O senhor do destino
O senhor do destino
Entrevistar Oscar Quiroga é falar, de certa maneira, com um nome um tanto etéreo. Para quem não lê as colunas de astrologia, Oscar Quiroga é o mais ilustre dos representantes dos astros no Brasil. Seu nome é quase uma metonímia. Quando afirmamos "li, hoje, no Quiroga" substituímos o todo pela parte. Astrólogo do "Caderno 2" do jornal O Estado de S.Paulo , o argentino contou à revista IMPRENSA de setembro qual sua relação com a mídia, com os jornais, com os astros e o que pensa do mundo real, esse mesmo, debaixo do céu e supostamente sob a influência dele. Abaixo você confere a íntegra da entrevista com o astrólogo e na revista IMPRENSA que está nas bancas, é possível ler um perfil de Oscar Quiroga.
Quais caminhos te levaram à astrologia e quais te trouxeram para o Brasil, ou seja, em que circunstâncias você chega aqui?
Se fui trazido para o Brasil, foi por uma força invisível. Nada me trouxe, eu fui saído da Argentina. Era 1978, uma época muito dura, eu era estudante de medicina, cabeludo, visitava as delegacias semanalmente, ainda que eu não tivesse nenhum engajamento político. Meu pai já era muito politizado, fui gerado enquanto estava ele estava preso e quando nasci, ele também estava preso. Sabe como são os filhos: eles fazem diferente dos pais. A faculdade de Medicina da Universidade de Buenos Aires era trotskista e maoísta. Toda semana tinha um camburão do exército que nos levava à delegacia. Em 1977 e 1978, começou a ficar pesado. Começou a desaparecer gente, periodicamente, e gente que eu gostava, com quem eu me dava bem. Eu iria continuar medicina na Alemanha, que era um ótimo lugar, e eu já tinha uma bolsa meio engatada. Antes disse passei pelo Brasil para visitar uns amigos que tinha, em Arraial do Cabo. Esses amigos estavam engajados em busca de extra-terrestres, de disco voadores. Eu nunca vi nenhum disco voador, mas as noites eram lindas e as conversas, fantásticas. Se conversava sobre o mundo invisível, sobre o planeta Terra, sobre a espécie humana. Hoje falamos da espécie humana, isso é dado por sabido, mas em 1978 isso era muito avançado. Era muito especial. Para mim, calou muito fundo. E o que mais calou fundo foi uma imagem que um dia me passaram: que o sistema solar seria uma espécie de um átomo integrante de um corpo colossal que é o que se chama de humano cósmico. Isso marcou a minha entrada nesse estudo do mundo subjetivo. Eu era médico. Para mim, o ser humano era um corpo, uma máquina fisiológica e tudo o que acontecesse emocionalmente, subjetivamente, era provocado pelo seu corpo físico. Aí entrou a astrologia, a yoga, todas as pseudo-ciências esotéricas. E a estada aqui no Brasil que era programada para ser de uns quatro ou cinco meses, virou quase trinta anos. Nunca fui para a Alemanha. Essa que é a verdade (risos).
Sua bolsa foi dada, possivelmente, para um outro aluno.
Virou outro assunto, completamente diferente. Comecei a estudar, a me interessar por isso. Entre 1978 a 1988, fiquei simplesmente a perambular por aí, entrando em contato com vários grupos. E continuei não vendo nenhum disco voador ou extra-terrestre.
Ainda espera ver?
Não é necessário ver, assim. Faz sentido que haja outras civilizações, evidentemente. No dia em que tiver que acontecer, vai acontecer. Vamos entender o que somos nós, humanos, antes.
Já é uma tarefa bastante difícil.
