Opinião: Inovação, soberania e imprensa vigilante

O pesquisador brasileiro é competente, há centros de excelência em C & T em nosso País, temos grupos de pesquisa ativos e que se inseremmagnificamente no cenário internacional, mas estamos ainda muito distantes do ideal.

Atualizado em 12/06/2012 às 11:06, por Wilson da Costa Bueno.

há centros de excelência em C & T em nosso País, temos grupos de pesquisa ativos e que se inserem magnificamente no cenário internacional, mas estamos ainda muito distantes do ideal. Quais as razões que justificam este quadro?
Muitas, infelizmente. Em primeiro lugar, porque, no fundo, o incentivo à pesquisa e sobretudo à inovação no Brasil é assistemático e está à mercê de autoridades que, sem foco, sem política efetiva ( apesar do discurso e de ações meramente midiáticas), não conseguem criar um ambiente favorável a médio e longo prazos. E pesquisa precisa de tempo de maturação, precisa de planejamento, precisa de capacitação permanente e, é lógico, precisa de recursos.
Apesar de os governos proclamarem a inovação como uma necessidade, uma prioridade, na prática isto está longe de acontecer. As dificuldades interpostas pelos governos ao investimento das empresas privadas em P & D são enormes e incluem custos de financiamento elevados, alta carga tributária, juros que tocam as nuvens, burocracia obscena e por aí vai. As empresas públicas de pesquisa recorrentemente estão às voltas com crises, salários baixos para pesquisadores e corpo técnico, e muitas vezes se tornam reféns de decisões políticas que travam o processo de investigação.
Está certo, não se pode assumir a voz das empresas privadas, nacionais ou internacionais (que estão sempre querendo mais sem uma adequada contrapartida), porque elas preferem importar tecnologia, soluções desenvolvidas lá fora, do que pesquisar por aqui, diferentemente do que fazem em seus países de origem. Se não tomarmos cuidado, são ainda capazes de avançar sobre o financiamento público, como fazem sempre as montadoras que buscam salvar a sua incompetência de gestão com dinheiro de governos . Enquanto isso, os lucros migram para as matrizes em volume recorde, como costuma acontecer.
Recentemente, passaram a importar autopeças de todo o lugar, em busca de menor preço, deixando ao léu os seus tradicionais fornecedores nacionais. Ao mesmo tempo, buscam a redução dos seus impostos, ameaçam com demissões coletivas e fazem o jogo que apenas lhes interessam. Conseguem privilégios em cima de privilégios e aumentam os seus lucros vorazmente. As montadoras literalmente montam nos consumidores com a cumplicidade de quem deveria protegê-los. Em pleno período da Rio+20, estimular a venda de carros, continuar utilizando combustível sujo para movimentá-los, é efetivamente comprometer-se com a sustentabilidade. É essa a “economia verde” que governos e empresários nos estão prometendo?
É forçoso reconhecer a interferência abusiva dos lobbies, que nas esferas governamentais e no Congresso, tentam (e muitas vezes conseguem), orientam o esforço de pesquisa no sentido de favorecer os seus interesses, desestimulando investigações que possam promover alternativas aos seus produtos ou buscando benesses para aumentar o seu monopólio. Este é o caso da indústria de biotecnologia (que se encastelou na CTNBio e anda ditando regras há um bom tempo), da indústria agroquímica, de parcela da indústria farmacêutica e de outras menos votadas que, aqui e lá fora, têm estabelecido parcerias espúrias com governos e parlamentos (você ainda não leu O mundo segundo a Monsanto, de Marie Monique Robin?).
Quer um exemplo? Você não se lembra das empresas inovadoras de biotecnologia que se formaram logo após o sucesso estrondoso do projeto da FAPESP que culminou com o mapeamento do código genético da praga do amarelinho que ataca os laranjais paulistas? Pois é, as empresas que eram da Votorantim, que tiveram financiamento oficial, constituídas por pesquisadores de universidades estaduais paulistas (de novo, verbas públicas), acabaram de mão beijada caindo no colo da Monsanto, logo depois da crise financeira recente. O pessoal do CNPq e o próprio Ministério da Ciência e da Tecnologia até chiaram mas o que interessa é que continuamos investindo dinheiro público para financiar interesses privados. E não se fala mais nisso para alegria da Monsanto, que aposta na nossa memória fraca e na nossa tímida indignação.
