Opinião: Comunicação de riscos e contaminação informativa
O episódio rumoroso, ainda não concluído, do risco de explosão no Shopping Center Norte, deflagrado em virtude de ação inicial da CETESB, em
São Paulo, certamente se constituirá em exemplo emblemático de gestão de crises, de comunicação de riscos e de absoluta falta de autonomia (ou competência?) de órgãos oficiais para tomarem medidas que estejam em sintonia com o interesse público.
Recordemos rapidamente o problema. O shopping foi construído em cima de área que, anteriormente, abrigava um lixão. Material em decomposição libera metano, um gás inflamável e que, portanto, em determinadas condições, pode causar uma explosão. Medições recentes da CETEST indicavam que o metano estava se concentrando em nível acima do ideal em várias dependências do shopping e que alguma medida deveria ser tomada para evitar uma tragédia (ou a explosão em shopping que recebe centenas de milhares de pessoas num final de semana não prenuncia uma tragédia?).
Divulgada a denúncia da CETESB, que resolveu estabelecer multa diária para o shopping até que ele resolvesse o problema, um tiroteio informativo teve início, aumentado rapidamente com entrada em cena da Secretaria do Verde e do Meio Ambiente do Município de São Paulo e a participação sensacionalista da mídia. E aí a coisa esquentou, sobretudo com a notícia de que, a partir 30 de setembro de 2011, o shopping seria interditado.
Na verdade (vamos ser francos) pouca gente acreditou que esta medida drástica fosse realmente tomada, até porque o shopping já havia avisado que iria recorrer à Justiça e, no Brasil, a Justiça costuma favorecer, em muitos casos, os poderosos (ou não é mais fácil um ladrão de galinha ir pra cadeia do que bandidos de colarinho branco?). Mas, pelo menos por um tempinho, o Shopping teve que cerrar as portas porque a liminar que o mantinha aberto foi cassada. Já é alguma coisa e isso é bom: quem está devendo, tem que pagar.
Inúmeros aspectos podem ser destacados deste episódio e talvez outros mais a eles se somem até a sua conclusão (que pode demorar porque recuperar área contaminada não é tarefa fácil, nem rápida!).
Em primeiro lugar (esta pergunta tem sido feita repetidamente), quem permitiu que um estabelecimento deste porte (é o shopping de maior afluência de público no País) pudesse ser construído numa área contaminada? Ora, ora, todo mundo sabe como essas coisas funcionam por aqui e há dezenas ou centenas de situações semelhantes espalhadas pelo País (muitas na capital paulista), envolvendo inclusive outros shoppings (sem alvará de funcionamento, com grande impacto ambiental etc etc). Tráfico de influência, falta de fiscalização e a sabida relação espúria entre grupos políticos e econômicos. Ou você não sabia que as construtoras são as maiores contribuintes de partidos e parlamentares e que sempre há suspeitas de favorecimento envolvidas nesta relação pouco transparente?
É fácil recordar casos similares. Você não se lembra do episódio da Vila Carioca com a participação da Shell? Ou de Paulínia, no interior de São Paulo, com a condenação da Shell e da Basf? Sim, estamos citando empresas que, em seu discurso, pregam a excelência em gestão ambiental e que, na prática, não andam, como vemos, fazendo direito a lição de casa. Você sabia que as principais agroquímicas já tiveram interdição de produtos (toneladas, toneladas) em suas próprias fábricas por conta do IBAMA, ANVISA etc porque estavam com validade vencida, incluíam substâncias proibidas no Brasil etc etc? E não é que elas passam o tempo todo criticando o contrabando de agrotóxicos (o que não pode mesmo ocorrer, é crime, e só acontece por omissão das autoridades), como se elas fossem social e ambientalmente corretas! Perguntem para o IBAMA, só estou recordando as infrações que ele flagrou recentemente e que foram noticiadas pela imprensa.
Em segundo lugar, a gestão da crise pelo Shopping Center foi pouco profissional. A empresa demorou para assumir o problema (que existe há um tempão) e foi obrigada a correr atrás do prejuízo depois que a mídia e as redes sociais bateram nela sem dó. Ela mesma admite agora que sua imagem e reputação ficaram bastante arranhadas, com perda de clientes, temor de lojistas e empresários e sobretudo este bate-boca ruidoso que serviu para deixá-la em maus lençóis. O comunicado que publicou na imprensa no dia 2 de outubro é um atestado de culpa: avisa que está tomando agora as medidas necessárias (nem sabemos se definitivas ou se representam apenas uma providência cosmética!), instalando drenos etc, quando poderia ter feito isso por conta própria há um bom tempo. Aquela velha postura empresarial: só faz o que deve ser feito quando leva paulada na cabeça, mesmo que sua negligência possa representar riscos para seus clientes.