Até hoje a gente não sabe o que é ser humano. Qual a diferença do ser humano? Há muitas teorias e não há uma diferenciação clara e na psicologia entra muito isso. Antes de fazer psicologia, quis continuar medicina e não teve jeito. Tinha que trazer um monte de papeis que já tinham desaparecido. Eu não desapareci, mas os meus papéis desapareçam todos. Me desapareceram burocraticamente, não fisicamente. Aqui foi muito difícil via vestibular, eu não tinha esse conhecimento suficiente. Entrei em psicologia e fui fazer psicologia. E, de fato, o curso fez muito sentido para mim. Agora, ainda, faz muito mais sentido. A gente não sabe o que é humano, nem a psicologia, até hoje, deu conta de definir o que é um ser humano normal, um ser humano saudável, do ponto de vista psíquico. A psicologia é construída em torno de patologias e não em torno do que é bom. O campo de conhecimento muito importante e os dois conhecimentos, durante muito tempo, se aliaram positivamente, a psicologia e a astrologia. Mas durante um tempo. Hoje em dia eles não têm como casar. Quando você tenta fazer uma leitura psicológica de um mapa astrológico, você comete um pecado de encontrar problemas. Porque a psicologia só encontra problemas no ser humano. O que é astrológico não é um problema, é uma condição que faz parte do sistema solar do qual a gente é parte integrante. A leitura de um mapa numa pode ser a leitura de um problema teu. A leitura de um mapa de como é que você faz parte desse sistema solar. Qual é tua função.
A astrologia não faz juízo de valor?
De jeito nenhum. A grande diferença...
Nessa incompatibilidade entre psicologia e astrologia, onde guardaram a herança deixada por Jung, por exemplo?
O Jung deu uma contribuição muito importante, porque se interessou muito em termos amplos pelo ser humano. Enquanto Freud se interessava em termos familiares, como bom judeu, das dinâmicas psico-sociais. O que acontece dentro do núcleo familiar e dentro da linha da hereditariedade. O Jung foi além das limitações familiares e começou a colocar as coisas em termos planetários. Ele só deu o start nisso aí. Fez umas contribuições dando nomes às coisas, como sincronicidade. Esse nome é muito importante, porque mesmo que a gente chamasse antes de coincidência, mas o fato de ter mudado o nome altera. A gente acha que coincidência é casualidade. Já sincronicidade guarda do conceito de coincidência aquilo que é mais puro, ou seja, eventos que coincidem, em tempo e espaço e que, por coincidir, têm significado. E a astrologia é assim. O universo se manifesta através da gente pelas coincidências. A linguagem com que o universo fala com a gente são as coincidências.
Pessoalmente, você percebeu essa incompatibilidade quando estudava psicologia?
Sim, sim. Eu nunca cheguei a clinicar. Comecei a clinicar e tentei juntar as duas coisas e houve muita resistência do Conselho Federal de Psicologia. Acho que conceitualmente não dá. O psíquico é menos abrangente que o cósmico. O cósmico abrange o que te acontece psiquicamente mas vai muito além. Coloca tua presença em contato com um conjunto muito mais sofisticado de acontecimentos e de relacionamentos do que o que é psíquico. O que é psíquico é bastante regional, é limitado pela cultura, pelo ambiente, pela tua religião, pela tua hereditariedade, pela educação. É um elemento bastante complexo de acontecimento, mas a astrologia é muito mais abrangente.
Como você chega aos jornais?
Cheguei aos jornais por coincidência. Eu estava fazendo a faculdade, estava na PUC, estava muito mal de grana, tinha que encontrar um jeito de pagar a PUC que era cara, mesmo com bolsa. Então, eu que nunca tinha usado a astrologia para ganhar dinheiro, comecei a ler alguns mapas e principalmente me chamaram para dar aulas de astrologia num instituto esotérico que na época tinha na rua da PUC, a Ministro Godoy. Comecei a dar aulas lá. Era abril de 1986. O Estadão tava reformulado e ia abrir o Caderno 2. E, junto com o Caderno 2, integrar a coluna de horóscopo. Eles tinham tido horóscopo até a década de 1940, o Dia Astral, que ficava junto da previsão metereológica. E deram para a dona desse instituto escrever, onde eu dava aulas. Ela começou a escrever e acharam muito complicado o que ela escrevia e ela deu para mim para eu escrever para ela como gosth writer . Deu certo. Aceitaram a coluna como ela era e eu fui fazendo. Em 1987 essa pessoa decidiu fechar o instituto e o assunto ficou em crise. Numa reunião, ficou decidido que eu continuaria escrevendo. O interessante é o seguinte: ninguém nasce sabendo como se escreve uma coluna de horóscopo. Não tem curso de como se faz uma coluna de horóscopo. Você vê nos outros jornais e mais ou menos desenvolve. Então hoje, Saturno está em quadratura com Marte e você vai quebrar a perna... Aquela linguagem antiga mesmo, de traduzir para um fato muito concreto a linguagem de astrólogos, que até hoje persiste. E eu fui fazendo desse jeito. Mas depois de um ano e meio fazendo assim, eu literalmente enchi o saco. Desse ponto em diante eu decidi: ou eu devolvo essa coluna, não faço mais, ou eu escrevo do jeito que eu quiser.
