O que as escadas ensinam...

O que as escadas ensinam...

Atualizado em 21/05/2008 às 14:05, por Kátia Zanvettor.

Em visita à Campinas neste final de semana, cidade que me formei e que guardo grandes amigos, relembrei de um detalhe importante para a minha formação como jornalista: a escada da faculdade. Sim, ela mesma, fria e dura, mas que ficava estrategicamente localizada entre as salas de aula e o agito da cantina. Ali, um lugar menos popular e bem menos formal, eu me sentei inúmeras vezes com muitos colegas, alguns mais do que outros, simplesmente para conversar. Alguns momentos estávamos deliberadamente matando aula, mas na maioria das vezes ficávamos ali depois do fim dos trabalhos, estendendo propositalmente o convívio da sala de aula.

Os assuntos eram os mais variados, em geral falávamos do jornalismo, do movimento estudantil e de questões filosóficas mais profundas. Compartilhávamos nossas leituras preferidas, textos filosóficos, poesias, textos técnicos, artigos de jornal, enfim, ali trocávamos informações, debatíamos, e também, claro, fazíamos uma boa avaliação crítica dos professores e dos conteúdos das aulas, como é habito de todo estudante que se preze. Mas os melhores momentos eram àqueles em que criávamos uma aula paralela - construídas por nos mesmo - e pautada em geral por um tema de interesse comum.

Geralmente essa aula começava quando alguém lançava um tema polemico no ar, meio como quem não quer nada, e a fogueira começava a esquentar. As opiniões eram em geral antagônicas, não existe nenhuma passividade teórica de se concordar com tudo ou de acreditar no que o outro falava, questionávamos, duvidávamos, às vezes até brigávamos e nem por isso deixávamos de ter um respeito enorme uns pelos outros. Ali, naquela escada, tínhamos a possibilidade concreta de exercitar a nossa capacidade de análise, de crítica e de argumentação.

Mas nem tudo era trabalho, tinha aqueles momentos mais particulares em que a escada compartilhava confissões, presenciava devaneios emocionais e segurava o peso da nossa angústia sobre o futuro e com a profissão. Ali éramos meninos e meninas, crescendo, compreendendo e compartilhando tudo, tirando daqueles momentos um aprendizado de vida.
A escada, apesar de verdadeira no meu caso, é uma metáfora perfeita para descrevermos a importância da vivência extracurricular nas faculdades de comunicação. E extracurricular está muito além do que se entende por uma palestrinha aqui, um eventinho ali, uma visitinha acolá, tem tudo isso, mas é muito mais. A vivência extra que só o cenário acadêmico pode proporcionar está nas linhas oficiais, nos acontecimentos programados pela universidade, mas também está nas entrelinhas.

Essas entrelinhas foram essenciais para a minha formação. No meu caso, coloco nesta categoria a conversa com os amigos na escada, um café com um professor depois da aula, as tardes no laboratório de fotografia e na biblioteca lendo o que bem entendia e ainda, as manifestações do movimento estudantil, a participação nas organizações de eventos e palestras. Enfim, tudo que fiz e vivi dentro da universidade sem exatamente pensar no currículo ou nas disciplinas e que de uma forma ou outra me constituiu como pessoa, para além do jornalismo. Estas são questões bem subjetivas, que contrato nenhum dará conta e diploma nenhum garante.

Infelizmente vejo que estes espaços de interlocução espontânea estão cada vez mais cerceados nas instituições. No afã de preencher todas as lacunas as instituições programam milhares de atividades extras e os alunos sufocados nem conseguem entender a dimensão e importância de cada uma, ou pior ainda, seguindo a cartilha produtivista muitas criam cursos sem nem pensar no espaço de convívio entre os alunos como se isso fosse uma questão pouco relevante. È sala de aula e professor. Não tem um banco, um café, um lugar diferente que possa instigar um debate, motivar uma idéia ou simplesmente valorizar o convívio humano, proporcionando a troca de informações, saberes e experiências.

O que é visto em sala é importantíssimo, não resta dúvidas, mas quando falamos em cursar uma universidade, faculdade, um curso superior, estamos pensando ou deveríamos pensar, em muito mais do que a apreensão do conteúdo. Estamos pensando em formação humana. A escada ensinou àquele grupo muito sobre essa formação, propiciou à partilha de valores, a compreensão do outro e nos garantiu uma descoberta nem sempre fácil para jovens estudantes: que o conhecimento pode estar nos lugares mais improváveis e para encontrá-lo é preciso um olhar atento e uma boa dose de disposição.