O verbo

O verbo

Atualizado em 14/10/2005 às 15:10, por Fernando Jorge.

Por
Manchete da primeira página, na edição de 21 de agosto de 2005 da Folha de S. Paulo:


"Planalto se arma para blindar Palocci."

Na mesma edição, em outra página, li esta manchete:

"Relator blindou PT e governo em 7 casos."

O texto é de Kennedy Alencar, da sucursal de Brasília. E mais adiante, ainda na mesma edição da Folha de S. Paulo, li na página A18 a seguinte manchete, sob uma foto de Lula e da primeira-dama Maria Letícia:

"Governo quer blindar Palocci para tranqüilizar o mercado."

Rubens Valente e Marta Salomon, ambos também da sucursal de Brasília, são os autores do texto. Portanto, numa só edição da Folha, três manchetes com que se tornou um cacoete de vários repórteres pouco inventivos. Três! Sim, reafirmo, agora blindar assumiu o aspecto, nas matérias desses jornalistas, de teimoso cacoete lingüístico. É blindar aqui e acolá, no frio ou no calor, no Norte e no Sul, em dezenas de revistas e jornais. Sempre o antipático blindar e os seus derivados blindado e blindagem. Uma coisa ridícula, cansativa, irritante. Parece inundação sem fim, que de maneira sádica afoga a nossa paciência. Quer mais provas, amigo leitor? Eu as dou. Manchete da reportagem de Ronald Freitas, na edição do dia 29 de agosto de 2005 da revista Época:

"Blindagem trincada"

Manchete na seção de economia, da edição de 20 de agosto de O Globo:

"Blindagem arranhada"

Manchete do Jornal do Brasil, no mesmo dia:

"Denúncia testa a blindagem"

Manchete da edição de 18 de agosto de 2005 de O Globo, também na seção de economia:

"Blindagem que vem de fora"

Sempre ficando neste ano de 2005, manchete da reportagem de Luiz Cláudio Lima, na edição de 17 de agosto da revista Veja:

"Lula reforça blindagem"

Trecho da reportagem "Planalto pára à espera de Dirceu", de Renata Moura e Paulo de Tarso Lyra, publicada na edição de 1º de agosto do Jornal do Brasil:

"Dirceu não teria gostado de ver, pelos jornais, que o governo estaria negociando uma lista de cassações - com sua cabeça em primeiro lugar - para blindar o gabinete presidencial".

Manchete na edição do dia 17 de julho na Folha de S. Paulo :

"A verdadeira blindagem"

Título de um artigo de Luiz Gonzaga Belluzo, na edição de 3 de julho do mesmo jornal:

"Blindagem da economia"

Manchete da edição de 15 de junho do "Caderno 2", de O Estado de S. Paulo:

"Anos blindados"

Manchete da reportagem de Carina Nucci e Chrystiane Silva, na edição do mesmo dia da revista Veja :

"Blindagem até quando?"

Manchete da reportagem de Silvana Freitas, na edição de 6 de maio da Folha de S. Paulo:

"Supremo mantém blindagem de Meirelles"

Manchete da reportagem de Milton F. da Rocha Filho, na edição de 25 de março de O Estado de S. Paulo:

"Mentor tenta blindar Marta com ameaça a prefeitos"

Segunda manchete da reportagem de Gerson Camarotti, na edição de 26 de fevereiro de O Globo:

"Planalto montou operação para tentar blindar o presidente dos ataques"

Manchete da reportagem de Roldão Arruda, na edição de 9 de janeiro de O Estado de S. Paulo:

"Projeto blinda direito à propriedade"

Mostrei apenas uma pequena parte do excesso do emprego d blindar e dos seus derivados, neste ano de 2005 em nossa grande imprensa. É uma praga como o curuquerê, a lagarta que ataca as folhas e os brotos novos do algodoeiro. blindar metamorfoseou-se no curuquerê da grande imprensa brasileira. E ninguém reage contra isso. Mas eu reajo. Aliás, um colunista de O Globo protestou contra essa mania. Refiro-me a Joaquim Ferreira dos Santos, autor do comentário "Você está blindado?", que apareceu na edição do dia 3 de janeiro do matutino carioca. Segundo Joaquim, blindar, verdadeira peste, foi extraído da "paranóia policial". Ele explica:

"A onda agora é policial. Ficar escondido também atrás da palavra. Blindar a comunicação. Blindar o salve-se quem puder. Blindar os ouvidos. Blindar Lula. Blindar as coxas de Gisele Bünchen. Blindar 2005 e torcer para que ele, além de pontual, não zoe dos nossos ridículos - e venha com o que interessa: a felicidade blindada".

Joaquim Ferreira dos Santos criticou no seu texto a mania atual de usar verbo deletar, oriundo da palavra inglesa delete, do século XVI:

"Deletar isso, deletar aquilo, incorporando a linguagem moderninha da Informática e esquecendo o trivial apagar."

Inspirado na crítica do nosso colega, eu pergunto a esses jornalistas desvairadamente apaixonados pel blindar: por que não substituir esse verbo já muito gasto, deteriorado, pelo trivial proteger? E que tal usar proteção, em vez de blindagem? Viva a simplicidade! Tinha razão o poeta e ensaísta Walter Savage Landor (1775-1864), quando escreveu esta frase na sua obra Imaginary Conversations:

"A palavra exata empregada no seu lugar exato, rara vez deixa algo a desejar em relação à harmonia." g


Concurso dos erros

O texto abaixo, com todos os erros corrigidos, refere-se à décima segunda etapa do concurso, publicado na edição 205 de IMPRENSA

"Compadre, os canos da cozinha se romperam depois da chuvarada (e não romperam, sem o se, pois aí é pronominal). Esta chuvarada muito braba estragou a plantação de milho, causando um cataclismo (não é cataclisma e sim cataclismo, substantivo masculino oriundo do grego kataklismós, que significa grande inundação. Assim sendo, é dispensável na frase do fazendeiro o adjetivo grande). Olhei pro céu e ele todo relampeou, como se fosse a morada do diabo (e não relampiou, pois é relampear). Eu assisti ao espetáculo dos relâmpagos por mais de três horas, sentado na minha rede da varanda (e não assisti o espetáculo, pois com o significado de prestar socorro, tratar, cuidar, assistir é transitivo direto: o médico assiste o enfermo. Mas com o significado de estar presente é transitivo indireto: assisti ao filme)."

Fábio Santos Marques, jornalista formado pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb), foi o vencedor da décima segunda etapa do "Concurso dos Erros".

Participe e ganhe um DICIONÁRIO DA LÍNGUA PORTUGUESA


Para participar do concurso, escreva um texto apontando corretamente os erros existentes no discurso ao lado, acompanhado de comentário. Envie, até 20 de outubro para o e-mail do colunista , que escolherá o melhor, a ser premiado com o dicionário. O texto ao lado, com vários erros, está disponível no site www.portalimprensa.com.br/linguaportuguesa.

Concurso dos erros - XIII

Carta da namorada arrependida

"Meu amor, estou arrependida com o que fiz. Acredite na minha sinceridade, não sou falsa, mentirosa, e eu lhe compreendo. Já chorei muito, os meus olhos ficaram enchados. Ontem, de madrugada, caiu geada aqui na Fazenda do Boi Preto, e eu quase morri de frio. Gosto de dormir de bruço."