O reflexo distorcido
O reflexo distorcido
Maria do Socorro tem três filhos, cinco netos. Casou-se aos 20 e poucos anos, separou-se tempos depois, casou-se de novo, encontrou o amor de sua vida e ficou viúva. Maria do Socorro é vaidosa. Conhece muito da cosmética, lê revistas, assiste a televisão. Tem TV paga em casa, cultiva sua espiritualidade de maneira independente - recorre aos santos católicos, aos pastores, aos guias espirituais e à filosofia oriental com igual devoção - e sai com as amigas para divertir-se, tomando uma cerveja gelada, dançando ou simplesmente batendo papo.
Depois que o DVD surgiu no mercado, não perde os lançamentos de vídeos musicais e shows de seus artistas preferidos. Sua televisão é grande, estéreo, de onde ouve os espetáculos de seus cantores. Seus netos são mimados quase semanalmente com presentes que ela escolhe a dedo, seja nas lojas de seu bairro seja nos shoppings que freqüenta. Mal vê um look na TV ou nas revistas, procura semelhantes no mercado. Maria do Socorro, para usar as roupas que deseja, faz dieta. Tem plano de saúde e, irresponsavelmente, alterna tratamentos com acompanhamento médico e receitas infalíveis oferecidas por suas amigas. Mês a mês, paga as faturas de seu cartão de crédito em dia - nunca, ou quase nunca (às vezes excede o razoável), paga o mínimo. Aliás, preocupa-se enormemente em manter as contas em dia e aborrece-se com a simples sugestão de que não possa mais gozar do privilégio do crédito oferecido pelo banco onde tem sua conta, cujo gerente a reconhece, embora muitas vezes não se recorde do nome dela. Suas opiniões políticas são liberais, abertas ao novo, ao debate público e a diversidade. Aos 50 e poucos anos, Socorro não se espanta com o mundo moderno. Procura adequar-se a ele, na medida do possível.
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Maria do Socorro, a mulher acima, é cobiçada pelo mercado. Interessa dela seu poder de consumo, sua influência familiar e a decisão diária que ela toma. Maria do Socorro é uma mulher Premium. Só o jornalismo a ela dedicado ainda não percebeu. Continua ensinando a fazer coxinhas, a emagrecer com simpatias fajutas, a economizar juntando latinhas de alumínio, a fazer artesanato de qualidade duvidosa. Diz-se que ela gosta muito de novelas, de fofocas sobre as celebridades, de programas de auditório. Maria do Socorro é uma típica mulher de classe C/D. Só que, no jogo entre casa grande e senzala, prevalece a visão que a patroa tem dela.
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Até quando Maria do Socorro vai se ver num espelho que a distorce?






