O termômetro da verdade na cobertura política dos EUA
O termômetro da verdade na cobertura política dos EUA
Em abril deste ano um jornal daqui da Florida, o St Petersburg Times , recebeu o prêmio Pulitzer pela melhor cobertura nacional das eleições de 2008, graças a um projeto editorial chamado PolitiFact, criado pelo jornalista Bill Adair. Numa tradução bem livre, seria algo como "Os fatos da Política".
PolitiFact é uma editoria da versão online do jornal que se dedica exclusivamente a acompanhar e checar a veracidade das declarações dos políticos americanos. Lançado em agosto de 2007, durante a campanha presidencial entre Obama e McCain, foi posteriormente ampliado para também checar as declarações de membros do Congresso e da Casa Branca. E, mais recentemente, também de membros da Imprensa, comentadores políticos, lobistas, radialistas, editorialistas, artistas, cineastas e qualquer indivíduo que tenha alguma relevância como formador de opinião pública.
É como se fosse um termômetro da verdade. As declarações dessas pessoas são checadas por repórteres e editores do SPT e o resultado dessas verificações é postado no site sob uma das seguintes cinco categorias: Verdade; Quase Inteiramente Verdade; Meia Verdade; Quase Verdade, Falsidade e Mentira Total. Os textos são curtos com links para explicações mais complexas, o site é sério, embora o design permita um certo humor.
As declarações totalmente verídicas recebem uma luz verde brilhante no medidor da verdade. As que são quase totalmente verdadeiras merecem um verde um pouco mais opaco. Amarelo e laranja são para as meias e quase verdades, enquanto as declarações falsas recebem uma luz vermelha. E as mentiras que os políticos e seus aliados, defensores ou oponentes falam aparecem com o medidor da verdade em chamas. E embaixo a seguinte frase " Você não pode reescrever a história".
Os membros do Conselho do Pulitzer destacaram que esse projeto do St Petersburg Times mereceu o prêmio por ter combinado o poder da Internet com o bom trabalho de repórteres e editores que durante a campanha presidencial examinaram e checaram mais de 750 declarações dos candidatos, seus vices e aliados políticos. E separaram dessa maneira o joio do trigo, a retórica da verdade, para educar e proporcionar aos eleitores mais um meio de fazer uma escolha consciente e bem informada.
Além do prestigioso Pulitzer, o PolitiFact recebeu, entre outros, prêmios da Fundação da Imprensa Nacional e da Associação Americana de Jornais pela inovação no jornalismo. Neil Brown, editor executivo do St Petersburg Times, declarou que a concessão do Pulitzer é a prova de que a Internet não representa uma sentença de morte para o jornalismo. "Na verdade, PolitiFact une o poder do velho e bom jornalismo investigativo com um extraordinário e poderoso meio de divulgá-lo".
Além do medidor da verdade o site também tem outras atrações, como o Flip-O-Meter e o Obameter. O primeiro divulga quais políticos mudaram de opinião ou posição sobre um determinado assunto. E quando fizeram isso, com qual frequência e quantas vezes. É bastante informativo e dá uma rápida visão panorâmica da carreira e do caráter dos analisados.
No Brasil, se algo semelhante fosse implantado, poderia se chamar "Murometro". Mostraria quais políticos ficaram em cima do muro sobre um determinado assunto. Quantos pularam de um lado, mudaram de idéia, subiram novamente no muro, depois pularam novamente pro outro lado e assim sucessivamente.
Até aí nenhuma novidade, dirão alguns. Concordo, mas vejo que isso traria logo de cara um grande benefício para os colegas: acabaria o desemprego entre jornalistas. Pensem bem: seria preciso contratar muita gente, talvez trabalhando em turnos, ininterruptamente, 24 horas, 365 dias por ano, para manter atualizado só essa parte do site.
Se incluíssem também um medidor específico para checar os atos e palavras do Lula ou qualquer presidente, outro para os senadores, deputados, vereadores, assessores, as amantes que de repente se tornam decentes e denunciam alguma falcatrua, etc etc etc ... o Brasil provavelmente teria que importar jornalistas e profissionais da Imprensa. As possibilidades são imensas para a ampliação dessa idéia. Até sinto minha fértil imaginação borbulhando só de pensar no assunto.
Já o Obameter se dedica a acompanhar 513 promessas feitas por Barack Obama durante sua campanha e divulgadas através de panfletos, websites, debates, discursos e entrevistas.O rosto do presidente e uma frase dita por ele durante a campanha ilustra essa parte do site: "Eu quero que vocês responsabilizem nosso governo. Eu quero que vocês me responsabilizem". E logo abaixo a resposta do PolitiFact: "Ok, nós iremos".
As promessas também são divididas em categorias: promessas honradas, promessas quebradas, promessas que estão sendo cumpridas, aquelas que não receberam ainda nenhuma ação concreta para se tornarem reais, aquelas que se mostraram não factíveis e, finalmente, as que tiveram que ser adaptadas em algum tipo de acordo com a oposição.
A cada vez que um novo fato muda o status de alguma promessa de campanha de Obama o PolitiFact publica um artigo explicando o mais recente desenvolvimento e atualizando a classificação da mesma no Obameter. Enquanto escrevo essa coluna Obama quebrou 7 promessas, cumpriu 53, fez acordos com a oposição em outras 14, está trabalhando com seus aliados em outras 145 e tem 279 que ainda não foram classificadas pelo site, além de 15 que já se mostraram não realizáveis, ou seja, eram puro bla bla bla de campanha.
Os interessados em saber mais sobre essa fascinante e espero, inspiradora, experiência da Imprensa americana podem clicar .






