Opinião: Jimmy Cannon escrevia sua coluna como se ela tivesse a dimensão de um romance

Atualizado em 27/05/2011 às 18:05, por Matinas Suziki Jr..

Ninguém me perguntou, mas...

...Jimmy Cannon foi um dos grandes em uma atividade de muitos grandes. Ele era o colunista de esportes preferido de Woody Allen. Se Nova York enxergasse, veria o mundo pelas lentes dos óculos de Woody Allen. Portanto, não é difícil concluir que Cannon foi o colunista de esportes da cidade.
Jornalistas de esporte são uma lenda na imprensa americana. Há uma longa tradição de textos de excepcional qualidade, que sai de Jack London e H. L. Mencken, passa por Ernest Hemingway, A. J. Liebling, Murray Kempton, atinge expoentes do novo jornalismo como Norman Mailer, David Halberstam, George Plimpton e Gay Talese (que começou a carreira como jornalista de esportes do New York Times e acaba de lançar nos EUA uma seleta de seus textos esportivos) e chega em David Remnick, o atual editor da revista The New Yorker. Esses são autores que, além do esporte, se interessaram por outros temas relevantes para os homens de seu tempo. A lista poderia ser enriquecida por gente de "puro sangue", jornalistas que fizeram da cobertura do esporte sua atividade principal, como Dick Schaap, Shirley Povich, o famoso colunista do Washington Post, e Jimmy Cannon.
A notável literatura americana sobre esportes recebeu, há pouco, sua consagração definitiva pelo mundo da alta cultura: a Library of America, talvez a instituição literária americana mais importante em atividade, acaba de publicar uma antologia de textos sobre o boxe ("At the Fights - American Writers on Boxing", 518 páginas, 23,50 dólares na Amazon.com). Ao mergulhar nesse livro, o leitor brasileiro poderá constatar o quanto a nossa literatura sobre o futebol é pobre, apesar das exceções.
A principal tribuna de Jimmy Cannon (1909-1973) era a página de um tabloide. Ficou famoso como colunista do New York Post, mas escreveu também para outras publicações. Era solitário, bebeu muito, frequentava o P. J. Clarke's e jantava todas as noites no famoso Stork Club, o endereço noturno das celebridades nova-iorquinas. Começou no jornalismo aos 16 anos e escrevia a sua coluna como se ela tivesse a dimensão de um grande romance. Diz a lenda que Frank Sinatra fazia questão de receber regularmente, na Califórnia, a coluna de Cannon publicada no Post, de Nova York.
De quando em quando, Cannon publicava uma coluna extra-esportiva com o título "Ninguém me perguntou, mas...". Era uma série de tiradas irônicas,sobre qualquer coisa do tipo: "Se eu tivesse escolha, pegaria Winston Churchill como companheiro de beberagem"; "Por que as pessoas vivem em Ogden, no estado de Utah, se elas podem viver em outro lugar?"; "As pessoas em um ponto de ônibus parecem cansadas mesmo antes de iniciar a viagem"; "A Inglaterra produz os melhores atores gordos"; "Com raras exceções, os narradores esportivos funcionam como publicitários, não como repórteres". Assim era o grande Jimmy Cannon.

Diretor executivo da Companhia das Letras e coordenador da coleção Jornalismo Literário.