Em terceiro lugar, é preciso rediscutir o papel e a competência dos órgãos de monitoramento, como a CETESB, que roncou grosso e nada pode fazer para resolver o problema. Parece que queria apenas faturar com a multa que, afinal de contas, pouco representa para o shopping: 17 mil reais diários para quem está, segundo ela própria, ameaçando, com uma explosão apocalíptica, matar ou ferir milhares de pessoas é brincadeira de mau gosto. A Secretaria do Verde conseguiu incomodar o Shopping, mas tudo acaba, no final de contas, como poderemos constatar com o acompanhamento do caso, se constituindo em um jogo de cena. Se a CETESB não desse o alerta, o que teria feito a Secretaria do Verde? O que fizeram de concreto a CETESB e a Prefeitura nesse tempo todo em que o shopping ficou funcionando leve e solto? Ora, o prefeito aproveitou o episódio para aparecer na mídia como se fosse um durão, o que resolve. A campanha eleitoral já começou cedo, aproveitando a crise do Center Norte.
Em quarto lugar, a mídia, novamente, ficou a mercê de fontes oficiais e oficiosas, andando que nem barata tonta de lá para cá, sem saber exatamente a quem recorrer para realizar um trabalho competente de esclarecimento da opinião pública. Os jornalistas e veículos precisam urgentemente capacitar-se para o trabalho de comunicação de riscos, de desastres etc porque, sensacionalísticamente, apenas provocam pânico com sua atuação alarmante e ambígua. Deveriam ter colocado a CETESB e a Secretaria do Verde no paredão porque, se o risco de explosão era iminente, não havia mais porque discutir o fechamento do Shopping: era pra lacrar a entrada e pronto. Sem demora, sem dó. E não cair na armadilha do Kassab, que quer promoção gratuita à custa da crise do Center Norte. Pimenta no "fiofó" dos outros é talco, não é mesmo?
Finalmente, o episódio, com todas estas feridas abertas, evidencia a necessidade de uma discussão ampla sobre o papel de todos nós (gestores de comunicação, jornalistas, autoridades, órgãos de fiscalização etc) na emergência de situações de crises, no processo abrangente de comunicação de riscos. Precisamos aumentar a literatura em comunicação com esse foco específico e (por que não?) realizarmos um benkmarking competente de organizações (empresas, mídia, órgãos oficiais etc) que têm ou tiveram uma ação importante nestes momentos.
Destaco, neste sentido, o esforço do Departamento Estadual de Defesa Civil de Santa Catarina que elaborou um curso a distância sobre Comunicação em Desastres voltado para jornalistas. Há inclusive um livro, assinado por Ana Paula de Assis Zenatti e Soledad Yaconi Urrutia de Sousa, com este título, editado pelo Departamento, em 2010, de consulta utilíssima.
As empresas, os governos e a mídia precisam estar atentos: problemas como o do Shopping Center Norte se somam ao de desastres provocados por enchentes, terremotos, epidemias (vem outra de dengue por aí?), acidentes ambientais importantes (vide o caso da BP no Golfo do México) e são cada vez mais freqüentes. Se é verdade que a gestão da crise, de maneira global, deva ser competente, mais ainda (puxando a brasa para a nossa sardinha) deve ser de excelência o processo de comunicação de riscos por parte dos gestores nessa área (assessores de imprensa, relações públicas, publicitários etc).
Planejar, pesquisar, capacitar, profissionalizar são demandas urgentes. Que o Center Norte, os jornalistas, os empresários da mídia, as autoridades nos desculpem, mas não dá para continuar deste jeito. Quando as autoridades batem cabeça, a mídia fica desorientada como mariposa em volta da lâmpada e os empresários não fazem a lição de casa, os cidadãos entram em pânico. E é exatamente isso que se deve evitar num processo competente de comunicação de riscos.
O verão se aproxima, enchentes e desabamentos acontecerão (ninguém duvide) em vários pontos do país, e a dengue permanece como ameaça real pairando sobre nossas cabeças. Estamos preparados para enfrentar esses riscos e para esclarecer adequadamente a população? Você sabe qual é a resposta.
Em tempo: É louvável a decisão do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação de implantar o Cemadem, um centro de alerta de desastres naturais, no prédio do INPE - Instituto de Pesquisas Espaciais, no interior paulista. É uma boa medida, apesar de ter vindo tarde, porque, se é pra valer como diz o pesquisador Carlos Nobre em entrevista ao Valor Econômico (06/10/2011, p.A16), poderia ter evitado inúmeras tragédias em anos anteriores, se tivesse chegado antes. Mas antes tarde do que nunca e esperamos que funcione a contento.






