O saber praticado e o saber sistematizado

O saber praticado e o saber sistematizado

Atualizado em 05/06/2008 às 15:06, por Kátia Zanvettor.

Não é uma cena rara nos cursos de jornalismo, mesmo nos primeiros anos, assistirmos a atuação dos nossos alunos em jornais, rádios e até veículos de televisão. A despeito de todo o debate que existe sobre a obrigatoriedade do diploma para atuação profissional o fato é que no dia-a-dia, especialmente na imprensa do interior, existe um número significativo de alunos atuando na sua área de formação. A maioria começa o curso, arruma uma oportunidade como "estagiário" e logo começa fazer às vezes de um repórter profissional. Também tem os casos dos jovens que começaram a trabalhar nos veículos como técnicos e então buscam a faculdade pensando em migrar para a redação.

Eu tenho uma série de exemplos, entre os meus alunos, e o que eu percebo em quase todos é um conflito entre o saber sistematizado da universidade, sustentado nas teorias de comunicação, saber social, histórico e político e o saber praticado das redações, baseado nas experiências empíricas, nas necessidades concretas do trabalho e nas pressões comuns às redações, como as de tempo e espaço.

Não é um conflito simples e ele respinga em nossas aulas cotidianamente. Muitas vezes me deparei, por exemplo, com o questionamento sobre a necessidade de apuração já que o jornal possui a "prática" de apenas informar o que foi dito pelas fontes, assim, se a fonte disse e é isso que será publicado qual a necessidade de apurar a veracidade da informação?

Parece um absurdo, mas o aluno que está em uma situação destas precisa ser ouvido com atenção porque a confusão entre o ideal e o real é um fato e a pressão para o mercado ser o modelo a ser seguido é vigorosamente reforçado em nossa sociedade. Aliás, não me surpreende nada o fato de os alunos valorizarem o que é dito pelos seus editores e menosprezarem o que é dito pelos professores, talvez o contrário me surpreendesse e causasse mais preocupação. Nós mesmos repetimos incansavelmente que eles precisam se preparar para o mercado e há aí uma carga de valor muito forte!
Nossa tarefa, contudo, é procurar contribuir para que esses alunos compreendam o sentido destas diferenças e como elas podem somar pontos e não dividir na hora da produção da notícia.

Voltando ao exemplo da apuração sempre procuro lembrar aos alunos que a curiosidade do jornalista não precisa apenas servir para publicação da notícia. O jornalista que sofre com as pressões de tempo, espaço ou até políticas deve manter e cultivar sua curiosidade sobre o fato, um dos principais estímulos para a apuração. Se esta apuração não lhe servir para escrever a matéria ou para encontrar outra pauta pode, pelo menos, matar sua curiosidade e isso, não tenho dúvida, será de grande valia para coberturas posteriores e para a sua formação humana.

Assim, procuro mostrar a importância tanto do saber praticado, como do saber sistematizado pela universidade e que o lugar de um não exclui o lugar do outro. Se o primeiro deverá ser cumprido no dia-a-dia da notícia, o segundo é um estímulo para a reflexão do jornalista sobre o seu trabalho. Se o primeiro dá mais dinamismo ao trabalho e cumpre melhor com os resultados esperados pela chefia, o segundo poderá proporcionar o prazer do conhecimento e contribuir para a compreensão mais profunda do contexto social. No fundo, acho que é um pouco destas duas coisas que todo jornalista busca.