Opinião: Essas crianças estão fora da sala de aula, porque as escolas não existem onde moram
Aqui no Ceará é rara a semana em que os jornais não noticiam a presença de estudantes (jovens, quase crianças) armados nas escolas. Armados
Atualizado em 04/11/2011 às 11:11, por
Adísia Sá.
Menores armados
Leo Garbin de faca, revólver, punhal e cassetete. E entram nas escolas, sentam-se ao lado dos colegas, miram os professores, vão ao recreio, enfim, levam tranquilamente a vida de colegiais. Há um agravante neste quadro: as armas são, não para serem exibidas aos colegas como prova de coragem, mas para atingir companheiros. E há fatos, não isolados - pelo contrário - em que as armas são acionadas, ferindo e até matando.Pelo que a polícia apurou, essas armas são levadas de casa, quase sempre propriedade dos pais ou, então, compradas nas chamadas "feiras livres", que acontecem em praças do subúrbio ou do centro das cidades, inclusive da capital. Além desse ponto lamentável, há outros também preocupantes: falo da presença de menores - adolescentes e crianças - em assaltos a transeuntes, motoristas e passageiros de transporte coletivo ou particular - em ação isolada ou como componentes de gangues.
Esse quadro deve nos levar a uma reflexão mais responsável e não a mera constatação de fatos: o que leva a criança ao mundo do crime?
No bojo desse quadro há que se colocar o Estado (no sentido lato), a família e a sociedade. Essas crianças estão fora da sala de aula, porque as escolas não existem onde moram ou, se existem, são elas meras receptoras de alunos de horas marcadas: entrada, sala de aula, saída?
Essas crianças estão na rua porque não estudam? Essas crianças vão à escola e ao retornar não têm onde preparar seus deveres de casa, à falta de pais e mães que as orientem? Se essas crianças não têm locais para brincar, estudar, correm às ruas. Nas ruas, quais as suas companhias?
São indagações que nos fazemos em busca de respostas, não que elas expliquem ou justifiquem esse preocupante quadro da marginalidade infantil. E perguntamos: o Estado, o que tem feito para enfrentar essa triste realidade que não abre espaços para essa geração sem sonhos, perspectivas?
À nossa frente está se repetindo uma cena, como num filme, com começo, meio e fim. E vamos cruzar os braços? Não nos esqueçamos de um ponto: os jovens e os moços que assaltam, roubam, matam, são frutos da omissão da geração que os viu nascer e crescer. São frutos da nossa geração, como essas crianças que nos roubam a bolsa, nos levam o carro, nos tiram a vida.
Cruzar os braços e dizer "isto não é da minha competência" é sinal aberto para sermos os próximos alvos dos atiradores nascidos sob o nosso manto protetor... à nossa sombra... Não sei, não tenho receita nem trago na arca de minhas angústias as surpresas de Pandora, é verdade - mas de uma coisa sei e proclamo: não temos o direito de continuar omissos, inclusive nas nossas denúncias e cobranças ao Estado para que assuma os seus deveres constitucionais em relação à família.
Coluna publicada na edição 273 (novembro) de IMPRENSA






