemplos, o uso editorialmente correto da linguagem é um elemento fundamental para a prática do bom jornalismo
Por Lucio Mesquita
Durante a Segunda Guerra Mundial, o governo britânico criou várias campanhas publicitárias para manter o moral popular mesmo sob bombardeio intenso e para lidar com os riscos de uma invasão alemã.
Talvez a mais conhecida de todas, e hoje em dia amplamente usada em cartazes, canecas e adesivos, trazia a frase ‘Keep Calm and Carry On’ (algo como ‘mantenha a calma e continue normalmente’). Ironicamente, a campanha nunca foi utilizada, porque tinha sido planejada para uma eventual invasão alemã.
Mas uma que foi utilizada, e fez sucesso, era centrada na frase ‘Careless Talk Costs Lives’, que buscava alertar para o risco de tagarelas acidentalmente passarem segredos militares para o inimigo, com consequências devastadoras.

Falar em perda de vida por causa de língua solta no jornalismo pode parecer exagero, mas é possível. Já a morte da credibilidade de um veículo de comunicação é garantida se não houver rigor em suas escolhas editoriais e de linguagem.
O objetivo desta coluna é promover, com bons e (infelizmente) maus exemplos, o uso editorialmente correto da linguagem como um elemento fundamental para o bom jornalismo. E ressaltar práticas de bom jornalismo em geral.
Afinal, nosso principal instrumento de trabalho é a língua, daí devemos saber usá-la com precisão.
Claro, coisas como o bom uso da gramática e ortografia correta são essenciais. Mas o principal objetivo aqui não é a obsessão com a língua formal ou pedantismos linguísticos, mesmo que uma crase errada irrite, e muito... É com a precisão da informação e o risco de editorialização do texto (acidental ou proposital) através das escolhas de palavras e frases que escrevemos.
E o momento é crítico.
Em tempos de notícias e imagens falsas geradas e circuladas com violenta rapidez, populismo em alta e a tal da polarização (termo que merece atenção num futuro próximo), a língua jornalística solta traz riscos ainda maiores. E, com isso, responsabilidades para nós, jornalistas, também ainda maiores.
Exemplos são muitos. Encontrar todos pode ser um desafio – se quiser ou puder, colabore entrando em contato com bons e maus exemplos que venha a encontrar. ◼

*Lucio Mesquita é jornalista, reside na Inglaterra há mais de 25 anos, onde exerceu cargos de liderança na BBC. É executivo de empresas de comunicação e editor de jornalismo. Atualmente é consultor da Innovation Media e editor do Portal IMPRENSA.





