Opinião: Calor, poluição e cinismo ético. É preciso mais do que gritar nas ruas
Para os otimistas contumazes, as informações de que as pragas se tornam cada vez mais resistentes aos transgênicos e agrotóxicos, de que os vírus e bactérias estão derrotando os medicamentos, ou de que o planeta anda se aquecendo perigosamente, parecem soar como notícias inventadas pela mídia para aumentar a audiência.
Atualizado em 09/08/2013 às 13:08, por
Wilson da Costa Bueno.
Há mesmo muitas pessoas que apostam no talento humano, na nossa criatividade salvadora, na inesgotável capacidade das organizações para superar todos os problemas e desafios e que, por preguiça ou pânico contido, não querem enxergar a realidade.
Mas ela está aí, cada vez mais dramática, escancarando conseqüências e impactos desagradáveis da nossa ação irresponsável, da omissão das autoridades e da ganância de empresas globais.
Nestes últimos dias, fomos despertados da zona de conforto com a notícia de que o premiê japonês, Shinzo Abe, reconhecia o vazamento contínuo de água contaminada da usina nuclear de Fukushima, arrasada por um terremoto e um tsunami em março de 2011.
A água radioativa, numa proporção considerável – 300 toneladas por dia- está sendo despejada de maneira incontrolável no Oceano Pacífico, e é possível imaginar, de imediato, os danos causados ao ecossistema e o prejuízos incomensuráveis à qualidade de vida e a saúde dos que habitam na região.
O Governo japonês não havia cogitado de intervir nesta área porque havia confiado que a Tepco (a companhia de energia elétrica de Tóquio) iria resolver o problema, mas ela se mostrou incompetente. Ela não tem condições de viabilizar soluções de grande porte, até hoje jamais tentadas, como a construção de uma muralha de solo congelado (com 1,6 km de comprimento e que penetre mais de 33 metros abaixo da superfície) para impedir que a contaminação avance sobre as águas subterrâneas próximas, o que se constituirá em uma catástrofe sem limites.
Ao mesmo tempo, como acentua Washington Novaes, um dos mais lúcidos jornalistas brasileiros, em artigo publicado em O Estado de S. Paulo, em 9 de agosto de 2013, sob o título Muitos alarmas para o clima estão soando, entidades internacionais ( como a Agência Internacional de Energia) e autoridades de todo o mundo novamente repetem o que não queremos ouvir: “se não acharmos solução para o problema das emissões no setor de energia, a batalha estará perdida”.
E o que andamos fazendo a respeito? Muito pouco, além de providências cosméticas que talvez nem sirvam para empurrar o problema com a barriga porque, no fundo, ninguém quer abrir mão de privilégios, lucros ou qualquer outra coisa que signifique alterar o status quo que favorece a tão poucos. Apesar de estarmos investindo 300 bilhões de dólares em energias renováveis, como explica Washington Novaes, continuamos dando subsídios num montante equivalente a 0,5 trilhão de dólares anuais para estimular o consumo de combustíveis fósseis, continuamos instalando usinas de carvão e apostando no petróleo como a fonte energética do futuro (vide a louvação em torno do Pré-Sal). A contradição entre o discurso e a prática é notável: enquanto empresários e entidades setoriais fazem a apologia da economia verde, exemplos gritantes evidenciam que estamos andando para trás como caranguejos que anunciam o apocalipse. O desmatamento continua elevado, com a destruição intensiva dos nossos recursos florestais, a biodiversidade continua sofrendo perdas irreparáveis e as tecnologias, anunciadas como instrumentos de redenção, incorporam novas ameaças.
Inúmeros escândalos abalam a comunidade empresarial, deixando claro que as posturas inseridas nos relatórios hipócritas de sustentabilidade são apenas uma parte da farsa da comunicação das organizações. Os exemplos se contam às dezenas: a Siemens e a Alstom são acusadas de fraudar licitações em São Paulo e os jornalões expõem as vísceras de governos e de executivos corruptos; A Ford é punida por fraudar a contratação de deficientes para sonegar impostos; a Lelis Blanc se junta à Zara na exploração de trabalho escravo em São Paulo e a elas se soma, em escala maior, a MRV; a Vale continua seu inferno astral, com problemas no Brasil e no exterior, denunciada por espionar jornalistas e executivos e por afrontar os direitos humanos em outros países (além da interminável e desigual disputa com quilombolas e indígenas); a nossa querida Petrobras retorna ao noticiário em virtude de crime ambiental que se transforma agora em punição exemplar e assim por diante.
O discurso da economia verde não se sustenta porque ela representa uma mudança de paradigma que as organizações e os governos não querem assumir porque não lhes interessa. A constatação é óbvia: o modelo econômico que aí está, pautado pelo incentivo irresponsável ao consumo não consciente, pelo favorecimento ao sistema financeiro em detrimento ao setor produtivo, pelo agronegócio predador que privilegia commodities de exportação e favorece os países hegemônicos e pela volúpia com incentivamos disseminação das novas tecnologias. é insustentável.
Infelizmente, os gestores de comunicação nas organizações (agências, assessorias) fazem coro a essa proposta de expansão do capital a qualquer custo, prometendo milagres e produtos inovadores, com o objetivo de mascarar as conseqüências nefastas a médio e longo prazos. Eles são acompanhados pelos meios de comunicação que, pressionados pela gestão incompetente que têm fechado veículos e provocado demissão em massa de profissionais, optam por aderir aos lobbies, promover a ganância empresarial e favorecer a relação espúria entre a política, a economia e o universo da informação.
A falta de perspectiva crítica não tem permitido a contestação do modelo porque os que, em principio, poderiam chamar a atenção para os seus desvios e abusos, locupletam-se com as suas benesses, particularmente num país, como o nosso, em que a aproximação entre o poder político e a propriedade dos meios de comunicação é escandalosamente nociva para os interesses do país e para os cidadãos em particular.
Não é preciso ser pessimista para perceber que assistimos a uma nova onda de deslizes éticos e de afrontas aos direitos humanos, ao meio ambiente e à cidadania numa escala sem precedentes, como se parte significativa da comunidade política e empresarial tivesse definitivamente assumido a sua face mesquinha e perversa.
Como cidadãos e comunicadores, não nos resta outra alternativa : é preciso denunciar esta situação, botar a boca no trombone, gritar nas redes e mídias sociais mas sobretudo mobilizar as pessoas corajosas e de bem para que reajam e , se possível, modifiquem esse cenário aterrador.
O jogo tem que ser jogado rápido porque enquanto a gente se surpreende, mas nada faz, Fukushima continua vazando, a temperatura continua crescendo e a corrupção, que não parece ser fim, contamina mortalmente a alma brasileira.
Ainda continua valendo gritar nas ruas, sem o vandalismo covarde daqueles que querem inibir as boas intenções, mas talvez tenhamos que ensaiar dois novos passos: dar um pontapé formidável nos fundilhos de quem insiste em boicotar a nação brasileira; e frear com coragem o avanço de empresas que colocam os interesses privados acima do interesse público.
Pouco importa imaginar que essas ações representam uma utopia. Pior é não ter disposição, coragem ou esperança para escrever a nossa própria história.
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