"O que me mobiliza é a vontade de conhecer o Brasil", diz Daniela Arbex sobre jornalismo
Ainda há muitas histórias escondidas sobre a ditadura. A jornalista Daniela Arbex prova isso no livro-reportagem "Cova 312", no qu
Atualizado em 08/07/2015 às 14:07, por
Alana Rodrigues*.
Ainda há muitas histórias escondidas sobre a ditadura. A jornalista prova isso no livro-reportagem "Cova 312", no qual narra o verdadeiro destino do militante gaúcho Milton Soares de Castro, integrante da Guerrilha de Caparaó, onde se instalou o primeiro e frustrado grupo de guerrilha pós-golpe militar de 1964.
Milton foi preso em 1967 e conduzido para a Penitenciária de Linhares, em Juiz de Fora, Minas Gerais. Ele foi o único prisioneiro político encontrado morto nas dependências da unidade. Os militares forjaram documentos e disseram que se tratava de um suicídio. A partir de investigações iniciadas em 2002, Daniela reconstitui o calvário do militante e descobriu 35 anos depois de sua morte o local de sepultamento do corpo, na anônima cova 312, que dá título à obra. Crédito:Divulgação Jornalista desmente suposto suicídio de guerrilheiro na ditadura
À IMPRENSA, Daniela conta que a ideia de investigar o local onde Milton foi enterrado surgiu após a descoberta que o corpo dele desapareceu em 1967. Ela soube da história em 2002, durante uma conversa com o então presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, Nilmário Miranda.
Segundo ela, a investigação ocorreu em etapas. No mesmo ano, quando revelou no jornal a localização da sepultura do militante, a Comissão de Mortos e Desaparecidos de Brasília (DF) reconsiderou a versão oficial sobre ele e concluiu que Milton morreu de causas não naturais, em dependências do Estado.
"A série de matérias se encerrou no jornal, mas não havia um ponto final dentro de mim. Faltava reconstituir os últimos passos do guerrilheiro e encontrar uma prova fundamental de seu assassinato, o que consegui em 2014, com a descoberta da imagem da necrópsia do cadáver, cujas lesões em seu corpo são incompatíveis com suicídio", relata.
A repórter também conseguiu localizar os dois peritos responsáveis pelo exame. A dupla octogenária concedeu entrevista sobre o caso. Em depoimento inédito, um deles reconheceu o assassinato de Milton.
O livro
Daniela relata que a ideia de transformar a descoberta em livro surgiu em 2013, quando encontrou com a família do militante em Porto Alegre (RS). Do encontro, a jornalista escreveu o último capítulo da obra "Aprendendo a fazer chimarrão".
A jornalista diz que um dos maiores desafios de produzir a obra foi acessar os arquivos públicos do país, principalmente do Superior Tribunal Militar (STM), para o qual teve de justificar o pedido para obter informações, que seria aprovado ou não pelo presidente. "Uma burocracia incompreensível em tempos de lei de acesso à informação e de busca de transparência", lamenta.
Para reconstruir situações que não presenciou, Daniela pesquisou, ouviu centenas de pessoas, e comparou dados, documentos e declarações como as fornecidas pelo Exército e pela polícia durante o interrogatório dos militantes políticos.
Crédito:Divulgação
No caso do confronto entre o major Ralph e Milton, a jornalista escutou os dois militantes que estiveram com ele momentos antes de sua morte. Também consultou o depoimento supostamente assinado por Milton, percorreu o caminho indicado no inquérito sobre o suicídio, o que a permitiu desmentir todas as versões apresentadas oficialmente.
A repórter recorreu ainda ao livro "A Guerrilha do Caparaó", de Gilson Rebello, publicado em 1980. A obra trazia uma entrevista com o major Ralph, que confessou seus "métodos" infalíveis para levar o interrogado à loucura, referindo-se especificamente ao caso do guerrilheiro.
Paixão pelo jornalismo Autora do best-seller “Holocausto Brasileiro”, que já superou cem mil exemplares vendidos, a repórter especial da Tribuna de Minas traz detalhes sobre o veículo para o qual trabalha há vinte anos e deixa claro a paixão pela profissão.
“Deixei a escola com a esperança de transformar a realidade social por meio do meu trabalho . Dos focas, eu era a mais otimista. Com quatro anos de jornal, ganhei meu primeiro Prêmio Esso pela série ‘Dossiê Santa Casa’ e passei a acreditar que sabia fazer jornalismo, aquela arrogância típica dos que nada sabem. Uma coisa, entretanto, me salvava dos meus achismos: a paixão pela profissão que havia abraçado”, escreve.
