O que tem valor

Este ano completo quinze anos de graduada como jornalista. A data arrastou para minhas lembranças alguns episódios. Um deles ocorreu no dia

Atualizado em 04/11/2013 às 14:11, por Silvia Bessa.

Crédito:Leo Garbin em que cheguei ao corredor da sala de aula vestindo uma camisa das Edições Paulinas, uma livraria de artigos religiosos em que trabalhava no horário comercial. Eu me senti meio oprimida com os olhares de estranhamento por causa do meu estilo nada alternativo ou descolado – algo que muitas vezes se espera de um estudante de jornalismo.
Deixei o básico e adentrei no profissional, período mais específico do curso. Dessa época, lembro de uma professora que cobrava dos alunos uma combinação de nome composto que serviria como marca de cada aluno. A partir dali, dizia, passaríamos a assinar as matérias que escreveríamos com o nome profissional selecionado. Escolhi o meu. A professora discordou. Considerava que o Bessa era feio e apagado. Ela passou semanas criticando o sobrenome que escolhi. Chegava em casa todo dia pensando sobre até que ponto na rotina jornalística a gente leva em conta a intuição.
Já no meio do curso, fui reprovada na disciplina de redação. Convenhamos, não era uma disciplina qualquer. Era a cadeira de redação do curso de jornalismo. Tinha uma hora e pouco para fazer a prova, e eu desci para o pátio para apurar uma matéria. Fui lenta e, para completar, na volta, fiquei presa na fila do elevador da faculdade.
Quando retornei à sala de aula, o tempo era curto para redigir o texto e eu o entreguei incompleto. Enfim, fui reprovada. Nem sei se foi só por isso, mas aprendi que não importa a justificativa que se dá; o importante é que o trabalho não foi entregue para o chefe (o professor) no prazo determinado.
Por último, recordo do meu Trabalho de Conclusão de Curso. Era estagiária de um jornal e, para a surpresa e contestação de muitos colegas de turma, quis produzir um TCC em fotografia. Havia quem dissesse ser mais fácil. Outros, que era mais caro, que eu não tinha habilidade suficiente, porque ao longo do curso não foi uma cadeira na qual eu tenha me destacado. Estava determinada. Para o TCC em fotografia, tinha de produzir três ensaios fotográficos: dois para uma espécie de exposição e um terceiro para apresentação em slides.
Achava que, talvez observando e compreendendo melhor os cenários dos personagens e todos os detalhes que os cercam, eu pudesse aprender a reportar melhor o que vê nas ruas. Faria do TCC um experimento. Um dos meus ensaios foi sobre a prisão feminina. Eu ia para o presídio do Bom Pastor e, ao revelar as fotos, nada prestava. Procurei Edvaldo Rodrigues, fotógrafo e colega do Diário de Pernambuco com cinquenta anos de profissão. Narrei o problema. Vadinho pediu que do Bom Pastor eu ligasse pra ele e descrevesse os ambientes e as luzes. As dicas dele foram excepcionais. Tive a melhor nota da turma de fotografia.

Quinze anos depois, faço meu balanço: na vida profissional de um jornalista o estereótipo não vale nada. A intuição vale ouro. Os prazos permanecem apertados, e não cumpri-los é sempre motivo de reprovação. E apoio e incentivo são essenciais para que a gente se arrisque ou se mantenha firme em caminhos diferentes daqueles já conhecidos.
é repórter especial do Diário de Pernambuco. Escreve sobre questões sociais e direitos humanos no Nordeste. silviabessape@gmail.com.