Opinião: É preciso cobrir mais criticamente os processos de fusão de empresas
As organizações, assim como os seres humanos e também as estrelas, têm um ciclo de vida: nascem, crescem e um dia, por algum motivo, sucumbem, ainda que se deva admitir que umas poucas pareçam ter 7 fôlegos e, mesmo com a nossa torcida, insistem em permanecer ativas.
Atualizado em 21/05/2013 às 11:05, por
Wilson da Costa Bueno.
A globalização tem acelerado esse processo de destruição das organizações (os adeptos da globalização querem nos convencer de que se trata de uma destruição criativa, transformadora), em função do ritmo frenético de fusões/aquisições, verdadeiro xeque-mate para empresas nacionais ou estrangeiras.
De uns tempos para cá, estamos assistindo a um vigoroso processo de “mixagem” e/ou colapso de importantes empresas, particularmente de bancos no Brasil e de laboratórios farmacêuticos em todo o mundo.
Nesse caso, será difícil imaginarmos que estas fusões/aquisições representem algo positivo sobretudo porque o resultado imediato é uma concentração absurda que, a curto, médio e longo prazos, penaliza os cidadãos e consumidores. Alguém pode achar saudável ficar dependente de uma ou duas empresas quando estamos falando de medicamentos ou de bancos? Alguém pode saudar o monopólio das sementes, como o que está em curso sob a liderança da Monsanto, com sua ganância transgênica?
As fusões e aquisições podem, eventualmente, em raríssimos casos, trazer algum benefício, mas, de maneira geral, num capitalismo selvagem como o que atravessamos, elas costumam cobrar da sociedade a fatura lá adiante. Isso acontece há décadas com o monopólio de grandes grupos de comunicação e suas conseqüências nefastas que vão desde a ameaça à diversidade de opiniões ao controle do horário dos jogos de futebol, passando por lobbies formidáveis que lhes permitem manter os seus privilégios.
Todo processo de concentração implica em risco porque tem como objetivo o domínio do mercado, sempre à custa da nossa liberdade. Todos sofremos diante do escandaloso duopólio na área da aviação comercial, com a Tam e a Gol impondo linhas, destinos e preços, com a conivência ou a inoperância das autoridades. Empresas com uma gestão sofrível e que, em função disso, andam acumulando anualmente prejuízos bilionários. Todos padecemos na mão de alguns laboratórios farmacêuticos que controlam o mercado para algumas áreas específicas de aplicação e que nos impõem preços e condições abusivas. Todos saberemos um dia o que significa esse avanço brutal, sem qualquer resistência oficial, de duas ou três corporações ao universo das sementes, tradicionais ou transgênicas, e assim por diante.
A imprensa, e os colegas jornalistas em particular, precisam estar atentos para essa realidade porque, na prática, costumam festejar o gigantismo de algumas organizações que engolem sem dó os seus concorrentes resumindo esse fato a seu aspecto meramente econômico, de expansão dos negócios. Não conseguem enxergar que, subjacente a este processo de fusão/aquisição de bancos, laboratórios, empresas de sementes etc, estão o risco à soberania nacional, à liberdade de escolha dos consumidores e cidadãos e o desejo de ditar monopolisticamente as regras (e os preços) no mercado.
Usando a própria lógica do mercado, podemos dizer que, se alguém ganha, provavelmente (ou necessariamente) alguém estará perdendo porque, conforme se aprende no colégio e no mercado, nada se cria, tudo se transforma. No caso das fusões nas áreas anteriormente mencionadas, quase sempre há perdedores que não fizeram parte do processo, não foram sequer consultados, como os funcionários, os consumidores e clientes, os pacientes etc. Sobra invariavelmente no lombo dos mais fracos que, na prática, pagam efetivamente o preço destas fusões/aquisições. Não são apenas marcas que desaparecem, mas posturas empresariais que, em muitos casos, mereciam ser preservadas. A aquisição do Banco Real pelo Santander se fez à custa do sacrifício e da cultura da sustentabilidade, embora este último tenda, por uma razão de mercado (a imagem do Real era, à época de sua venda, muito melhor do que da companhia que a comprou), dizer o contrário para não perder clientes e ver abalada a sua reputação. Esta fusão não eliminou um banco apenas, mas legitimou a derrocada de um conceito importante em nome da rentabilidade, da lucratividade. No fundo, todos estamos sofrendo na pele a sustentabilidade (????) do sistema financeiro que está sendo salvo pelos bilhões de dólares doados pelos governos (quer dizer, por todos nós) ao mesmo tempo que milhões de pessoas perdem os empregos.
Não há milagres nem bondades nessa área e infelizmente a imprensa não tem conseguido enxergar um palmo à frente, saudando, equivocadamente, fusões e aquisições como cases de sucesso empresarial sem se dar conta de que alguém (nós todos) iremos pagar essa conta no futuro.
Não é verdade que o mercado fica mais forte com as fusões e aquisições; pelo contrário, ele fica mais concentrado, menos democrático, especialmente em áreas estratégicas onde faltam alternativas. Que escolha temos quando apenas dois ou três fabricantes fornecem um produto (remédio para câncer ou hipertensão, por exemplo) ou vendem passagens aéreas? E que riscos graves corremos quando esses dois ou três fabricantes combinam o preço para “ferrar” os pacientes? Que liberdade teremos se 4 ou 5 bancos dominarem todo o mercado financeiro ( e estamos caminhando para isso)? Que tédio seria se tivéssemos que assistirmos a uma única emissora de TV (ainda bem que a Globo anda perdendo a audiência e existem meios de informações alternativos)?
A imprensa e os jornalistas precisam ser mais críticos. Enxergar além da notícia e desconfiar da intenção de organizações que se valem de assessorias de imprensa competentes mas que praticam uma transparência de fundo de quintal. Infelizmente, a maioria dos cadernos e páginas de economia não passa, com raras exceções, de meros depósitos de releases e falas oficiais, a serviço dos grandes interesses. Veículos que confundem plantação de eucaliptos com florestas (uma sacanagem contra a diversidade!) e chama agrotóxicos (que é veneno mesmo) de defensivos (???) agrícolas. Veículos que são reféns de coletivas bem organizadas e de “porta-vozes” capacitados em programas de media training.
Processos gigantescos de fusão e aquisição de empresas não deveriam ser vistos apenas como demonstrações de pujança empresarial, mas, em muitos casos, como dramáticas ameaças à soberania e à cidadania. Quando a concentração de empresas se expande, os direitos dos cidadãos se reduzem na mesma proporção. Não se trata, pois, de um processo que se deva festejar. Alguém precisa abrir os olhos dos coleguinhas das redações.
Para ler outras opiniões do colunista, .





