O que o mercado quer?
O que o mercado quer?
Não é incomum nos cursos de jornalismo, entre dirigentes, professores e alunos, a preocupação em encontrar uma formação adequada às demandas do mercado de trabalho. Nada mais natural, afinal entre as principais funções da universidade está a da formação plena dos profissionais, de modo que possam ser absorvidos pelos diversos segmentos da profissão.
A questão que fica um pouco no ar é como identificar essas necessidades, considerando que essa figura abstrata, onipresente e onisciente, que chamamos de mercado encerra uma complexidade de demandas nada fácil de se definir. Em jornalismo é muito fácil perceber que a coisa não é simples, basta uma visitinha à uma redação e na seqüência à uma assessoria de imprensa para constatar que a natureza dos métodos, processos, organização e muitas vez até o sentido do trabalho são completamente diferentes. Mas não pára aí, basta mudar o suporte, o lugar em que a produção jornalística acontece, para encontrarmos muitas diferenças.
Da revista para a internet, o texto é outro, da redação para a assessoria, muda o texto e muda o objetivo, do jornal impresso para a TV, muda o texto, muda o contexto e muda o método. Enfim, poderíamos passar horas analisando diferença por diferença o que seria muito cansativo e improdutivo já que a cada hora, no mercado, uma nova abordagem é criada, uma nova técnica e uma nova solução surge para um problema antigo.
Bom, então, podemos concluir que não existe um mercado homogêneo, que quer a mesma coisa sempre? Verdade! Mas, aí nossa pergunta inicial sobre os desejos do mercado fica sem resposta? Nem tanto! Existe um ponto comum que faz a diferença real na formação jornalística. Como já vimos este ponto comum não pode ser a técnica, já que cada ambiente de trabalho tem sua própria realidade e ao usá-la como resposta voltaríamos a dar voltas no mesmo assunto, qual técnica para qual veículo?
A função da universidade não é formar alunos "feras" em técnica, muito provavelmente o mercado é melhor nisso, ele é mais rápido, vai direto ao assunto e não se preocupa em embasar teoricamente suas soluções. O mercado não está preocupado que um recém contratado domine todos os procedimentos necessários ao trabalho, ele sabe que essa deficiência é relativamente fácil de resolver, o difícil é aliar às técnicas a capacidade de reflexão e de analise, característica que se constrói a base de muita pluralidade teórica.
O jornalista não é aquele que reproduz fatos com a ajuda da melhor metodologia. O jornalista é aquele que, com o apoio das técnicas, compreende os acontecimentos sociais, contextualiza, analisa e organiza estes acontecimentos para o publico leitor. É por isso que nossa resposta está nos primeiros anos de formação, na capacidade que a universidade tem de oferecer uma formação plural e sólida para os seus alunos, no seu potencial em estimular o aluno para sair do lugar comum das técnicas e levá-lo à reflexão crítica não só da profissão, como do mundo.
Enfim, vale lembrar o que um bom professor sempre me repetia: o jornalista tem que ser um bom contador de histórias, e um bom contador sabe a história e sabe também do contexto desta história. É por isso que o mercado quer profissionais que saibam pensar, pois apertar botão é fácil, o difícil é saber explicar a utilidade do botão.