Em segundo lugar, ainda há um “estranhamento” entre as universidades e a iniciativa privada por absoluta falta de diálogo e, infelizmente, muitas vezes, quando a aproximação ocorre, os contratos firmados pecam pela falta de transparência, pela ingerência abusiva dos interesses privados na gestão dos grupos de pesquisa. É normal no relacionamento com algumas corporações (serão todas?) que se conclua pelas vantagens excessivas do capital em relação ao ambiente do ensino e da pesquisa (você ainda não leu A verdade sobre os laboratórios farmacêuticos, de Marcia Angel?). Em todo o mundo, e também por aqui, é sempre recomendável analisar detidamente estes contratos porque não é incomum (muito pelo contrário) percebermos que eles invariavelmente colocam os grupos de pesquisa, a própria universidade, a reboque das empresas multinacionais. A indústria farmacêutica faz isso, a indústria de biotecnologia faz isso, a indústria agroquímica (irmã siamesa da indústria de biotecnologia faz isso) e as exceções apenas confirmam a regra.
Em terceiro lugar, falta mesmo pessoal capacitado (temos engenheiros de menos, especialistas de menos, técnicos de menos e isso não é novidade) para dar sustentação a um programa mais ambicioso de pesquisa. Nossa educação técnica é um horror e iniciativas isoladas (ainda que mereçam ser saudadas como a que aumenta o número de vagas em ensino técnico e profissionalizante) são apenas um paliativo para um desafio tão grande.
É de se lamentar que a imprensa que cobre C & T não costume entrar no mérito dessas questões e que continue sendo cúmplice de fontes empresariais ou oficiais, veiculando informações comprometidas com interesses comerciais ou políticos.
É absolutamente necessário examinar, investigar os contratos estabelecidos entre universidades e empresas de pesquisa públicas e interesses privados, exigir transparência e denunciar quando essa aproximação propicia vantagens excessivas, abusivas, escandalosas para as corporações em detrimento do interesse da sociedade.
O jornalismo científico precisa participar mais ativamente do debate sobre a definição da política brasileira de ciência, tecnologia e inovação, ser mais investigativo, pluralizar mais as fontes de informação, enxergar além da notícia (você acha que os diretores de P& D da Monsanto, da Bayer, da Syngenta ou da Merck são isentos e que suas falas deveriam ser reproduzidas sem contestação?).
A ciência e a tecnologia não são terrenos livres de contaminação e precisam estar sob vigilância constante da sociedade. Temos felizmente um número importante de pesquisadores independentes mas, assim como acontece no mundo inteiro, circulam por aqui “pesquisadores” (e não são poucos) que não passam de porta-vozes de interesses privados. É preciso separar o joio do trigo sempre.
A sociedade civil deve esta mobilizada para enfrentar os lobbies, denunciar as cumplicidades espúrias, como se pode perceber com o escândalo das doações a campanhas políticas, envolvendo prestadores de serviços públicos que se lambuzam com o dinheiro de todos nós.
Não existe almoço grátis. É bom desconfiar sempre. Em nome do fortalecimento da ciência e da tecnologia nacionais, nossos olhos devem estar bem abertos. Empresas monopolistas lucram com os nossos cochilos e a nossa omissão. Vamos ficar mais atentos aos financiamentos às empresas privadas? Carros que poluem e congestionam nossas médias e grandes cidades precisam de redução de IPI? Empresas que fazem recall toda a semana por abrirem mão da qualidade de fabricação deveriam continuar merecendo apoio oficial?
O apoio decisivo e permanente à pesquisa, à ciência e a tecnologia e inovação não é apenas uma questão de perspectiva, de visão de longo prazo.
O investimento em ciência, tecnologia e inovação não deve ser analisado apenas com um olhar técnico, mas político, econômico e sobretudo contemplando o interesse da sociedade.
Não teremos futuro, se deixarmos que corporações ditem as regras para a pesquisa no Brasil e que fortaleçam os lobbies e as parcerias para impedir que caminhemos por nossas próprias pernas.
Há uma realidade que precisa ser enfrentada de vez e o jornalismo científico brasileiro não pode (como tem feito) ignorá-la: há pesquisadores, grupos de pesquisa, que defendem apenas os seus interesses, o seu direito de pesquisar, e que colocam estes aspectos acima do interesse público. As decisões sobre ciência e tecnologia não podem jamais estar restritas à comunidade científica porque elas impactam toda a sociedade.

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