Opinião: Ciência, tecnologia e poder: o papel do Jornalismo Científico

Os interesses e compromissos daqueles que patrocinam a ciência e a tecnologia no mundo moderno têm, cada vez mais, relação com as fontes especializadas que se propõem a repercutir grandes temas desta área na mídia, nos periódicos e nos eventos científicos.

Atualizado em 24/04/2013 às 11:04, por Wilson da Costa Bueno.

E isso, de imediato, nos obriga a aumentar a vigilância em relação aos lobbies empresariais e políticos.
Em nossos dias, empresas e governos se apropriam da ciência e da tecnologia com o objetivo de garantir privilégios e exclusividades (elas, portanto, não circulam livremente como se postulava), de subjugar os adversários e de fazer prevalecer os seus interesses.

Os exemplos se contam às dezenas, mas é fácil identificar essa perspectiva não cidadã e monopolista da ciência e da tecnologia "a serviço de" em segmentos como a indústria bélica, da saúde, agroquímica e de biotecnologia, entre muitos outros. A contrapartida do chamado progresso técnico é, quase sempre, o monopólio (o das sementes por empresas transgênicas como pretende a Monsanto e outras fabricantes de biotecnologia , por exemplo), a exclusão (há países que podem e os que não podem desenvolver tecnologia) e a espionagem (o jogo para vencer a concorrência é pesado mesmo e não descarta o suborno, a espionagem, o assassinato etc).

O controle da ciência e da tecnologia se estende também ao processo de circulação de informações, com denúncias recorrentes de assédio e manipulação de importantes publicações científicas por empresas privadas, quase sempre com a cumplicidade de "cientistas/pesquisadores" sem escrúpulos que, embora se constituam em uma minoria, têm o poder de influenciar políticas públicas e decisões do Parlamento .

Esta é uma questão que a comunidade científica, muitas vezes, não gosta de debater e a imprensa de investigar, certamente por inúmeras razões. Mas a relação promíscua entre pessoas que se proclamam "da ciência" e os grandes interesses privados tem se aprofundado e, volta e meia, estão elas na mídia, nos congressos científicos e até no Parlamento fazendo lobby para corporações globais.

A imprensa - e os jornalistas em particular - bastante desatentos, não conseguem enxergar além da notícia e tomam informações contidas em releases gerados por entidades a serviço de interesses poderosos como verdadeiras. É ilustrativo analisar a ação do CIB - Conselho de Informações sobre Biotecnologia que se legitima como uma dessas fontes, visto que, travestido e/ou apoiado pela ciência, faz a apologia dos transgênicos e favorece as multinacionais da biotecnologia. A imprensa brasileira não consegue também perceber que as empresas que produzem sementes engenheiradas são as mesmas que dominam o mercado dos agrotóxicos (veneno e não remédio de planta!), embora, em seu discurso, tentem propor um antagonismo irreal.

A ação da Big Pharma, conjunto dos principais laboratórios farmacêuticos do mundo, também não tem sido percebida pela mídia, seduzida, geralmente, por notícias sobre medicamentos milagrosos, enquanto, por debaixo do tapete, as corporações inventam doenças, boicotam os genéricos, estendem patentes exauridas, quando não utilizam cidadãos em todo mundo como cobaias. Marcia Angel, professora de Harvard e ex-editora de uma das mais importantes revistas científicas da área médica, traz dados contundentes sobre um fato muitas vezes desconhecido: os grandes laboratórios investem mais em marketing do que em pesquisa em desenvolvimento e , particularmente nos países ricos, são grandes financiadores de campanhas eleitorais. (5)

A divulgação científica e o Jornalismo Científico em especial precisam estar mais politizados, incorporando outras vertentes além da meramente técnica (na verdade, pretensamente técnica) para que não sejam utilizados como espaços de consolidação de monopólios e cartéis de toda ordem.