Mas isso era também motivado por uma questão ética ou você só não estava satisfeito?
Você tocou numa coisa muito importante que é a Ética. O dilema ético vem de todos os lados: do lado dos astrólogos, que nunca viram com bons olhos escrever horóscopos, ainda é uma coisa muito desprezada - eu passava a ser mal visto porque era autodidata e porque publicava horóscopos -; pelo lado da psicologia, porque sendo psicólogo não poderia sair dando conselhos desse tipo para as pessoas num veículo de massa. Do meu lado não tinha dilema ético. Tinha uma questão ligada à qualidade do que eu estava fazendo. O que eu estava fazendo, até meados de 1987, era uma reprodução. Eu não estava criando nada. Por isso estava de saco cheio. Me dava trabalho e não estava transmitindo nada. Intimamente, sabia que eu podia devolver eu mudar, até quando me tolerassem. Mudei e pegou fogo, a coluna.
No sentido positivo?
No sentido positivo. Passou a se tornar uma leitura cativa para as pessoas. Em vez de traduzir o acontecimento cósmico num acontecimento concreto - na verdade a astrologia faz isso, mas a quantas pessoas eu atingiria? - comecei a usar deliberadamente uma linguagem subjetiva. As pessoas acham que a linguagem subjetiva é uma linguagem vaga. Ela não é vaga. Ela é abrangente. Ela permite que mais pessoas enxerguem o que elas precisam enxergar. Posso te dar um exemplo: concretamente posso dizer "o sol raia"; subjetivamente posso dizer "o herói mata o monstro". Isso pode significar: você esta vencendo a tua ignorância, você esta solucionando um problema, essa é a virtude de literatura subjetiva. Você está dizendo um fato, mas ao mesmo tempo permite ao maior número de pessoas com situações diferentes na sua forma consigam absorver nessa mensagem aquilo que está acontecendo. Não posso dizer "marte em quadratura com saturno: você vai quebrar uma perna". Três pessoas vão quebrar uma perna. A grande maioria vai quebrar o pau com o chefe. Nesse sentido, deliberadamente, comecei a usar uma literatura subjetiva. Coincidentemente estava lendo Fernando Pessoa, um marco da literatura em português, isso me ajudou muito a aprender a língua portuguesa. Foi uma convergência enorme.
Tenho uma memória muito vaga a respeito de uma discussão sobre o lugar em que o horóscopo deveria estar no jornal. Se não me falha a memória, o horóscopo aos domingos era publicado no caderno Mais!, da Folha de S.Paulo, e depois teria sido expulso daquele caderno pelos intelectuais. Os intelectuais diziam que o horóscopo não poderia estar ali, convivendo com o pensamento supostamente iluminista, já que a astrologia era algo obscuro. Então ele foi para o caderno de televisão. Isso tudo para lhe fazer uma pergunta que é a seguinte: em algum momento você foi confrontado pelos jornais, ou pelos leitores, ou por amigos, sobre a vocação iluminista do jornal, que se fundamenta em dados supostamente objetivos, concretos, numa leitura da realidade e a disfunção da astrologia no jornal?
