O representante
Duas décadas depois da primeira experiência de ombudsman na imprensa brasileira, a função, apesar de consolidada em alguns veículos, não é unanimidade na mídia e segue ignorada pela maioria Em meados de agosto deste ano, em coluna intitulada "Vá ao teatro, mas não me chame", a ombudsman da Folha de S.
Atualizado em 01/11/2011 às 18:11, por
Guilherme Sardas.
Paulo, Suzana Singer, apontou a erudição excessiva da crítica teatral do jornal. Após transcrever frases do caderno de cultura do veículo como "Suas falas fluem como jorros assonantes de significados múltiplos condensados", afirmou que as análises beiravam o incompreensível para a maior parte dos leitores. O crítico da Folha Luiz Fernando Ramos rechaçou a opinião da colega em artigo no domingo seguinte, dizendo que Suzana desmerecia o trabalho de toda uma equipe com base em exemplos pontuais e disparou contra a sugestão da ombudsman de mais objetividade no texto. "Reduzir o trabalho do crítico a esse aconselhamento culinário é empobrecer o lugar da cultura no jornal", disse.
Não foi a primeira vez que o debate entre ombudsman e redação se tornou público e colocou em evidência o ônus e as vantagens de se manter um profissional que visa, por um lado, balancear a transparência e a abertura de diálogo do órgão, e, por outro, a exposição de suas próprias fragilidades. Outro caso envolvendo o mesmo jornal demonstra essa delicada relação. Em abril deste ano, dois profissionais do Grupo Folha trocaram mensagens pelo Twitter sobre a cobertura da morte do ex-vice-presidente da República, José Alencar. Os jornalistas comentavam que a Folha ainda não havia noticiado a morte do político e que o motivo para tal demora era uma orientação da diretoria feita à equipe após o jornal noticiar erroneamente a morte do ex-senador Romeu Tuma. A troca de tuítes teve grande repercussão apenas depois da publicação da coluna da ombudsman considerando que a atitude dos profissionais fora "inapropriada". Após o artigo, os dois foram demitidos.
Os episódios ajudam a explicar, parcialmente, por que alguns veículos da imprensa brasileira insistem em manter o ombudsman - uma espécie de ouvidor do leitor e vigilante público do trabalho da redação - e outros, simplesmente, o ignoram. Atualmente, apenas dois jornais do país possuem o cargo: a Folha, primeiro a criar a função no Brasil, em 1989, e O Povo, de Fortaleza, adepto desde 1994.
O baixo número de veículos com ombudsman parece depender de uma equação não muito simples. Além do habitual desconforto que as críticas podem causar à redação - "Pelo tom dos e-mails que eu recebo de alguns, imagino que devam ficar chateados", diz Paulo Rogério Silveira, ombudsman de O Povo -, o profissional acaba sendo o principal "para-raios" dos leitores, além de zelar pelos princípios éticos e editoriais do órgão. "Não é qualquer veículo que tem essa mentalidade tão desenvolvida. Mesmo nos de qualidade, existe uma espécie de temor sobre a abertura de um espaço para um profissional designado para esse tipo de cobrança pública", comenta Mario Vitor Santos, ex-ombudsman da Folha e do Portal iG. A marca ideológica do veículo também parece interferir na decisão de manter ou não um ombudsman. Publicações mais assertivas nesse aspecto tendem a ser mais resistentes. "No geral, a mídia é um espaço que tende à democracia, mas nem sempre consegue realizá-la às últimas consequências. É possível que uma espécie de opção ideológica mais marcada acabe sendo importante para que se tenha um pensamento mais cauteloso na adoção da função", acrescenta Santos. Além disso, o gasto com um profissional exclusivo para ocupar a posição parece também pesar na decisão, já que o jornal costuma realocar um profissional de chefia para o cargo.
