Obama: o exemplo vem do norte
Obama: o exemplo vem do norte
É incrível e emocionante ver parte dos Estados Unidos superarem tabus históricos e elegerem seu primeiro presidente negro. Mais do que a gigantesca crise financeira, a falida guerra do Iraque e a corroída relação internacional, o principal desafio de Obama vai ser equilibrar, internamente, os humores de seus não-eleitores que - não se iludam - são muito mais que os 40% que votaram em McCain. Além dos holofotes mundiais, Obama vai estar sob a mira constante de espingardas texanas à espera de seu primeiro deslize, dedos trêmulos no gatilho, enervados por um preconceito irracional e antigo.
Afinal, essa foi de fato a primeira e a maior representação de quebra de paradigma político federal dos EUA. Daí a grande coragem de seus eleitores e, conseqüentemente, de sua liderança frente à Casa Branca. O voto em Obama não manifestou somente a vontade de mudança, mas destacou também o quanto era urgente essa transição. Apesar do status quo estar na corda bamba, era preciso arriscar, e esse entendimento do eleitorado foi fenomenal.
Nosso país deu um grande exemplo ao mundo, nesse sentido, ao eleger o presidente Lula, que também estava fora - talvez de modo até mais intenso do que Obama - de todos os modelos políticos vigentes até sua eleição. Mas será que nosso presidente da República exemplifica toda a gama de diversidade da qual os brasileiros precisam se orgulhar de ter? Lula foi, com certeza, uma ponte de ligação entre essas mudanças, mas ele ainda não é seu símbolo definitivo porque, enquanto indivíduo, ele é exceção. Afinal, quantos torneiros mecânicos têm, no Brasil, a oportunidade de ascender socialmente?
Certamente, hoje, até pela postura política recente, essa chance de inclusão social é maior do que antigamente. Mas se, ainda assim, um torneiro mecânico, para continuar no mesmo exemplo, consegue se tornar gerente de departamento de uma metalúrgica, será que ele vai gozar do mesmo salário de um gerente de departamento que tenha a mesma posição hierárquica que ele, mas é formado em engenharia numa renomada instituição de ensino e tem raízes familiares e sociais diferentes do ex-operário? Ou ainda, supondo que o torneiro mecânico atinja uma improvável equiparação salarial, será que ele vai poder gozar dos mesmos direitos de defesa jurídica e apoio trabalhista para reivindicar essa equiparação? Mais longe ainda: será que ele vai gozar da amizade e do companheirismo de seus colegas gerentes? Acho que não. E é esse preconceito, o do olhar enviesado para o próximo, para a pessoa ao lado, que ainda fere nosso país nos mais diferentes níveis de relação.
Os preconceitos raciais, de gênero e religiosos podem ser, sim, mais ostensivos lá nos EUA do que aqui. Este país tropical colonizado na base da troca enganosa de favores e intensamente explorado séculos a fio criou a figura do "homem cordial", expressão cunhada por Sérgio Buarque de Holanda. Conseqüentemente, aqui as diferenças não são explícitas, afinal somos, por natureza, uma terra "miscigenada", como adoram dizer. "Tolerância" talvez seja uma palavra que se encaixe nesse contexto, mas "oportunidade" certamente não. Aí pesa a principal diferença entre nós e eles, com um profundo vale de separação agora que Obama se elegeu.
Lá, os riscos, os ataques, as paródias e as posições - contra ou a favor de qualquer coisa - são mais claros, sem nuances e diretos. Claro, talvez isso implique em mais riscos sociais, mas não tanto se você pensar que o forte sistema político estadunidense dá as mesmas condições de manifestação, ataque e defesa do outro lado, da oposição. A grosso modo, o nível médio de preconceito de um racista nos EUA talvez seja dezenas de vezes maior do que o de um racista brasileiro, mas lá a equivalência de forças vem do fato de um negro ter acesso muito mais facilitado aos sistemas políticos, privados, legislativos e jurídicos para se fazer ouvir, para se defender e até para atacar também. É um acesso democrático que acontece em todas as esferas além da racial, sendo um direito de mulheres, gays, muçulmanos, vendedores de sapatos e toda ordem de grupos sociais e "minorias" que se puder imaginar.
O Brasil se orgulha de, nas ruas, durante o Carnaval, negros e brancos brincarem e dançarem lado a lado, sem perigo, cheios de amizade e troca. Mas o mesmo não acontece - pelo menos ainda não com a expressão que merece - dentro de empresas privadas, órgãos públicos, instituições de ensino, equipamentos culturais e até de redações de jornais.
É uma pena. Ainda que existam pessoas que não concordem com ela (e têm o direito de descordarem abertamente), essa diversidade só pode ser salutar, só pode ser bem-quista. É um direito a ser conquistado por todos os brasileiros, inclusive pela malfadada "elite branca" citada por Cláudio Lembo. Ela, essa tal elite, poderia ser a mais beneficiada, mas é na verdade uma grande muralha de ignorância, pois acaba sendo a que mais sofre os desastres dessa espécie de racha implícito que perdura em nossa sociedade. Como disse Marcelo Yuka, nossa elite paga pela sua miudeza de espírito com seqüestros e assaltos, espécie de redistribuição de renda forçada de nossa sociedade.
Não sou um americanófilo e nem o contrário. E justamente por isso, não posso deixar de reconhecer que temos um grande exemplo na eleição de Barack Obama. Não só pela cor de sua pele: a manutenção do poder e do status quo não tem raça e costuma ser formada por uma teia de interesses fortemente entrelaçada, que precisa de muitas mãos para ser modificada. Mas devemos reconhecer o exemplo do norte justamente por sua realidade democrática, que mais uma vez se mostra pelo viés mais intenso e visível de quebra paradigmática: as eleições para presidente. Parabéns aos EUA.