Não diretamente. Indiretamente, sim. De tempos em tempos vêm os céticos, os pseudo-céticos a criticar a astrologia e sempre passam isso aí. Eu pessoalmente acho a objetividade uma ilusão, em todos os níveis. Eu que me dedico há décadas a descobrir o que é o humano, posso te afirmar que uma coisa descobri: nós somos humanos porque não somos objetivos. É isso que nos torna humanos, somos seres subjetivos, abstratos. Tudo o que é humano não nasce na terra, não dá em árvore e não cresce espontaneamente no universo. Arrancamos do mundo abstrato e transformamos em obras concretas. Essa é nossa quantificação entre o abstrato e o concreto. Quando vêm com essa história do privilégio do mundo concreto e do mundo objetivo, isso é uma grande ilusão. É cultural, é um fato muito moderno essa objetividade. Vem da revolução industrial e do Positivismo. E nem sequer o Positivismo tinha essa intenção de banir a subjetividade. Não era essa a intenção. Ele queria colocar ordem e banir o excesso de misticismo e o excesso de superstição e não banir ou desprezar o abstrato e o subjetivo. Astrologia nunca foi uma coisa desprezada nos meios acadêmicos. É uma teoria muito moderna que é muito chulé. Não se entende que toda vez que tentamos entender o que é humano, temos que situar o que é humano em conjuntos de experiências. Tudo bem que a gente não conheça o conjunto de experiências que é cósmico. Mas nós fazemos parte de um conjunto de experiências cósmicas acontece no sistema solar; e tudo que acontece no sistema solar acontece dentro de uma galáxia que está dentro de uma ordem. Primeiro aceite, depois que vamos navegando. A gente não entende nem o que é vida, o que é consciência, o que é o espírito. Mas isso não significa que a gente não possa usar. As críticas feitas à astrologia são muito chulé. Desde a crítica evangélica, que é a crítica mais xiita de todas, até a dos acadêmicos, que não deixa de ser xiita, que é tão ilusória quanto a crítica dos evangélicos, que não se pára para pensar que conhecer o que é humano se trata de vincular o que é humano a conjuntos de experiências e relacionamentos. Assim como a gente tenta entender vinculado à natureza, à família, ao país, agora estamos nos entendendo como uma espécie, com muito esforço, agora temos que nos entender como um ponto de luz no sistema solar, com uma função específica. A astrologia vem estudando isso desde seu primórdio, com todas as suas aberrações, com todas as suas decadências, com seus maus representantes.
A gente conhece bem os argumentos dos céticos sobre porque não se deve acreditar em astrologia. Em poucos momentos se é dito porque os céticos devessem acreditar. Como você tentaria convencer um cético a acreditar, sucintamente?
Eu não tentaria, primeiro. Ser cético é uma decisão e eu respeito muito a decisão das pessoas. Mas aprecio muito quando pessoas que juram que nunca acreditaram em horóscopo afirmam que lêem minha coluna porque ela realmente faz sentido. Essa é a prova. Não é que faz sentido por mera coincidência. Faz sentido porque há uma ligação do que acontece cosmicamente e a vida de cada um de nós. Não há como empurrar esse fato de que minha vida é minha vida e o universo é outra coisa diferente de minha vida. Enfim, é um campo unificado. O grande problema é a precisão que o astrólogo tenha para traduzir esse acontecimento. Não é o estudo em si.
A que você atribui o fato de que a astrologia - em especial, essa astrologia que se manifesta no horóscopo - interesse a tantas pessoas e tão diferentes. Ela pode interessar tanto a executivos antes de tomar decisões quanto às empregadas domésticas que a ouve no rádio?
Muitos dos horóscopos alimentam a superstição e eu me alio aos céticos para criticá-la, mas também me aliaria para criticar a medicina como produtora de drogas inúteis.
Mas o que leva pessoas tão diferentes a encontrar respostas na astrologia?
