Opinião: "De Origem Divina", por Heródoto Barbeiro
A herança da República Velha não acabou. Nem a do Estado Novo. Um exemplo da sobrevida desses esqueletos é a Justiça Eleitoral. Um fantasma
Coronel Afrânio e seu jagunço Com a ascensão de Vargas as coisas pareciam que iam mudar. Em 1932, ano do levante paulista, foi criado o Tribunal Superior Eleitoral. Ele sobreviveu até o golpe de 1937, quando foi implantada a ditadura do Estado Novo. O Superior Tribunal Eleitoral foi refundado em 1945, com a volta da democracia. Criava-se mais uma jabuticaba. Uma justiça que cuidaria só do processo eleitoral e que chega até os dias atuais diante de uma população de contribuintes aparvalhada ante os bilhões que consome quer tenha eleição ou não. Seu papel principal é fingir que audita as contas dos candidatos e dos partidos políticos que, por sua vez, fingem que prestam contas. Um teatro inédito no mundo. No palco, os atores fingem as emoções das personagens, de outro, a plateia interpreta outro enredo. Esse é o sistema perverso que consolida no poder a auto denominada “classe política", a casta de origem divina que vive e sobrevive à sombra do Estado e mama nos cofres públicos.
Chegamos ao século 21 com o financiamento público-privado das campanhas e partidos. Multipartidarismo extremamente flexível, pouco representativo e estimulador. As formações de alianças eleitorais não são programáticas, mas fisiológicas, onde o pomo de ouro é o tempo grátis no rádio e na tevê. Pago pelo cidadão e que é comercializado à luz do dia. Na última campanha, 30 segundos valia sete milhões de reais. Caixa dois, é claro. O passo seguinte é a formação de maioria no Congresso, assembleias legislativas e câmaras de vereadores para a formação da chamada base aliada. Ou alugada, haja vista que não há coincidência de programas entre os partidos. Por sua vez os partidos não se consolidam como agentes representativos de segmentos da população. Mudam de opinião de acordo com seus interesses particulares, são, em última análise, responsáveis pela crise de representatividade de que tanto reclamam.
*Heródoto Barbeiro é escritor e jornalista da RecordNews editor do Blog do Barbeiro, ex-âncora do Roda Viva, da TV Cultura, e do Jornal da CBN, autor nas áreas de jornalismo, historia, comunicação corporativa e budismo.