LINHA EDITORIAL
Além do perfil especialmente crítico, o ombudsman deve ter conhecimentos sólidos em várias editorias e domínio da linha editorial do jornal. Por isso, no geral, são profissionais com vasta experiência e longa trajetória no próprio veículo. Mas as exigências não se limitam às questões técnicas e ao olhar apurado. "São decisões extremamente solitárias. A pessoa precisa ter equilíbrio, autonomia e estabilidade emocional, porque não é exatamente o tipo de trabalho de companheirismo e cumplicidade. Ele pode enfrentar uma situação de grande estranhamento, se vier de uma cultura mais coletivista dentro das redações. Ele é um intruso, um isolado", afirma Santos.
No delicado relacionamento com a redação, a flexibilidade para ouvir réplicas e tréplicas de repórteres e editores inconformados é tão indispensável quanto a necessidade de marcar seu espaço. Mas a busca por esse equilíbrio não impede que o profissional imprima o estilo pessoal. "Eu acompanho vários ombudsmans no exterior. Alguns têm uma linha mais dura em relação ao veículo: cobram mais, escolhem assuntos que eu considero mais importantes, outros são mais diplomáticos. Eu prefiro os mais contundentes", comenta Suzana, atual ombudsman da Folha.
FALHA NOSSA
Errar é parte do ofício. Sem exceção, os jornais retificam-se no "Erramos" ou coluna similar, publicada, em geral, na edição seguinte. Mesmo que a atuação do ombudsman vá muito além de falhas de revisão ou de informação, não é incomum a intervenção do ombudsman diante de erros crassos de informação. "Uma vez disseram que a doutrina defendida por Chico Xavier pregava a ressurreição. Era um erro, é a reencarnação", conta Silveira, de O Povo. Temáticas políticas, principalmente em período eleitoral, são as grandes campeãs de reclamação dos leitores - "Eu diria que o grosso é política. Em época de eleição, aparece muito a questão ideológica", aponta Suzana.
No diário americano The New York Times - que abriu a função em 2003 -, a tendência é similar: "As reclamações de uma cobertura com equidade, por exemplo, relacionadas ao Oriente Médio ou à cobertura da eleição presidencial estão entre as mais recorrentes", conta Joseph Burgess, assistente de Arthur S. Brisbane, atual ombudsman do jornal. As intrincadas estratégias investigativas também podem conduzir jornalistas à indesejável crítica pública. "Em jornais como a Folha, o que mais chama a atenção são certas operações de investigação no limite da ética, no limite da espionagem. Na ânsia de dar o furo, há transgressões", explica Santos.
No Brasil, a primeira - e única - emissora de TV a adotar a função foi a Cultura, com Osvaldo Martins, em 2004, seguido de Ernesto Rodrigues, entre 2008 e 2010. A experiência também rendeu polêmicas. Em coluna de 2006, Martins chegou a sugerir a inutilidade do jornalismo da emissora: "A Cultura poderia ser uma boa TV pública, melhor que a atual, sem jornalismo. Jornalismo não combina com marasmo", disse na época. Já no ano passado, pouco antes de sua saída, Rodrigues também abordou questões delicadas como a demissão do chefe do departamento de jornalismo, Gabriel Priolli, por ter planejado uma reportagem sobre os pedágios paulistas - e que teria incomodado o governo do Estado. Hoje, o cargo está vago e sem previsão de ser preenchido. "A partir de julho de 2010, iniciou-se um necessário processo de reestruturação na TV Cultura. A vaga não foi fechada. Tão logo esta reestruturação seja concluída, a TV irá reanalisar a questão", relata a assessoria de imprensa da emissora.
Em julho de 2007, foi a vez de dois portais brasileiros apostarem na ideia: o iG e o UOL. O primeiro trouxe Mario Vitor Santos, ex-Folha, e o segundo, Tereza Rangel, então gerente de conteúdo editorial da empresa. Na rede, conteúdos apelativos e maior incidência de erros de revisão e de informação mostraram-se os principais alvos do ombudsman. A dificuldade de rastreamento integral do que é publicado no dia também são desafios na área. "Neste terreno, o ombudsman tem que virar um pregador para que os profissionais não se deixem levar por uma cultura mais 'tabloidizada' por causa da audiência", diz Santos. Desde julho de 2010, o UOL aboliu a função. Cenário idêntico ao do iG, sem profissional no cargo desde início de 2009 e sem planos para retomá-lo.
