Opinião: A sustentabilidade dos bancos não merece crédito
Assim como outros setores, o sistema financeiro resolveu definitivamente incorporar a sustentabilidade em seu discurso e, de uma hora para outra, passamos a ser bombardeados com expressões como "o banco do planeta", o "banco mais sustentável do mundo" e outras chamadas do gênero.
Será verdade mesmo? Os bancos podem ser sustentáveis? Esses bancos que a gente conhece por aqui? Afinal de contas, que conceito de sustentabilidade eles estão praticando quando se proclamam como sustentáveis?
Comecemos por uma história comum e da qual provavelmente você já ouviu falar muitas e muitas vezes, com outros personagens (vai ver até você mesmo!).
Marina (o nome é fictício, você pode preencher com qualquer outro) acessa ansiosamente o saldo da sua conta na internet para verificar se o dinheiro prometido para este dia havia chegado. Havia contas a pagar (o marido ficou temporariamente desempregado) e há bocas a alimentar em casa. Enquanto a tela do computador se recompõe à sua frente, ela vai ficando nervosa, tensa. O dinheiro havia sido depositado mas sumiu num passe de mágica. O banco havia, sem aviso prévio, encerrado o seu cheque especial (era de pouco mais de 500 reais e ela o estava utilizando em parte) e seqüestrado o depósito feito para cobri-lo. Estava sem dinheiro para passar o resto do mês. Desesperada, correu até a agência e ouviu da gerente, de olhar impassível, que não poderia fazer nada. Era procedimento padrão do banco para perfis de conta como a dela.
O conceito de sustentabilidade tradicionalmente envolve três aspectos: o ambiental, o social e o econômico. Provavelmente, a sustentabilidade do banco da Marina tinha se concentrado apenas no último deles e assumia uma concepção muito particular: a sustentabilidade dos negócios. E essa é a perspectiva dos bancos em geral, que, por esse motivo, não costumam ter uma boa imagem, sobretudo quando se consultam os correntistas, em especialmente os menos favorecidos em termos de renda, ou, como preferem os bancos, de baixo saldo médio. Tanto é verdade que, volta e meia, a FEBRABAN enceta uma campanha para limpar a imagem dos seus associados. Teve até um banco que pregava em sua ladainha publicitária que ele "nem parecia um banco" e a gente sempre entendeu o que ele queria dizer com isso: que parecer um banco não é lá uma coisa bonita de se ver.
Os bancos gostam dos correntistas que dão lucro, que não reclamam dos juros extorsivos (200% ao ano é pouco para uma inflação menor do que um dígito?) e que aceitam sem chiar cartões de crédito enviados sem autorização, ou não reclamam de seguros de todos os tipos incluídos em seu extrato, ainda que a legislação impeça esses desvios. Gostam de clientes fragilizados que, para não perderem os dedos, entregam os anéis. E não protegem o que deixamos na mão deles, como o que estava dentro dos cofres particulares entregues de mão beijada para assaltantes espertos, como o que aconteceu com um grande banco, em plena avenida Paulista, em São Paulo. Os clientes serão integralmente indenizados? Por que o sistema de alarme não funcionou? Por que não havia vigias? Ora, ora, porque o que estava no cofre não era deles e, como ficamos sabendo agora, esse negócio de cofres particulares é mais um bom negócio para os bancos, muito melhor do que para aqueles que confiam que estão seguros quando lá depositam os seus "Rolex" ou jóias de família. Bancos acreditam piamente que boa parceria é aquela em que só eles lucram ou quando podem lucrar (o que sempre acontece) muito mais do que os seus parceiros. A sustentabilidade dos bancos lembra a balança com dois braços (aquele que simboliza a Justiça) que pende dramaticamente para um lado só: o lado deles.
Os bancos frequentam o topo do ranking das reclamações dos consumidores, dividindo este lugar desconfortável com as operadoras de telefonia, os planos de saúde e outros setores menos votados. Os bancos reúnem milhares de processos trabalhistas, muitos por assédio moral, preconceitos de todo o tipo, e submetem seus funcionários a um trabalho estressante (converse com quem trabalha ou trabalhou em banco e que tenha coragem de falar, se ainda não fez isso e comprove este fato!).
As crises que temos enfrentado ultimamente são decorrentes da ganância financeira e quebradeiras de bancos têm sido comuns em todos os países, inclusive no Brasil. Você deu azar de ser correntista quando o Banco Santos quebrou? Aquele que tinha uma apresentadora de TV, muito charmosa, como garota-propaganda: "você ainda vai ser cliente do Banco Santos". Você se lembra?
Os bancos que estão aí, em sua essência, praticam um conceito capenga de sustentabilidade porque, em essência, estão voltados para o lucro, não um lucro qualquer, o que é comum no sistema capitalista, mas o lucro máximo, o que, em muitas situações, significa lucro a qualquer preço.
A mídia, em seus editoriais, (e olha que a mídia costuma ser benevolente com os poderosos interesses empresariais porque a contempla como grandes anunciantes e, no fundo, também está na mão dos bancos) tem batido pesado contra a ganância do sistema financeiro, sua disposição para esfolar os clientes, notadamente nos momentos de crise. Você já percebeu que muitos bancos sempre lucram - e muito - quando o mundo parece que vai desabar? E que, se alguns deles desabam, vamos todos juntos de roldão. Por isso, sempre aparecem governos para bancar a bancarrota de bancos, como o que aconteceu com o Panamericano recentemente. Quem paga a conta? Você não tem dúvida, não é? Somos nós mesmos, cara pálido!
