O segredo de Liêdo

Crédito:Leo Garbin Bem soubessem os estudantes, usariam o mesmo expediente adotado por Liêdo Maranhão – a quem chamo de memorialista do povão – para treinar a audição, aprimorando o exercício de ouvir o entrevistado ou o desconhecido nas ruas.

Atualizado em 02/09/2013 às 14:09, por Silvia Bessa.

estudantes, usariam o mesmo expediente adotado por Liêdo Maranhão – a quem chamo de memorialista do povão – para treinar a audição, aprimorando o exercício de ouvir o entrevistado ou o desconhecido nas ruas. Quem dera quando “foca” eu tivesse encontrado ou ouvido falar de Liêdo e suas práticas. Liêdo é um senhor de 86 anos, dentista que faz da banguela marketing pessoal, conhecido em Pernambuco pela sua coleção de mais de 30 mil peças. O acervo dele reúne desde réplicas de livretos de sacanagem até calendários de folhinha antigos, cartões-postais, cordéis, recordatórios de mortos e fôlderes de propagandas famosas. É tudo de um realismo fantástico.
Mas o que me impressionou foi a coleção de 31 diários escritos desde a década de 1960, com relatos do que ele viu e ouviu nas ruas. São fragmentos do cotidiano, expressões e costumes de transeuntes e comerciantes informais instalados no entorno do mercado central da capital recifense. Imagine a surpresa encontrar tamanha ousadia na apuração de uma pauta simples sobre colecionadores, que eu produzia a pedido de amigos da Revista Continuun, do Itaú Cultural (SP). Anos de persistência, uma ouvidoria a céu aberto, a paciência que falta muitas vezes em repórteres jovens e/ou veteranos apressados, vibração com as descobertas que valiam a pena e, por fim, a história oral do Nordeste em múltiplas fases só Liêdo tem. Ou pelo menos a história vista pelo prisma dele.
Era inacreditável que alguém tivesse concretizado o sonho do americano Joe Gould, que nas décadas de 1930 e 1940 prometia a amigos de Nova York “a maior e mais importante história oral da humanidade”. Joe foi personagem de um dos livros que mais me marcaram até hoje – “O segredo de Joe Gould”, de Joseph Mitchell, Cia. das Letras, 2003. Durante a conversa, parecia que eu estava vendo Joe.
“Gosto de ficar feito merda na cheia, sem nenhum rumo e seguindo o trajeto do mundo”, disse-me Liêdo. Contou que na rotina de campo prestava atenção nas frases, corria para um canto e, já ao escrever o registro, fazia a seleção das melhores tiradas. Uma edição, assim como a que fazemos na cabeça antes de compor uma matéria, um texto, e selecionamos as melhores falas para ocupar lugar no diário de bordo jornalístico, as cadernetinhas que nos acompanham. Se eu fosse professora do curso de jornalismo, estabeleceria como obrigação que todo estudante deveria escrever seu próprio diário (de papel ou eletrônico) com fragmentos das ruas. O ato de ouvir e reproduzir frases aleatórias funcionaria como uma ginástica cerebral. Acho que daria musculatura à formação de bons apuradores. Se fosse estudante, não esperaria que um professor me mandasse fazer esse exercício; me inspiraria no modelo de Joe e Liêdo. Porque escutar bem é algo que o jornalista precisa aprender cedo e praticar sempre.