Apesar de jornalistas e empresas de comunicação considerarem a função importante, o ombudsman - palavra sueca que significa "representante" - não é consenso na mídia brasileira. Parece que nem todas as empresas jornalísticas estão dispostas - ou preparadas - para este profissional.
Matéria publicada na edição de novembro (273) da Revista IMPRENSA

Não foi a primeira vez que o debate entre ombudsman e redação se tornou público e colocou em evidência o ônus e as vantagens de se manter um profissional que visa, por um lado, balancear a transparência e a abertura de diálogo do órgão, e, por outro, a exposição de suas próprias fragilidades. Outro caso envolvendo o mesmo jornal demonstra essa delicada relação. Em abril deste ano, dois profissionais do Grupo Folha trocaram mensagens pelo Twitter sobre a cobertura da morte do ex-vice-presidente da República, José Alencar. Os jornalistas comentavam que a Folha ainda não havia noticiado a morte do político e que o motivo para tal demora era uma orientação da diretoria feita à equipe após o jornal noticiar erroneamente a morte do ex-senador Romeu Tuma. A troca de tuítes teve grande repercussão apenas depois da publicação da coluna da ombudsman considerando que a atitude dos profissionais fora "inapropriada". Após o artigo, os dois foram demitidos.
Os episódios ajudam a explicar, parcialmente, por que alguns veículos da imprensa brasileira insistem em manter o ombudsman - uma espécie de ouvidor do leitor e vigilante público do trabalho da redação - e outros, simplesmente, o ignoram. Atualmente, apenas dois jornais do país possuem o cargo: a Folha, primeiro a criar a função no Brasil, em 1989, e O Povo, de Fortaleza, adepto desde 1994.
O baixo número de veículos com ombudsman parece depender de uma equação não muito simples. Além do habitual desconforto que as críticas podem causar à redação - "Pelo tom dos e-mails que eu recebo de alguns, imagino que devam ficar chateados", diz Paulo Rogério Silveira, ombudsman de O Povo -, o profissional acaba sendo o principal "para-raios" dos leitores, além de zelar pelos princípios éticos e editoriais do órgão. "Não é qualquer veículo que tem essa mentalidade tão desenvolvida. Mesmo nos de qualidade, existe uma espécie de temor sobre a abertura de um espaço para um profissional designado para esse tipo de cobrança pública", comenta Mario Vitor Santos, ex-ombudsman da Folha e do Portal iG. A marca ideológica do veículo também parece interferir na decisão de manter ou não um ombudsman. Publicações mais assertivas nesse aspecto tendem a ser mais resistentes. "No geral, a mídia é um espaço que tende à democracia, mas nem sempre consegue realizá-la às últimas consequências. É possível que uma espécie de opção ideológica mais marcada acabe sendo importante para que se tenha um pensamento mais cauteloso na adoção da função", acrescenta Santos. Além disso, o gasto com um profissional exclusivo para ocupar a posição parece também pesar na decisão, já que o jornal costuma realocar um profissional de chefia para o cargo.
LINHA EDITORIAL
Além do perfil especialmente crítico, o ombudsman deve ter conhecimentos sólidos em várias editorias e domínio da linha editorial do jornal. Por isso, no geral, são profissionais com vasta experiência e longa trajetória no próprio veículo. Mas as exigências não se limitam às questões técnicas e ao olhar apurado. "São decisões extremamente solitárias. A pessoa precisa ter equilíbrio, autonomia e estabilidade emocional, porque não é exatamente o tipo de trabalho de companheirismo e cumplicidade. Ele pode enfrentar uma situação de grande estranhamento, se vier de uma cultura mais coletivista dentro das redações. Ele é um intruso, um isolado", afirma Santos.
