Opinião: A seção de cartas moderna, o fórum de interação entre mídia e sociedade, chama-se internet

Leo Garbin Volto à IMPRENSA depois de um ligeiro intervalo de 20 anos e, obviamente, muita coisa mudou na mídia nesse período. Novas tecnologias apareceram, veículos acabaram e surgiram, os nomes em destaque são outros.

Atualizado em 09/01/2012 às 16:01, por Gabriel Priolli.

Garbin
Volto à IMPRENSA depois de um ligeiro intervalo de 20 anos e, obviamente, muita coisa mudou na mídia nesse período. Novas tecnologias apareceram, veículos acabaram e surgiram, os nomes em destaque são outros. Até o inimaginável aconteceu, o venerando Jornal do Brasil saiu das bancas. Mas, por maiores que sejam as mutações vividas nos aspectos técnicos, gerenciais ou editoriais, nada, absolutamente nada, mudou mais do que a... seção de cartas.

Sim, a outrora humilde seção de cartas! Ela transformou-se na parte mais importante dos veículos. É o centro das atenções do público e das preocupações dos editores, e é ela que orienta a angulação das pautas, o desenvolvimento das matérias e a linha de edição. Seu espaço é infinito e sua influência sobre a opinião pública não para de crescer.

A seção de cartas moderna, o grande fórum de interação entre a mídia e a sociedade, chama-se internet. São muitos os seus formatos: e-mails, blogs, grupos de discussão, redes sociais, área de comentários nos sites. Uma infinidade de espaços, em que o diálogo caloroso, às vezes exaltado, substitui o antigo monólogo doutoral dos jornalistas. Espaço em que o público troca informações e comentários com a redação e entre si. Comunicação instantânea, a qualquer tempo, em todas as direções.

Essa peculiar seção de cartas funciona também como distribuidora de veículos impressos ou retransmissora dos eletrônicos. Põe para circular, em altíssima escala, tudo o que é publicado, na mídia que for. Nem é preciso mais procurar a notícia, atualmente; alguém vai mandá-la a você. E tem ainda a produção colaborativa, o conteúdo feito pelo público, outra novidade que avança rapidamente. É o triunfo final da carta do leitor, virando matéria igual às outras.

A internet democratiza o debate na mídia e põe em discussão a própria mídia, seus valores e suas práticas. Está mudando a forma de fazer política. Isso é muito bom, mas tem de avançar ainda mais. Sobretudo na televisão, onde as emissoras comerciais resistem a implantar a interatividade na TV digital, receosas de dividir seu mercado com os provedores de serviços interativos e de perder a hegemonia. Com isso inventamos, mas não usamos o Ginga, o sistema operacional que faz da TV digital nipo-brasileira a mais avançada do mundo.

O consumo de notícias e informações agora é, necessariamente, uma experiência interativa. Comunicação bidirecional. Quem ainda não acordou para esse fato parou no tempo. Fica aí lambendo selos, enquanto o público dá as cartas.

Coluna publicada na edição de jan/fev (275) da Revista IMPRENSA

foi editor executivo e diretor de redação de IMPRENSA entre 1987 e 1991. Hoje é produtor independente de TV. gpriolli@ig.com.br.