Esta vigilância deve ser estendida também para os arautos das pseudociências que costumam freqüentar a mídia e que, apoiando-se na ingenuidade dos cidadãos, fazem apologia das soluções miraculosas, especialmente na área da saúde, sem qualquer respaldo científico. Determinados veículos e programas jornalísticos no rádio e na televisão, por desconhecimento, sensacionalismo ou mesmo para aumentar as suas receitas com anúncios, acabam abrindo espaço para o charlatanismo, uma ameaça real para pessoas fragilizadas que, com dificuldade de acesso ao sistema de saúde tradicional, se tornam vulneráveis a terapias que não funcionam e adeptas da automedicação.

A formação do jornalista científico deve atentar para estas situações e incorporar um debate amplo sobre o avanço das pseudociências e a sua capacidade de sedução notadamente junto às pessoas simples ou desinformadas.

A atuação política do Jornalismo Científico deve também privilegiar uma função que tem sido relegada a segundo plano: despertar nos jovens a vocação para as ciências.

Os vestibulares para as nossas principais universidades têm, continuamente, apontado para uma realidade triste, mas incontestável: a procura por áreas tradicionais de ciências (Química, Física, Biologia, Matemática) continua declinando vigorosamente, enquanto outros campos do conhecimento e da prática profissional passam a merecer a atenção das novas gerações.

A situação chega a ser alarmante e é fácil entender os motivos. A falta de interesse pelas ciências ditas básicas, nos vestibulares, significa uma oferta cada vez menor de professores, ou seja, se não há demanda no presente, não existirão docentes de Química, Física, Biologia ou Matemática no futuro próximo.

Na verdade, o problema já se arrasta há algumas décadas e, infelizmente, os governos ou os responsáveis pela implementação de uma política educacional que atenda aos interesses do País nada têm feito para solucioná-lo. Os jovens continuam (e continuarão) procurando as carreiras que lhes permitam obter maiores salários ou status, seguindo a orientação do mercado, com a participação decisiva da mídia. Ser professor, sobretudo nas áreas das ciências básicas, nas condições atuais, não é mesmo atraente. Afinal de contas, quanto ganha um professor nas escolas públicas (municipais, estaduais ou federais) e que respeito lhes devotam as autoridades do País? Que prestígio lhes atribuem o mercado e os governantes?

Ser professor de Física ou Química , imaginam os vestibulandos, não é tão estimulante como ser jornalista, publicitário ou médico, advogado ou profissional do Turismo, o que confirma a relação número de candidatos x vaga nos vestibulares das principais universidades brasileiras. Evidentemente, nada se pode fazer contra a escolha, porque, afinal de contas, ela se respalda numa realidade e numa imagem. O jovem vislumbra o seu futuro e não se enxerga numa sala de aula, muito menos pesquisando as ciências ditas tradicionais. E deveria?

Não há, com certeza, uma solução fácil e rápida para o problema porque toda mudança, nessa área, demanda tempo e um trabalho paciente de conscientização e sedução. Além disso, o dia a dia confirma a expectativa dos alunos.

O Jornalismo Científico, dentro dos seus limites, pode contribuir para alterar este quadro desfavorável, mas, para isso, precisa estar comprometido com uma nova proposta, ter consciência do assédio formidável de empresas que não hesitam em sonegar informações relevantes (sobre os efeitos colaterais dos medicamentos, sobre o impacto dos transgênicos e dos agrotóxicos na saúde e no meio ambiente etc) e de interesse da população.

A ciência, a tecnologia e a inovação precisam ser percebidas em sua complexidade e abrangência e isso significa não contemplá-las em sua perspectiva exclusivamente técnica mas a partir de um contexto político, econômico e sócio-cultural mais amplo. Com tantos interesses em jogo, é preciso estar vigilante o tempo todo. Com corporações monopolistas e predadoras, não existiu, não existe e nunca existirá almoço grátis. Por isso, não duvide: seremos todos nós, ao final, que pagaremos esta conta.

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