O suplemento literário de "A Manhã".
O suplemento literário de "A Manhã".
No ano aqui referido Mucio Leão e Casiano Ricardo, dentre outros intelectuais, fundou o matutino "A Manhã" que publicava semanalmente fascículos de 16 e 24 páginas, excepcionalmente 32, com o título "Autores & Livros", suplemento literário em parte semelhante a dos demais jornais que então circulavam no país, porém com o objetivo específico e foco na reconstituição da história da literária brasileira, antiga e contemporânea. Caderno muito bem ilustrado com bicos de pena de Armando Pacheco, Jerônimo Ribeiro, Oswaldo Goeldi, dentre outros, publicado até meados de 1950. Quase uma década de boa matéria cultural.
Como Documento
"Autores & Livros" tornou-se um dos melhores documentos para os pesquisadores da literatura brasileira, assim como da imprensa especializada afim, pelo capricho de Leão na abordagem das matérias de capa. O suplemento escolhia um personagem e a ele dedicava quatro, seis, oito páginas do caderno, detalhando a sua biografia, artigos de críticos da melhor qualificação, (Silvio Romero, por exemplo), escritos do homenageado, cartas de seu próprio punho, documentos, discursos e referências sobre sua atuação na imprensa. Um perfil completo, rico também na iconografia adicional que incluía desenhos, fotografias, capas de livros, revistas e jornais.
O caderno literário da manhã traçou perfis memoráveis de Machado de Assis, Casimiro de Abreu, Joaquim Nabuco, Gonçalves Dias, Olavo Bilac, José de Alencar, Ruy Barbosa, Euclides da Cunha, Castro Alves, Carlos de Laet, José de Patrocínio, Medeiros e Albuquerque, Coelho Neto, Lima Barreto, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Quintino Bocayuva, Humberto de Campos, Monteiro Lobato, Olegario Mariano e até de Stefan Zweig o famoso escritor-biógrafo austríaco que morou entre nós e se suicidou (1942) em Petropolis junto com a sua esposa, ingerindo uma superdose de barbitúricos.
Agostini e Laet
Como contribuição à história da imprensa brasileira "Autores & Livros" traçou um magnífico perfil de Angelo Agostini em 10 páginas (13/06/43), com artigos de Bricio Filho, reprodução de algumas de suas melhores charges na "Revista Ilustrada"; no contexto uma carta de Agostini a Luiz de Andrade, diretor interino da Gazeta da Tarde . O grande ilustrador lamentava não ter estado no Brasil no dia da proclamação da república, ele que tanto contribuíra para o desgaste da monarquia com o seu traço destemido e ainda explicava a Andrade que não achava prudente seu conselho de desenhar duas pedras por semana. Referia-se à pedra litográfica, que, no seu argumento, comportaria contratar mais desenhistas para a Revista Ilustrada, com maior despesa, sem a certeza de receita adicional.
Ainda sobre a imprensa o suplemento de "A Manhã" reproduziu no perfil do poeta, professor e jornalista Carlos de Laet, autor da coluna "microcosmo" no Jornal do Comercio, durante mais de uma década, uma brilhante conferência pronunciada em 1902 no Circulo Católico da Mocidade. No seu discurso Laet traça um panorama da imprensa de seu tempo detalhando abusos dos jornais e também da justiça com suas interpretações distorcidas, ou convenientes da Lei de Imprensa, para favorecer esta, ou aquela instituição.
Cito aqui um trecho sobre os abusos da própria imprensa, não sei se superado hoje, mais de 70 anos transcorridos dessa ponderação: "Nos teatros a imprensa exerce uma tirania que chega às raias da crueldade. Triste do promotor que não envia cortesias de camarotes e cadeiras aos jornalistas; desgraçado o ator que não dobra a cerviz aos meninotes encarregados da cobertura dos espetáculos! ".
Laet conclui o seu longo discurso, dez a quinze laudas, com uma narrativa antológica onde dá a sua versão sobre os dois duelos a bala a que foi desafiado. O primeiro com o escritor Valentim Magalhães que, segundo ele, atirava muito mal e acabou em desculpas de parte a parte. O segundo com um major do exercito, que não cita o nome. Também não acontecido depois que Laet argumentara para o emissário da Guarda Nacional que era míope e " expor-me-ia a matar algumas das testemunhas".






