Opinião: “Era tudo ou nada”, por Heródoto Barbeiro
A marreta também é criativa. Uma pequena fábrica de refrigeradores estava em apuros. Situada na província de Shandong, na China, vendia cada
Atualizado em 29/11/2017 às 10:11, por
Heródoto Barbeiro.
Crédito:Edu Moraes vez menos. Tinha dificuldades na produção, distribuição dos produtos e financiamento. Tudo levava a crer que em breve fecharia as portas e seus empregados ficariam na rua da amargura.
Até a chegada de Zhang Ruimin, um jovem diretor de 36 anos, nomeado pela prefeitura local para dar um jeito na empresa. Era tudo ou nada. Juntou a equipe de 76 gerentes e mandou perfilar 77 geladeiras em um galpão. Diante do olhar assustado de todos pegou uma marreta e destruiu uma delas. Depois pediu que cada um destruísse uma. Depois disso, em 25 anos, a empresa de Shangdong se tornou na maior produtora mundial de geladeiras.
Ela aumentou o seu portfólio em 19 novos produtos da linha branca e se tornou a quarta maior fabricante do mundo. Essa história é o que Ben Mc Lannahan chama destruição criativa.
Imagine um país que precisa de mudanças profundas no seu sistema político, entendido em sua amplitude social, jurídica e administrativa. Certamente uma marreta não destruiria o arcabouço legal, jogaria tudo por terra e aí apareceria um salvador da pátria para construir tudo do zero. Nenhum dos que se locupletam com o antigo regime se apresentariam para pegar uma marreta e derrubar instituições que os beneficiam, não importa em que campo.
O exemplo da fábrica de refrigeradores não serve para se construir uma sociedade pela sua complexidade de atores e interesses. Ainda assim a sociedade pode almejar transformações que aprofundem a democracia, distribuição de riqueza, segurança pública, educação e saúde de qualidade e outros requisitos da cidadania.
É possível que essas mudanças sejam gestadas nas assembleias – Congresso, Assembleias Legislativas e Câmaras Municipais - eleitas diretamente pela população? O primeiro obstáculo a ser vencido é a qualidade dos eleitos que se perpetuam no poder graças ao sistema vigente e o baixo nível de politização da população. Esta realidade é atualíssima e as mudanças almejadas para se atingir esses objetivos andam em ritmo lento. Vez ou outra dão um passo quando há pressão popular para tanto. E ela é muito escassa.
Deitar a atual constituição abaixo e redigir uma nova seria o caminho? Quem teria o poder legítimo de convocar uma assembleia constituinte exclusiva? Isto nunca existiu no Brasil. Todas as constituições republicanas foram originadas de congressos constituintes, ou seja, por pessoas que ao mesmo tempo eram deputados federais ou senadores. Inclusive a atual.
De manhã constituintes, à tarde legisladores. É provável que os ambientes se misturem uma vez que são os mesmos protagonistas. Essa proposta já foi ventilada várias vezes e há uma resistência grande de certos setores. Uns porque acreditam, sinceramente, que a atual constituição é adequada a sociedade brasileira.
Outros porque avaliam o risco de perder privilégios que se consolidaram ao longo do tempo. O que será que o cidadão, o pagador de impostos, a pessoa que viaja em péssimo transporte público, tem atendimento rastaquera nos centros de saúde e vê os seus filhos saírem da escola sem entender o que leram, pensa disso?
Inúmeras pesquisas são veiculadas todos os dias na mídia social e tradicional sobre os mais diversos assuntos. Isto é bom para auferir quais são os sonhos e opiniões da população. Curiosamente, até agora, não se perguntou se o pais precisa de uma nova constituição ou se a atual, com tantos artigos e mais de uma centena de emendas é adequada a sociedade.
* é âncora do Jornal da Record News e ex-apresentador do Jornal da CBN.
Saiba mais:

Até a chegada de Zhang Ruimin, um jovem diretor de 36 anos, nomeado pela prefeitura local para dar um jeito na empresa. Era tudo ou nada. Juntou a equipe de 76 gerentes e mandou perfilar 77 geladeiras em um galpão. Diante do olhar assustado de todos pegou uma marreta e destruiu uma delas. Depois pediu que cada um destruísse uma. Depois disso, em 25 anos, a empresa de Shangdong se tornou na maior produtora mundial de geladeiras.
Ela aumentou o seu portfólio em 19 novos produtos da linha branca e se tornou a quarta maior fabricante do mundo. Essa história é o que Ben Mc Lannahan chama destruição criativa.
Imagine um país que precisa de mudanças profundas no seu sistema político, entendido em sua amplitude social, jurídica e administrativa. Certamente uma marreta não destruiria o arcabouço legal, jogaria tudo por terra e aí apareceria um salvador da pátria para construir tudo do zero. Nenhum dos que se locupletam com o antigo regime se apresentariam para pegar uma marreta e derrubar instituições que os beneficiam, não importa em que campo.
O exemplo da fábrica de refrigeradores não serve para se construir uma sociedade pela sua complexidade de atores e interesses. Ainda assim a sociedade pode almejar transformações que aprofundem a democracia, distribuição de riqueza, segurança pública, educação e saúde de qualidade e outros requisitos da cidadania.
É possível que essas mudanças sejam gestadas nas assembleias – Congresso, Assembleias Legislativas e Câmaras Municipais - eleitas diretamente pela população? O primeiro obstáculo a ser vencido é a qualidade dos eleitos que se perpetuam no poder graças ao sistema vigente e o baixo nível de politização da população. Esta realidade é atualíssima e as mudanças almejadas para se atingir esses objetivos andam em ritmo lento. Vez ou outra dão um passo quando há pressão popular para tanto. E ela é muito escassa.
Deitar a atual constituição abaixo e redigir uma nova seria o caminho? Quem teria o poder legítimo de convocar uma assembleia constituinte exclusiva? Isto nunca existiu no Brasil. Todas as constituições republicanas foram originadas de congressos constituintes, ou seja, por pessoas que ao mesmo tempo eram deputados federais ou senadores. Inclusive a atual.
De manhã constituintes, à tarde legisladores. É provável que os ambientes se misturem uma vez que são os mesmos protagonistas. Essa proposta já foi ventilada várias vezes e há uma resistência grande de certos setores. Uns porque acreditam, sinceramente, que a atual constituição é adequada a sociedade brasileira.
Outros porque avaliam o risco de perder privilégios que se consolidaram ao longo do tempo. O que será que o cidadão, o pagador de impostos, a pessoa que viaja em péssimo transporte público, tem atendimento rastaquera nos centros de saúde e vê os seus filhos saírem da escola sem entender o que leram, pensa disso?
Inúmeras pesquisas são veiculadas todos os dias na mídia social e tradicional sobre os mais diversos assuntos. Isto é bom para auferir quais são os sonhos e opiniões da população. Curiosamente, até agora, não se perguntou se o pais precisa de uma nova constituição ou se a atual, com tantos artigos e mais de uma centena de emendas é adequada a sociedade.
* é âncora do Jornal da Record News e ex-apresentador do Jornal da CBN.
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