Ambos os trabalhos se assemelham, segundo Daniela, no "silenciamento das histórias e na invisibilidade do tema". "Apesar de a ditadura ser considerada tema recorrente no país, nós sabemos pouco sobre esse período da história. Pior: as novas gerações resistem em saber o que se passou nos porões da repressão. O que me mobiliza nas histórias que conto é a vontade de conhecer o Brasil e de apresentar o país real aos brasileiros", destaca.
* Com supervisão de Vanessa Gonçalves.
Milton foi preso em 1967 e conduzido para a Penitenciária de Linhares, em Juiz de Fora, Minas Gerais. Ele foi o único prisioneiro político encontrado morto nas dependências da unidade. Os militares forjaram documentos e disseram que se tratava de um suicídio. A partir de investigações iniciadas em 2002, Daniela reconstitui o calvário do militante e descobriu 35 anos depois de sua morte o local de sepultamento do corpo, na anônima cova 312, que dá título à obra. Crédito:Divulgação Jornalista desmente suposto suicídio de guerrilheiro na ditadura
À IMPRENSA, Daniela conta que a ideia de investigar o local onde Milton foi enterrado surgiu após a descoberta que o corpo dele desapareceu em 1967. Ela soube da história em 2002, durante uma conversa com o então presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, Nilmário Miranda.
Segundo ela, a investigação ocorreu em etapas. No mesmo ano, quando revelou no jornal a localização da sepultura do militante, a Comissão de Mortos e Desaparecidos de Brasília (DF) reconsiderou a versão oficial sobre ele e concluiu que Milton morreu de causas não naturais, em dependências do Estado.
"A série de matérias se encerrou no jornal, mas não havia um ponto final dentro de mim. Faltava reconstituir os últimos passos do guerrilheiro e encontrar uma prova fundamental de seu assassinato, o que consegui em 2014, com a descoberta da imagem da necrópsia do cadáver, cujas lesões em seu corpo são incompatíveis com suicídio", relata.
A repórter também conseguiu localizar os dois peritos responsáveis pelo exame. A dupla octogenária concedeu entrevista sobre o caso. Em depoimento inédito, um deles reconheceu o assassinato de Milton.
O livro
Daniela relata que a ideia de transformar a descoberta em livro surgiu em 2013, quando encontrou com a família do militante em Porto Alegre (RS). Do encontro, a jornalista escreveu o último capítulo da obra "Aprendendo a fazer chimarrão".
A jornalista diz que um dos maiores desafios de produzir a obra foi acessar os arquivos públicos do país, principalmente do Superior Tribunal Militar (STM), para o qual teve de justificar o pedido para obter informações, que seria aprovado ou não pelo presidente. "Uma burocracia incompreensível em tempos de lei de acesso à informação e de busca de transparência", lamenta.
Para reconstruir situações que não presenciou, Daniela pesquisou, ouviu centenas de pessoas, e comparou dados, documentos e declarações como as fornecidas pelo Exército e pela polícia durante o interrogatório dos militantes políticos.
Crédito:Divulgação
No caso do confronto entre o major Ralph e Milton, a jornalista escutou os dois militantes que estiveram com ele momentos antes de sua morte. Também consultou o depoimento supostamente assinado por Milton, percorreu o caminho indicado no inquérito sobre o suicídio, o que a permitiu desmentir todas as versões apresentadas oficialmente.
A repórter recorreu ainda ao livro "A Guerrilha do Caparaó", de Gilson Rebello, publicado em 1980. A obra trazia uma entrevista com o major Ralph, que confessou seus "métodos" infalíveis para levar o interrogado à loucura, referindo-se especificamente ao caso do guerrilheiro.
Paixão pelo jornalismo Autora do best-seller “Holocausto Brasileiro”, que já superou cem mil exemplares vendidos, a repórter especial da Tribuna de Minas traz detalhes sobre o veículo para o qual trabalha há vinte anos e deixa claro a paixão pela profissão.
“Deixei a escola com a esperança de transformar a realidade social por meio do meu trabalho . Dos focas, eu era a mais otimista. Com quatro anos de jornal, ganhei meu primeiro Prêmio Esso pela série ‘Dossiê Santa Casa’ e passei a acreditar que sabia fazer jornalismo, aquela arrogância típica dos que nada sabem. Uma coisa, entretanto, me salvava dos meus achismos: a paixão pela profissão que havia abraçado”, escreve.
Ambos os trabalhos se assemelham, segundo Daniela, no "silenciamento das histórias e na invisibilidade do tema". "Apesar de a ditadura ser considerada tema recorrente no país, nós sabemos pouco sobre esse período da história. Pior: as novas gerações resistem em saber o que se passou nos porões da repressão. O que me mobiliza nas histórias que conto é a vontade de conhecer o Brasil e de apresentar o país real aos brasileiros", destaca.
* Com supervisão de Vanessa Gonçalves.





