Opinião: A disputa entre a notícia e a pseudocelebridade
De quem é a culpa pela queda de qualidade do jornalismo?
Trabalho com jornalismo. Vivo os meus dias conectada e gosto de saber de tudo um pouco. Mas me surpreendo diariamente com o quanto nós, jornalistas, somos especialistas em levar à celebridade pessoas que não têm nada a oferecer. A moça nunca fez nada na vida, senão aparecer dançando de biquíni em um programa de televisão de audiência média. É o suficiente para que muitos - quase todos - os grandes sites de notícias deem à pessoa um grande espaço em suas home pages, com chamadas que deveriam concorrer ao "Pulitzer da vergonha alheia": "Fulana de tal toma sol na praia". Para mim, novidade seria se ela estivesse na praia vestindo uma burca.
No caso da moça que estou falando - embora a história possa ser aplicada a dezenas de outras, porque sempre acontece a mesma coisa - passei dias para saber quem ela era, já que o corpão não me chamava a atenção para clicar na notícia, o nome não me dizia nada, nem o fato de ela estar de biquíni pequeno pegando sol na areia. Então, em um dia que não aguentava mais ler o nome da jovem que pegou um cara no carnaval, foi vista com um jogador de futebol, voltou a sair com o cara do carnaval e por fim (até a última chamada que vi) estava com um outro jogador de futebol, fui para o Google e me recusei a acreditar que, de tanto não fazer nada, a moça ganhou bastante mídia. O corpão deve mesmo ser um incrível catalisador de cliques.
A criatividade também está "bombando" no sites de notícias do Brasil. Adoro quando gente que nunca ouvi falar na vida, mas que tem uma "senhora" assessoria de imprensa, emplaca notas das mais variadas sobre sua gravidez. É aí que as chamadas dão show: "Grávida, Sicrana come pão de queijo com amigas"; "Grávida, Sicrana entra em loja de roupas infantis"; "Grávida, Sicrana sai de shopping cheia de sacolas". Mas, não paramos por aí. Depois que o pimpolho nasce, o espetáculo continua: "Fulana de tal exibe boa forma após o nascimento do bebê".
Se gente nada com nada consegue um espaço enorme nos veículos de comunicação com nada, imagina só quem faz por merecer o destaque que tem? Vide o jogador Neymar Jr., que tem dado o que falar nos gramados mundo afora. Mais uma vez, o "lugar comum" toma conta da imprensa. Quando o menino descobriu que teria um filho, não houve uma matéria sequer que não chamasse o atleta de "Papai Neymar". "Papai Neymar treina com bola"; "Papai Neymar brinca no treino". Olha, se eu fosse o Papai Noel morreria de inveja...
Entendo mais que perfeitamente que os sites, sobretudo, precisam de muitos, muitos, muitos cliques para que sejam atraentes para o mercado publicitário. Mas acredito que venha faltando, no mínimo, um pouco de bom senso e criatividade, principalmente aos editores de home pages. As notícias de interesse público, que deveriam ter seu lugar de destaque, estão cada vez mais espremidas pelas pseudocelebridades, que ocupam cada vez mais espaço.
Depois, os próprios jornalistas reclamam da queda da qualidade do noticiário. De quem é a culpa? A resposta é clara, tanto quanto as regras do futebol. A culpa é nossa.
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