Isso é cósmico. Existimos num planeta onde parece que vale tudo. Significa que há uma heterogeneidade de entendimento infinita, aqui. Isso é mais uma prova que nós somos seres subjetivos. No mesmo local uma pessoa pode encontrar o alimento para sua superstição e outra o alimento para sua libertação. E as palavras são exatamente as mesmas. Essa é uma prova de que somos seres subjetivos e que nossa subjetividade está na mesma condição que o infinito. Para nós não importa a coisa em si. Para nós importa o significado que conseguimos arrancar da coisa.
Isso é um exercício...
É um exercício, mas tem o produtor da coisa. É diferente você tentar arrancar um significado de uma pedra bruta e um significado do "Moisés" de Michelangelo. Tem a obra do artista que permite que uma maior quantidade de pessoas se alie a esse mesmo objeto para arrancar esse significado.
Que avaliação você faz da publicação de horóscopo no Brasil? Como avalia o trabalho de seus colegas?
Eu acredito que a melhor parte de meu trabalho tenha sido dar um empurrão para cima. Melhoraram muito, muito mesmo, nos últimos 20 anos. Hoje se dedicam a escrever subjetivamente, a não fazer coisas que sejam meros alimentos de superstição. Tem um conceito de lua vazia, lua fora de curso, que eu pressionei para ser aceito.
Essa subjetividade que vai marcar a sua escrita é, por outro lado, acusada de produzir um texto "cifrado" ou "vago" ou "hermético". Como você lida com isso? Em algum momento pensou em nivelar um pouco mais a produção de seus textos? Ou o texto cumpre a função até mesmo diante daqueles que não o entendem?
É impossível agradar a todo mundo. Realmente, impossível. Inúmeras vezes acontece o seguinte: sobre um mesmo texto, tem dias que chegam e-mails que me insultam, acusando de pessimista, baixo-astral, e outras que escrevem afirmando que eu abri a cabeça delas. A literatura subjetiva vai ser exatamente isso. Vai ser cifrada para quem quiser que a receita esteja pronta. Vai ser uma leitura hermética para quem procura no texto o que fazer ou o que vai acontecer. Agora, para quem está em busca de uma reflexão, para quem já está em processo de reflexão, só vai confirmar o que está sendo refletido. A primeira confirmação é um impulso positivo. Respondendo: não tento massificar a linguagem.
Por quê? Isso diminuiria a potência do texto?
Com certeza, com certeza, com certeza. Ainda continuo pensando que estou escrevendo a coluna de horóscopo enquanto me toleraram. Aquilo que pensei em 1987, quando decidi mudar o estilo de escrita, continuo pensando. Sempre acho que estou por um fio nos meios de comunicação. Qualquer dia vão me ligar e dizer: não queremos mais você aqui, você é muito chato, vai embora.
Quanto de hora-trabalho você dedica a preparar as colunas que você publica?
Diretamente, depois de todo esse tempo é pouco. Um dia inteiro, quarta-feira. Todas de uma vez. Digo diretamente pelo seguinte: indiretamente, o que acontece nas quartas e quintas-feiras vai acontecendo todos os dias, ou seja, a observação, o que eu vou colhendo nas conversas, o que eu leio, uma idéia que pode surgir, o que acompanho full time . O trabalho de astrólogo é full time .
Metodologicamente, como isso funciona?
Faço o mapa do meio-dia de todos os dias da semana seguinte.
Quantas mídias publicam sua coluna?
Já foi muito mais, hoje está estabilizado. Depende de como anda o mercado editorial. Na década de 90, já foram mais 150 jornais e revistas, a mesma coluna, uma semanal e uma diária. Hoje em dia são 25. Escrevo em algumas revistas, como a Uma e Raça.
Não seria necessário fazer uma adaptação, tendo em vista os públicos distintos, com repertórios diferentes, experiências culturais muito distintas e, sobretudo, com expectativas diferentes diante das mídias que lê. O texto não sofre alteração?
