Opinião: “Fake news não é o que você está pensando”, por Rodrigo Flores

Fake News não é o que você está pensando, e ela só existe porque coisas boas aconteceram.

Atualizado em 03/10/2017 às 13:10, por Rodrigo Flores.

Eu explico. Só peço um pouco de calma. Vamos lá. A internet promoveu a maior revolução no mercado de mídia desde Gutemberg. Do dia para a noite, os dois maiores desafios das empresas jornalísticas viraram pó: a impressão e a distribuição. Não é preciso ter um parque gráfico para publicar notícia. Tampouco é preciso de um braço logístico para garantir que seu produto chegue a todos os cantos do país. Bom, né? Essa democratização dos meios de produção trouxe uma consequência desejada (todos podem publicar) e uma indesejada (qualquer um pode publicar). Pequenas agências ganharam relevância, empreendimentos jornalísticos pipocam pelo país. O ecossistema da notícia se reinventa. Essa é a parte boa. Ao mesmo tempo, aproveitadores criam páginas de veículos inexistentes e distribuem fake news pelas redes sociais. Desnecessário dizer que essa é a parte ruim. “Mas fake news sempre existiu, afinal boato e notícia errada não surgiram agora”. Com pequenas variações, essa é a frase que mais escuto nos debates sobre o assunto – e não são poucos as vezes em que discuto o tema em eventos abertos. A resposta é sempre a mesma: “não é bem assim”. Fake News mesmo, o legítimo, depende de duas premissas. A primeira é que fake news é produto de fraude, e não do resultado do trabalho de empresas jornalísticas. Fake News não é só factualmente errado. É deliberadamente errado. Jornalistas se equivocam, provavelmente mais do que gostariam. Mas se trata de erro. E, em muitos casos, há uma errata para fazer a retratação desse equívoco. Fake news é a fabricação de mentira feita por veículos de fachada, sem tradição ou interesse em fazer jornalismo. O objetivo é enganar. Simples assim. O segundo ponto é a relevância das redes sociais. São elas que garantem a distribuição da mentira. Sem Facebooks e Whatsapps, as fake news nasceriam e morreriam sem atingir praticamente ninguém. Mas nas redes elas ganham vida e alcance, ainda mais por serem conteúdos especialmente compartilháveis. Estudos mostram que as fake news são mais simples e saborosas que a as notícias verdadeiras -- estas, tediosas, cheias de nuances, contraditórios e detalhes. Em resumo: fake News são mentiras deslavadas feitas para obter ganho financeiro ou político e produzidas especialmente para circular nas redes sociais. Parece simples, e é. Mas também é muito perigoso, e representa uma ameaça real ao negócio jornalístico. As eleições estão aí. Cuidado com políticos que desqualificam veículos jornalísticos chamando denúncia de fake news. Tipo o Trump, sabe? Veículos podem até errar, mas não fazem fake news. Estamos de olho.
Crédito:UOL * é paulistano, 40 anos, e jornalista formado pela Escola de Comunicação e Artes da USP, turma de 1998, ECA/USP e pós-graduado em Política Estratégica na mesma universidade, com MBA em Gestão Empresarial pela FGV. Desde 2011 é diretor de Conteúdo do portal. Comanda a redação com mais de 300 jornalistas e dezenas de webmasters e webdesigners, além de profissionais de edição e direção de vídeo. Antes foi âncora do UOL News e gerente geral de notícias.