O que tem por trás das algemas?
O que tem por trás das algemas?
Por que as algemas exibidas em rede nacional colocada nos acusados da operação Satiagraha incomodam tanta gente? No dia seguinte à cobertura da prisão efetuada pela Polícia Federal a repercussão mais contundente, para a perplexidade de todos que pagam impostos, não foi os motivos das prisões e sim o "como" elas foram feitas. Desculpem a repetição, mas por que uma algema incomoda tanto? Tem algema para todo mundo neste país: de ladrão de galinha a traficantes que, em tese, se não foram pegos em flagrante delito também devem ser considerados inocentes até que se prove o contrário e por que as algemas destes casos não chocam os nossos magistrados?
A questão é que não é a algema que está em questão, mas quem está por trás dela. Ou melhor, os interesses que são colocados em cheque durante uma operação como essa. São em momentos como estes que precisamos acionar o nosso sensor de cuidado e redobrar a atenção na leitura das informações midiáticas. Em sala de aula e fora dela estes acontecimentos dão uma ótima oportunidade para o exercício da leitura crítica, vou sugerir um caminho:
Primeiro passo : procurar o maior número de fontes possíveis, jornal, TV, rádio, blogs e se preocupar em não formar uma opinião apressada.
Segundo passo : buscar o histórico do caso por conta própria, selecionando notícias antigas sobre os envolvidos, e não se contentar em ler apenas os históricos preparados pelas redações.
Terceiro passo : conhecer também os produtores de textos, investigando quem são os jornalistas e articulistas que opinam contra e a favor.
Quarto passo : discutir o caso com pessoas de diversas áreas, advogados, jornalistas, pesquisadores para obter diferentes perspectivas sobre o assunto.
Quinto passo : Formar uma opinião com base nos dados levantados ou não formar opinião se não sentir que as informações reunidas são suficientes para chegar a uma conclusão. E, por fim, incentive o aluno apresentar suas conclusões e justificar seus argumentos.
Esse roteirinho é uma tática pessoal que uso com meus alunos para apresentá-los para a leitura crítica. Meu fundamento está na idéia de que a melhor forma de aprender a noticiar é desconstruindo a notícia, lendo a história pelo ângulo da sua produção.
Quando este roteiro inverso é desenvolvido individualmente ou coletivamente pelos alunos fica evidente que a informação é resultado de um complexo processo de interpretação da realidade social, mediado não só pelo jornalista, mas pelas diferentes fontes citadas e, obviamente, por seus próprios interesses. No fim das contas acredito que o aluno sai mais atento a estes mecanismos que interferem no noticiário e pode perceber por conta própria que falar de algemas é na verdade uma estratégia discursiva muito perspicaz para deixar de falar do que realmente importa.






