Opinião: A Copa, o Legado e a Retórica dos Políticos
Em reportagem publicada na Folha de S.Paulo de 23 de agosto de 2013, o governador da Bahia, Jaques Wagner, afirma que “o turista do Mundial
Atualizado em 23/08/2013 às 12:08, por
Anderson Gurgel.
Ainda que seja um belo evento de futebol – e quiçá o Brasil conquiste seu sexto título – a Copa de 2014 tinha metas maiores do ponto de vista do legado e, por isso, já amarga decepções, principalmente na melhoria dos transportes públicos
não vai andar de metrô”. A lógica, segundo ele, é que esse torcedor “tem grana” e que “vai pegar sua van”. Ainda na fala do político baiano, há "certa demagogia" sobre o legado da Copa de 2014.No raciocínio dele, quem vai a esse tipo de evento – que tem ingressos caros – não quer andar de transporte público: "o turista que vier para isso (o Mundial) não vai andar de metrô. Turista que vier para isso tem grana, vai ficar no hotel, vai pegar sua van, que vai levar direto (para o estádio) pelo corredor exclusivo, aquelas coisas todas", afirmou.
Por fim, o governador explica que o “metrô é não é para a Copa, é para o povo”. Esse depoimento, praticamente uma pérola da retórica enviesada, foi dado a um programa da afiliada da Rede Record na Bahia e, partir da repercussão, ganhou espaço no jornal já citado.
O raciocínio faria sentido se o projeto Copa do Mundo de 2014 no Brasil não tivesse sido estruturado, em níveis de Governo Federal, Estados e Municípios – para ser uma grande oportunidade de dar uma injeção de ânimo no desenvolvimento do país e, por consequência, melhorar a vida dos brasileiros. Peguei o exemplo baiano, mas não quero me ater a ele. A questão em jogo aqui é em nível nacional.
O que foi prometido quando o Brasil foi definido como sede da Copa do Mundo, ainda em 2007, se perdeu totalmente. A primeira prerrogativa, alardeada por Ricardo Teixeira, presidente da CBF na época, era que o evento não precisaria de dinheiro público para a construção dos estádios: essas verbas deveriam ser usadas para garantir a infraestrutura necessária nas cidades-sedes e, como consequência, deixariam um legado positivo para esses locais.
Como bem sabemos, não é o que está acontecendo. Os estádios estão dependendo de incentivos diretos e indiretos dos governos e uma boa parte das obras de infraestrutura foram abortadas ou estão atrasadas. E isso de norte a sul do Brasil, não somente na Bahia!
Venho há anos estudando megaeventos e legados. E posso afirmar não há autor de referência nessa área que diga o contrário. Ou seja, gerar legados de impacto fora do mundo do esporte é condição fundamental para que um evento seja consideração um êxito.
Ainda que polêmico, pois há muitos questionamentos sobre a capacidade de conta dos megaeventos esportivos fechar positiva, é consenso que uma Copa do Mundo ou Olimpíada para ser bem sucedida tem que deixar legado para a população local. Se o “legado” ficar somente em dívidas da festa para pagar não há como justificar o sucesso. E, muito menos, os investimentos feitos a partir de recursos públicos.
Não quero com o meu texto dizer que sou contra os megaeventos esportivos no Brasil. Ou pior: que devemos desistir do projeto agora. Neste mesmo espaço, em outros textos, já expliquei meu ponto de vista e até tentei entender os protestos recentes, principalmente durante a Copa das Confederações, contra a gestão dos recursos aplicados na organização da Copa do Mundo.
Somente acho que, ainda que tenhamos alguns frutos dessa empreitada chamada de Copa 2014, em melhoria de serviços em alguns aeroportos, transporte público nas cidades e outras vantagens, não dá para negar que esperávamos muito mais. E não dá para ignorar a frustração e a indignação do povo que já percebeu isso.
Como sabemos, o Brasil não precisou realizar Copa do Mundo para ganhar os seus cinco títulos atuais! Foram ganhos em outros países em façanhas memoráveis. Na prática, o único mundial disputado aqui tem uma história um pouco traumática, que nem vou abordar aqui...
Por isso, ainda que dinheiro não fosse o problema, precisar de vans, helicópteros, carros blindados ou outros transportes “restritos” para ir aos estádios é uma derrota que já teremos que amargar neste Mundial. Espero que seja a única.
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