Opinião: "City Editor", um grande livro sobre jornalismo

O jornalismo americano foi o melhor do século XX - aliás, o século do jornalismo. Na tradição da imprensa da América, a editoria de cidades tinha lugar de proeminência em uma redação.

Atualizado em 28/06/2011 às 17:06, por Matinas Suziki Jr..

Há várias explicações para esse fenômeno, uma delas diz que o jornalismo só passou a existir realmente depois que se desenvolveram as técnicas para uma boa cobertura local.
A editoria de cidades era tão importante que a expressão city room podia ser empregada para designar a totalidade da redação - e não apenas a área na qual trabalhavam os repórteres, redatores e editores de cidades. Nessas, costumavam ficar as maiores equipes de reportagem e o city editor tinha muitas vezes o status do que no Brasil chamamos de secretário de redação. É famosa a história que diz que o New York Times, em 1963, mudou o nome da editoria de cidades para editoria metropolitana, não só para ajustá-la à realidade de uma grande metrópole como Nova York mas também para simbolizar o crescimento do poder do então city editor Abe Rosenthal - que posteriormente seria promovido ao cargo de editor executivo.
Tendo sido um brilhante correspondente no exterior, Rosenthal, como editor metropolitano, "passou a cobrir Nova York como se ela fosse uma capital estrangeira que precisava ser explicada para os leitores em todas suas sutilezas e peculiaridades", como se lê em "The Trust", a história do Times escrita por Susan E. Tifft e Alex S. Jones.
Uma lenda como editor de cidades foi o texano Stanley Walker, que comandou as páginas citadinas do New York Herald Tribune de 1928 a 1935. Walker escreveu dois livros sensacionais. O primeiro, "The Night Club Era", é uma grande reportagem da vida noturna nova-iorquina dos anos da Lei Seca. O segundo, "City Editor", foi publicado em 1934 e é um dos melhores livros já escrito sobre o jornalismo. Pelas suas páginas, passeiam magníficas histórias dos veículos da época, casos dos notáveis homens de imprensa da "era do jazz", finas observações sobre as mais variadas atividades de uma redação. Ele trata também de temas como o primeiro código de ética do jornalismo americano, a relação entre o noticiário da imprensa escrita e as notícias transmitidas pelo rádio, o crescimento da utilização da fotografia, a presença de mulheres no jornalismo, a importância de um bom banco de dados para um jornal, a ligação dos jornalistas com a bebida.
Pelas observações de Stanley Walker, vamos aprendendo que um editor, não importa o quão bom ele seja, nunca será bom o suficiente; que um editor conhece o que é a frustração e a amargura, mas que, sim, ele tem também os seus grandes momentos; que capacidade de julgamento e boa memória são duas armas essenciais; que o trabalho precisa, às vezes, fugir às convenções porque a notícia não segue convenções; e que as oportunidades para mostrar bondade ou crueldade, alta competência ou estupidez são sem limites na vida de um editor.

Diretor executivo da Companhia das Letras e coordenador da coleção Jornalismo Literário.