Essa questão da subjetividade, da qual eu faço ênfase, é a representação de algo que está em comunhão, em reflexão, não importa quem lê. Reflexão há 20 anos era muito mais difícil. Hoje em dia é uma obrigação. Se você não faz uma reflexão diária a respeito da sua vida, está muito mal. Não segura a peteca. Não tem etnia, não tem orientação religiosa. Hoje em dias as pessoas são obrigadas a refletir. Não tem categoria social. Às vezes recebo cartas ou e-mails, por exemplo, de faxineiras do interior de Minas Gerais que acompanham e se sentem muito bem, acompanhadas e compreendidas. Não é uma questão de cultura ou de estudo. É uma questão de vontade de refletir.
Pensando no jornal como um objeto inteiro, que vai da capa aos classificados, percebemos que ele é portador de um pessimismo muito latente. Teria alguma função equilibradora a presença do horóscopo nesse contexto ou funciona apenas como escape dessa realidade?
Talvez seja esperado que isso seja feito. Por isso que, muitas vezes, o horóscopo esteja junto das tiras cômicas, com as Palavras Cruzadas. O horóscopo pode funcionar como um relaxamento. Eu subverti essa história.
Seu texto é tenso.
Não escrevo para aliviar. No entanto, se a reflexão é bem feita, ela até alivia. Não tem nada mais aliviador que você aceitar a realidade. É o primeiro passo para solucionar o problema. Aceita o problema e aí vamos ver o que dá para fazer. Talvez daqui a algumas décadas, a gente veja essa coluna fora da página de variedades e ela seja colocada em outro lugar...
Perto da ciência?
Não, não. Mas a ciência vai mudar muito também. Já começou a mudar. Essa história da Quântica acabou com os parâmetros da ciência. Não tem mais ciência que afirme que a "realidade é" e nos adaptamos a ela. Agora vamos ter que lidar com um universo que não está pronto, que está em construção, e, com isso, teremos que rever tudo. Está tudo a repensar. E a astrologia vai junto, e está em revisão faz tempo.
A sua presença gera algum tipo de assédio? Sua fama é tanta que seu nome parece uma metonímia de astrologia. Há quem tenha acreditado, inclusive, que é um pseudônimo sonoro, um nome "de astrólogo" inventado...
Quiroga é meu sobrenome mesmo. O assédio do público é muito respeitoso. O pior assédio é dos marqueteiros, que fazem cálculos. "Ah, você está exposto e isso significa dinheiro". Elas acham que é só colocar o nome que já vai dar dinheiro. Ficam inventando negócios que nunca vão dar certo, porque...
Você já fez isso?
Entrei na conversa, infelizmente. Não é automático. Se em vez de astrologia eu mostrasse a bunda, talvez, porque o apelo já estaria feito. O apelo da astrologia é muito tortuoso. As pessoas estão em busca mas não sabem o que vão encontrar em astrologia. Não dá para fazer uma coisa tão automática. A cabeça do marketing é essa...
Qual foi o produto licenciado com seu nome?
Na década de 90, o 0900. Para mim pagou umas contas, mas em termos de marketing foi um fracasso de vendas. Só publicidade pode dar isso.
A publicidade consegue dois milhões de qualquer coisa.
Claro, mas tem que pagar 4 milhões.
A foto da coluna permite que você seja reconhecido na rua?
Muito vagamente. As pessoas sempre me olharam e me acharam parecido com alguém. Sempre fui meio acostumado a ser olhado. Isso não mudou nada. Eu perdi o anonimato que eu apreciava muito. Eu gostava muito de quando eu falava meu nome e as pessoas diziam "ah, então é você". Com a foto não dá para esconder.
E tem uma "síndrome de médico" nesses encontros?
Tem, tem. Mas as pessoas são muito respeitosas. Isso é o tipo de comunicado que eu emito na coluna. As pessoas podem até ter vontade, mas não chegam muito. Só quando aparece em televisão, por exemplo. Ai chegam e-mails como "eu preciso me dar bem com meu marido" ou "fala de mim"...
Você é amigo da Barbara Abramo [astróloga do jornal concorrente, a Folha de S.Paulo ]?
Nunca me encontrei com ela.
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Leia o perfil de Oscar Quiroga na edição de setembro da revista IMPRENSA, já nas bancas.