No delicado relacionamento com a redação, a flexibilidade para ouvir réplicas e tréplicas de repórteres e editores inconformados é tão indispensável quanto a necessidade de marcar seu espaço. Mas a busca por esse equilíbrio não impede que o profissional imprima o estilo pessoal. "Eu acompanho vários ombudsmans no exterior. Alguns têm uma linha mais dura em relação ao veículo: cobram mais, escolhem assuntos que eu considero mais importantes, outros são mais diplomáticos. Eu prefiro os mais contundentes", comenta Suzana, atual ombudsman da Folha.
FALHA NOSSA
Errar é parte do ofício. Sem exceção, os jornais retificam-se no "Erramos" ou coluna similar, publicada, em geral, na edição seguinte. Mesmo que a atuação do ombudsman vá muito além de falhas de revisão ou de informação, não é incomum a intervenção do ombudsman diante de erros crassos de informação. "Uma vez disseram que a doutrina defendida por Chico Xavier pregava a ressurreição. Era um erro, é a reencarnação", conta Silveira, de O Povo. Temáticas políticas, principalmente em período eleitoral, são as grandes campeãs de reclamação dos leitores - "Eu diria que o grosso é política. Em época de eleição, aparece muito a questão ideológica", aponta Suzana.
No diário americano The New York Times - que abriu a função em 2003 -, a tendência é similar: "As reclamações de uma cobertura com equidade, por exemplo, relacionadas ao Oriente Médio ou à cobertura da eleição presidencial estão entre as mais recorrentes", conta Joseph Burgess, assistente de Arthur S. Brisbane, atual ombudsman do jornal. As intrincadas estratégias investigativas também podem conduzir jornalistas à indesejável crítica pública. "Em jornais como a Folha, o que mais chama a atenção são certas operações de investigação no limite da ética, no limite da espionagem. Na ânsia de dar o furo, há transgressões", explica Santos.
No Brasil, a primeira - e única - emissora de TV a adotar a função foi a Cultura, com Osvaldo Martins, em 2004, seguido de Ernesto Rodrigues, entre 2008 e 2010. A experiência também rendeu polêmicas. Em coluna de 2006, Martins chegou a sugerir a inutilidade do jornalismo da emissora: "A Cultura poderia ser uma boa TV pública, melhor que a atual, sem jornalismo. Jornalismo não combina com marasmo", disse na época. Já no ano passado, pouco antes de sua saída, Rodrigues também abordou questões delicadas como a demissão do chefe do departamento de jornalismo, Gabriel Priolli, por ter planejado uma reportagem sobre os pedágios paulistas - e que teria incomodado o governo do Estado. Hoje, o cargo está vago e sem previsão de ser preenchido. "A partir de julho de 2010, iniciou-se um necessário processo de reestruturação na TV Cultura. A vaga não foi fechada. Tão logo esta reestruturação seja concluída, a TV irá reanalisar a questão", relata a assessoria de imprensa da emissora.
Em julho de 2007, foi a vez de dois portais brasileiros apostarem na ideia: o iG e o UOL. O primeiro trouxe Mario Vitor Santos, ex-Folha, e o segundo, Tereza Rangel, então gerente de conteúdo editorial da empresa. Na rede, conteúdos apelativos e maior incidência de erros de revisão e de informação mostraram-se os principais alvos do ombudsman. A dificuldade de rastreamento integral do que é publicado no dia também são desafios na área. "Neste terreno, o ombudsman tem que virar um pregador para que os profissionais não se deixem levar por uma cultura mais 'tabloidizada' por causa da audiência", diz Santos. Desde julho de 2010, o UOL aboliu a função. Cenário idêntico ao do iG, sem profissional no cargo desde início de 2009 e sem planos para retomá-lo.
Apesar de jornalistas e empresas de comunicação considerarem a função importante, o ombudsman - palavra sueca que significa "representante" - não é consenso na mídia brasileira. Parece que nem todas as empresas jornalísticas estão dispostas - ou preparadas - para este profissional.
Matéria publicada na edição de novembro (273) da Revista IMPRENSA






