Olhe quem está falando, por Silvia Bessa

Crédito:Leo Garbin Quando o conheci, Diego tinha 5. Pesava 14 quilos, o mínimo para uma criança da idade dele. Se perdesse poucas gramas, seria considerado desnutrido.

Atualizado em 03/11/2014 às 15:11, por Silvia Bessa.

Diego tinha 5. Pesava 14 quilos, o mínimo para uma criança da idade dele. Se perdesse poucas gramas, seria considerado desnutrido. Antes de vê-lo pela primeira vez, ouvi atentamente o relato de Tereza de Jesus, agente de saúde de Alto Alegre (CE). Ela me disse que ainda bebê Diego teve convulsões e problemas do coração. Achavam todos que a culpa era da má alimentação da mãe e dele. Com poucos anos, passou a só comer melancia.

Na minha cabeça, tinha a imagem de quem eu iria encontrar assim: um garoto frágil e sem força. Cheguei à casa de Diego e a mãe, Lucimar da Silva, abriu a porta. Diego, apegado à beira da saia dela, lançou um olhar firme, altivo e desafiador. Parecia reprovar a visita que a mãe estava disposta a receber.


Escrevi naquela ocasião que, se Diego vivesse em 1600, talvez estivesse nas fileiras do exército revolucionário de Zumbi dos Palmares. Trajava apenas um calção surrado. Andava descalço. Me apresentei à mãe: ela, muito gentil, contribuía com as informações. Falava sobre a vida deles, a dificuldade do sustento naquela pequena cidade cearense... Diego observava e ouvia, mas não deixava a sombra da porta da sala. Seus olhos miudinhos brilhavam no contato com a pouca luz. O meu colega Hélder Tavares fotografava de fora a casa, a família e mirava Diego vez por outra.


Nunca vou me esquecer do incômodo declarado pelas sobrancelhas franzidas e pálpebras apertadas daquele garoto de 5 anos. Farto, ele correu para vestir-se. De camiseta e chinelos, voltou ao alpendre. O olhar dele havia mudado.


Foi um dos mais prazerosos encontros que já tive na minha carreira de repórter. Deu-se porque eu e ele, assim como ele o fotógrafo da equipe, conseguimos cruzar os nossos olhares. Eu, na minha busca pela notícia; o menino, na sua peleja por reafirmar-se, se impor diante da estranha. O olhar de um entrevistado revela pautas, pensamentos, sentimentos, modo de viver, de ser. Pode parecer detalhe, mas para mim essa busca pelo olhar do entrevistado – pobre ou rico – tem sido muito interessante.


Tempos desse ouvi um valioso depoimento de um fotógrafo chamado José Varella, de Brasília, logo após ele ter feito uma série de reportagens com a jornalista Ana Beatriz Magno junto a crianças cegas. Varella me disse que a maior dificuldade de clicar essas crianças foi quando percebeu que aqueles personagens “não tinham o espelho dos olhos para a troca de informação”.


E é isso mesmo. Os olhos e o olhar servem como ponto de partida para a troca de informação entre uma fonte e um jornalista. Pense nisso da próxima vez que for para ruas e antes de abrir o bloquinho para escrever sem nem levantar a cabeça para ver, de verdade, quem está falando.