O último dia do "Última Hora"

O último dia do "Última Hora"

Atualizado em 10/11/2010 às 18:11, por Nelson Varón Cadena.

É sábado, 18 de abril de 1964. Os pernambucanos são informados pelo "Repórter Esso" que o jornal "Última Hora", edição do Nordeste, que desde o golpe de 31 de março, já tinha sumido praticamente das bancas, circularia no dia seguinte pela última vez. Esse gostinho da despedida os militares não permitiram. À meia noite, o jornal ainda sendo produzido, o prédio foi rapidamente evacuado pelos diretores, jornalistas e funcionários da oficina, após a informação de um proposto da Secretaria de Segurança Pública de que naquele momento dois caminhões transportando policiais com ordens de prender e bater estavam à caminho. O recado tinha procedência. Às zero horas e cinco minutos policiais adentraram no edifício atirando ao esmo; um segundo pelotão derrubou as mesas de paginação espalhando pelo chão linhas de chumbo das páginas já compostas. Não satisfeitos atiraram no relógio de parede, garrafas de leite e de refrigerante; quebraram tudo com exceção da rotativa preservada por descaso, ou por ignorância quanto a sua utilidade.
Morria assim, embaixo das baionetas o jornal criado às pressas por Samuel Wainer, montado em apenas quinze dias, com o apoio financeiro do industrial José Ermírio de Morais, para eleger Miguel Arraes Governador de Pernambuco nas eleições de 1962. Uma "operação de guerra", assim mesmo assumida pelos editorialistas, com o objetivo de derrotar nas urnas as forças conservadoras contrarias ao Governo de João Goulart, no Recife representadas pelo candidato derrotado João Cleofas. Naquele tempo os jornais tinham grande influência no processo eleitoral, atingiam diretamente o público eleitor e multiplicador. O "Última Hora" Nordeste cumpriu a missão de eleger Arraes, a pesar das previsões em contrário dos analistas políticos, uma operação comandada por Humberto Alencar e Milton Coelho da Graça.
Manchetes provocadoras
Nunca antes, para abusar de uma expressão em voga. um veículo de comunicação foi montado em tão pouco tempo. O dinheiro de José Ermírio comprou a velha rotativa do "Correio do Povo", seis linotipos e uma caldeira movida à lenha para derreter o chumbo. Faltavam recursos para contratar profissionais; então recorreram a estagiários: estudantes da primeira turma de comunicação da Universidade Católica de Pernambuco. Sem nenhuma estrutura organizada de distribuição, os próprios jornaleiros encarregaram-se de popularizar o jornal com a leitura em voz altas das manchetes-denuncia provocadoras. Dois meses depois da operação de guerra, (uma operação de improviso), às vésperas das eleições, o "Ultima Hora" já contava com experientes profissionais que pediram demissão do Jornal do Commercio e Diário de Pernambuco e a expedição era comandada pelo filho de Graciliano Ramos. Cinco mil exemplares eram colocados todo dia na rua.
A eleição de Arraes fortaleceu o novo jornal em várias frentes, uma delas a publicidade. As agências de propaganda passaram a programar o veículo e os grandes anunciantes a ignorar o boicote proposto pela Associação dos Lojistas e outras entidades empresariais antes das eleições. Até os usineiros restabeleceram relações. Mais uma vez confirmava-se a opção política do empresariado pelo PV, o Partido dos Vencedores. Durante dois anos o "Última Hora" Nordeste viveria dias de glória. Cria suplementos, lança a sua edição dominical e apresenta como colaboradores Paulo Francis, Otávio Malta, Egídio Squeff e Adalgisa Nery. E no encalço das reformas passa a publicar a coluna social de Jacinto de Thormes.
O golpe de 31 de março de 1964 surpreendeu muita gente, mas não Samuel Wainer que bem informado providenciara um visto da Embaixada do Chile para deixar o país, No dia seguinte, com o barco sem comandante, a "Ùltima Hora" era depredada e incendiada pelos militares no Rio de Janeiro. O efeito da tropa invadindo o jornal carioca e do presidente da empresa abandonando o país deixou de sobreaviso os diretores das demais edições do jornal que usavam a marca. Inclusive a edição do Nordeste que viu reduzida a sua tiragem de dez mil exemplares estimados, antes do golpe, para quinhentos.
Censores passaram a freqüentar a redação e a solicitar os editoriais para análise das forças de segurança. Até a invasão definitiva na madrugada de 19/04/1964, quando o editorial de despedida não chegou a ser fundido em chumbo. Policiais adentraram espalhando no prédio evacuado às presas, outro tipo de chumbo com a marca da ditadura.