Opinião: Futurologia de impeachment, por Gabriel Priolli

Com o fim do recesso no Legislativo e no Judiciário, recomeça a temporada de caça ao mandato de Dilma Rousseff. Políticos da oposição, formais e informais, atuando no parlamento, tribunais, procuradorias e polícias retomam a faina de buscar pelo em ovo que possa converter-se em bala de prata contra a presidente.

Atualizado em 25/02/2016 às 14:02, por Gabriel Priolli.


A imprensa, dividida quanto ao impeachment e quase tudo mais, segue como parte inextrincável do processo e será afetada por seu desfecho, seja ele qual for. Se Dilma ganhar a parada, nada mudará para a grande imprensa. Ela seguirá atendida no básico (verbas publicitárias, isenção tributária na importação de papel, acesso ao financiamento de bancos oficiais), não terá que se preocupar com nenhuma “ameaça” regulatória e continuará pautando a oposição, baixando o porrete na governante e recebendo dela apenas a outra face. O preço a pagar será somente o de aguardar mais algum tempo para entronizar no Planalto um presidente perfeitamente afinado com o seu ideário.
Para a atual imprensa alternativa - os portais e blogs orientados do centro para a esquerda do espectro político -, também não mudará nada se Dilma sobreviver. Os “nanicos” do século XXI seguirão apoiando o governo “a fundo perdido” ou catando (alguns deles) as migalhas da publicidade oficial, com alguma expectativa de incremento e nenhuma de priorização. A esperança de ver apresentada ao debate público uma Lei de Meios também continuará mínima ou inexistente.
Mas digamos que o impeachment triunfe. Aí certamente teremos grandes mudanças. Em qualquer dos resultados possíveis - Michel Temer presidente ou nova eleição, com improbabilíssima vitória petista -, a grande imprensa será ainda mais prestigiada pelo governo e, talvez, favorecida. Qualquer proposta de regulação da mídia será congelada indefinidamente, como quer o baronato do setor. Tudo serão sorrisos no Instituto Millenium. Já a imprensa alternativa, coitada, vai saborear o pão que o diabo amassou na prensa de Gutenberg.
Se o velho “efeito Orloff” ainda valer, isto é, se o Brasil de amanhã eventualmente for a Argentina de hoje, a blogosfera vai penar. Não terá o mais remoto apoio ou simpatia do governo, nem entrevistas exclusivas com o presidente. Mesmo as migalhas da publicidade oficial não estarão mais a seu alcance. Quem deverá alcançá-la mais amiúde será o braço pesado da lei, caso ela seja, no oposicionismo, ainda mais incômoda aos novos detentores do poder do que já é agora, apoiando Dilma. Afinal, são “blogs sujos”, não é mesmo? “Imprensa chapa-branca”.
Não é o que diz a grande imprensa e repetem os políticos oposicionistas? Ainda bem que, com essa gente pura e casta no poder, o novo status quo estará imune às gravíssimas disfunções do bom jornalismo. Todo blog será limpinho e a chapa, sempre quente, fritando o governo... Não será fácil convencer o povo disso, mas é o que venderão à pátria redimida de ameaças bolivarianas - em prosa e verso, letra e música, áudio, vídeo e texto