Os bancos justificam o spread elevado porque, segundo eles, há um monte de parâmetros a considerar (depósito compulsório, impostos, inadimplência etc) mas especialistas já fizeram as contas e descobriram que nada justifica esse lucro absurdo. Na verdade, é preciso virar o argumento de cabeça pra baixo: a inadimplência é alta porque o custo do dinheiro é formidável e os bancos emprestam sem critério porque sabem de onde podem tirar depois. E aproveitam para, com a mão grande que têm, ir fundo na busca do lucro máximo, seu objetivo maior (ou único?).
Assim se pronunciava um editorial do Estadão, no início de 2009, citando textualmente Fábio Barbosa, à época presidente da FEBRABAN: "O spread no Brasil é o mais elevado do mundo e não tenho como dizer que não é. O spread subiu e não tenho como dizer que não subiu". E mais adiante, o editorial continua: "Os bancos líderes de cada segmento geralmente cobram as maiores taxas. É um forte indício de como o poder de mercado permite a alguns bancos impor altos custos aos clientes.".
Recentemente, a Folha de S. Paulo publicou com destaque que a Receita estaria processando os bancos porque descobriu que eles andavam sonegando informações para aumentar seus lucros. Dizia a reportagem da Folha, de 29 de agosto de 2011:
"A Receita Federal descobriu que bancos estão declarando uma inadimplência maior do que a realmente verificada em suas carteiras de crédito como forma de pagar menos impostos.
Dados obtidos pela Folha mostram que, até julho deste ano, as instituições financeiras foram autuadas em quase R$ 200 milhões por terem informado um calote maior do que o observado pelo fisco. Esse valor já supera em 20% o total de notificações de todo o ano passado.
A expectativa é que as notificações - que incluem os valores dos impostos que deixaram de ser recolhidos, multas e juros - cheguem a R$ 600 milhões neste ano e aumentem ainda mais em 2012."
Os bancos têm explicação para o fato e alegam que têm critérios diferentes da Receita e que a acusação é infundada. Tudo bem, é importante ouvir os dois lados (jornalismo é isso, não é?), mas, falando francamente: você acredita na Receita ou na versão dos bancos?
Os bancos costumam também ser grandes patrocinadores de campanhas parlamentares e de partidos (como os banqueiros gostam de políticos e de autoridades, hein?). Vai ver que imagem ruim atrai imagem ruim e nada temos a dizer sobre isso porque gosto não se discute. Eu, por exemplo, adoro jiló frito, Emulsão de Scott e "dobradinha".
De qualquer forma, o que nos interessa aqui é que a sustentabilidade do sistema financeiro é apenas para inglês ver e não está alinhada com o conceito abrangente que deveria ser adotado em seu discurso. Não deveria se limitar à manutenção dos negócios ou, mais precisamente, dos seus negócios. Os bancos, pelo menos esses bancos com esta postura, são, em essência, não sustentáveis, pelo menos para a maioria dos que utilizam os seus serviços. Poderíamos talvez excluir daqui os grandes correntistas, aqueles que têm contas polpudas, porque eles são realmente tratados com muito carinho. São clientes Premium, que é por excelência uma situação transitória, condição que perdem logo que o saldo médio cai bruscamente.
Evidentemente, há outros públicos de interesse que gostam muito dos bancos, como os investidores de bancos sustentáveis (para os seus negócios) porque geram lucros imensos, ainda que costumem mais beneficiar com altos prêmios os seus altos executivos ou dirigentes do que os que investem neles o "seu rico dinheirinho". As agências que detêm as contas dos grandes bancos, ao que parece, também não andam se queixando deles porque investem uma boa grana em sua propaganda, inclusive naquela que contribui para consolidar a imagem de sustentáveis. O discurso da sustentabilidade dos bancos sustenta o lucro de agências de propaganda e assessorias e disso não podemos duvidar.
Os bancos raramente ultrapassam os compromissos formais de adesões a protocolos internacionais coletivos, mas poucos efetivamente implementam políticas reais para coibir desvios, como o financiamento de projetos controversos. Ou praticam autenticamente a diversidade corporativa: você vê mais negros nas propagandas dos bancos do que nas agências e particularmente assumindo a função de chefias. De novo, o discurso não está colocado na prática. Estou mentindo?
É possível que existam exceções (puxa, em todo setor há, mas não quero me arriscar aqui, sobretudo porque não sou de acreditar em discursos que vejo não sintonizados com a realidade), mas bancos parecem ser "geneticamente" insustentáveis, como a indústria do tabaco, as agroquímicas, as que produzem amianto, a indústria de armas etc.
Como existem pessoas que acreditam em duendes, que caem no canto do bilhete premiado, que imaginam que grandes lojas de varejo , ao dividirem o pagamento em dezenas de prestações, não embutem os juros nas parcelas, deve ter também gente (e infelizmente muita gente) que aceita o discurso da sustentabilidade dos bancos.
Prefiro a ingênua e saudável desconfiança do caboclo brasileiro (sou, com muito orgulho, caipira de Ribeirão Preto): "por fora, bela viola; por dentro, pão bolorento ou outro ditado mais contundente: "elogio em boca própria é vitupério!"
A sustentabilidade dos bancos sempre doeu no bolso da gente mas agora está atormentando os nossos ouvidos. Dá pra diminuir o barulho? Como a gente costuma dizer quando vê alguém contando muito papo: Menos, menos, menos.
O discurso da sustentabilidade dos bancos não merece crédito, mas tem rendido muitos dividendos para eles. Só para eles. E eles iriam usar um conceito de sustentabilidade que não os favorecesse?
Uma pergunta final: porque os bancos, em vez de gastarem tanto dinheiro para se proclamarem sustentáveis, não concentram esforços para aumentar a segurança das transações e sobretudo para arrumar alternativas que derrubem os juros pornográficos que praticam? Perguntar ofende? Desculpem, só queria colaborar com a sustentabilidade de vocês!






