Opinião: “Aquele artigo ‘o’”, por Patrícia Paixão

Em 2012, ao escrever o texto de apresentação do livro “Mestres da Reportagem” (lançado no mesmo ano, com a minha organização e coautoria dosmeus alunos), havia comentado sobre a matéria feita pelo jornalista Goulart de Andrade, na década de 1980, que mostrou o dia a dia das travestis de São Paulo.

Atualizado em 24/10/2017 às 16:10, por Patrícia Paixão.

Naquela época usei o artigo “o” no plural para me referir às travestis. Nada me soou errado na ocasião, tampouco recebi crítica ou repreensão de alguém.
Anos depois, escrevi uma coluna citando a mesma reportagem e voltei a utilizar o artigo “o”. Desta vez, um aluno querido, com o qual tenho uma relação quase maternal, tamanho o carinho que sinto por ele, me alertou: “Professora, posso te pedir um favor? Você poderia usar o artigo “a” em vez do artigo masculino no texto? Isso é muito importante para a luta das travestis, sabe?” Fiquei muito envergonhada com a situação. Como eu, que me coloco como uma pessoa que defende os direitos humanos e a luta de todas as pessoas que são oprimidas e alijadas na nossa sociedade estava cometendo um erro tão grosseiro? Como não me coloquei no lugar dessas mulheres que lutam tanto para ter seu feminino aceito? Não é um simples artigo. É um não reconhecimento da batalha diária delas, de todas as agressões sofridas por essas mulheres, de todos os “nãos” e “senões” que elas enfrentam, sem o apoio da sociedade.
Obviamente corrigi o texto, inserindo o artigo “a”. Mas a correção foi muito maior, gerou uma mudança na minha vida. Esse aluno não sabe o quanto me ensinou. Desde então eu passei a repensar todos os termos que eu vinha usando, tanto em meus textos como em sala de aula. Passei a avaliar se, ao empregar determinada palavra, eu não estava ferindo alguém, desrespeitando alguma luta ou sendo preconceituosa.
Quantas e quantas vezes escrevi, de forma automática, verbos, termos e expressões que hoje considero como sendo extremamente racistas e desagregadores. Alguns exemplos: “denegrir”, “homossexualismo”, “mercado negro”, “mulata”, “inveja branca”.
O que mudou de 2012 para 2016, quando esse aluno querido me fez esse alerta? Por que ninguém me repreendeu em 2012 e por que tanta gente questiona isso hoje? MUDOU MUITA COISA. E VAI CONTINUAR MUDANDO, FELIZMENTE!!! As pessoas estão cada vez mais engajadas em suas lutas, fiscalizam mais, exigem mais, denunciam mais, constrangem mais aqueles que continuam perpetuando um vocabulário nocivo e discriminatório.
A minha ficha demorou a cair e a de muitos ainda não caiu. Aposto como vários leitores acharão tudo isso uma grande bobagem, e podem até fazer pouco caso deste texto.
Somos criados, na maioria das vezes, em lares que reproduzem diversas formas de preconceitos. Acostumamo-nos com isso e consideramos o uso desses termos uma coisa natural. Basta, no entanto, nos colocarmos com sinceridade e empatia no lugar do outro, para constatarmos como ouvir algumas dessas palavras ou expressões pode ser agressivo e doloroso.
E, se você é jornalista, empregar uma linguagem que respeite a diversidade e evite o preconceito não é questão de opção, mas obrigação. De acordo com o artigo 9.º do Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, é dever do jornalista “defender os princípios expressos na Declaração Universal dos Direitos do Homem”, a qual repudia toda forma de discriminação. Além disso, o jornalista não pode (segundo o artigo 10.º), “concordar com a prática de perseguição ou discriminação por motivos sociais, políticos, religiosos, raciais, de sexo e de orientação sexual”.
Usar termos pejorativos a determinado gênero ou raça acaba sendo um desrespeito ao nosso Código de Ética. Estamos numa profissão de natureza social. Devemos acompanhar as mudanças da sociedade, não só respeitando a luta de grupos que finalmente têm a possibilidade de ampliar a sua voz, por meio da internet e outros canais, como dando visibilidade às ações desses grupos, contribuindo com um mundo mais plural e justo.
Vemos com bastante frequência manchetes misóginas e preconceituosas no nosso jornalismo. Já pensou como um simples elemento gráfico, como um título, pode estimular comportamentos negativos?
Deixo a reflexão, e peço aos movimentos de luta pelos direitos das mulheres, dos negros da comunidade LGBT, entre outros, que continuem denunciando e nos alertando para práticas de linguagem discriminatória. Assim como a ficha caiu para mim, certamente cairá para outros, outros e outros. É nossa obrigação sermos jornalistas melhores a cada dia. Hoje me considero uma jornalista bem melhor que no passado e sei que ainda tenho muito a melhorar. Avante!
Crédito:Arquivo pessoal * é jornalista e professora do curso de Jornalismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, da Universidade Anhembi Morumbi e das Faculdades Integradas Rio Branco. É organizadora dos livros "Jornalismo Policial: Histórias de Quem Faz" (In House, 2010) e "Mestres da Reportagem" (In House, 2012). Também é responsável pelo blog Formando Focas.