O que a tecnologia nos obriga, por Silvia Bessa

Crédito:Leo Garbin O sol estava tão quente que, ao olhar o asfalto, esmaecido e retilíneo, eu ficava nauseada como se tivesse tomado um porre.

Atualizado em 02/05/2014 às 15:05, por Silvia Bessa.

tão quente que, ao olhar o asfalto, esmaecido e retilíneo, eu ficava nauseada como se tivesse tomado um porre. Já tinha feito duas entrevistas naquele dia. A seguinte seria numa cidade a 500 quilômetros daquele pedaço de chão no Sertão da Bahia. Eram 15h. Pela programação do roteiro, estava sem alternativa. Segui à procura de uma senhora que – disseram-me – cultivava uma horta sem agrotóxicos impressionante. Linda e farta.
Cheguei à cidade de destino à beira da madrugada. Dormi mal acomodada num quarto de uma pequena pousada localizada num posto de gasolina. Logo cedinho, fui à casa da senhora, num sítio. Encontrei-a com a lavoura esturricada; e com fome. Recebi informação errada.
Aqui na redação onde trabalho, aconteceu na semana passada: recebemos pela conta do WhatsApp da redação a notícia que um carro fora roubado e um bebê havia sido levado dentro. Repórteres agitados, força-tarefa para apurar. Era informação falsa. O dono do carro mentiu sobre a criança para a polícia achar o veículo mais rápido.
Agora, no final de março, foi a CNN, conglomerado de comunicação respeitado em todo o mundo, quem acreditou no boato de que o atleta do século, o maior jogador de futebol de todos os tempos, Pelé, morreu. Publicou no perfil do programa “New Day”, no Twitter. Pelé não morreu. A postagem foi apagada pouco depois e a CNN fez correções e teve de publicar pedidos de desculpas.
Há quatro meses soubemos que um avião havia caído no mar perto de Goiana (PE). Eram 17h. Para tudo. Jornalistas mobilizados. Surgiram populares que garantiram ter visto a queda e que viram a logomarca da TAM. Uns que até teriam ajudado sobreviventes. A notícia foi publicada em vários sites jornalísticos. Repórteres se deslocaram até o local. Fotos foram publicadas na internet do suposto avião partido no meio. Bombeiros foram avisados pelos moradores da região. Ninguém reclamou a falta do avião ou de tripulante. A Infraero, Bombeiros, Marinha e Aeronáutica não confirmaram o acidente. Descobriu-se às 19h que foi um boato. Era apenas uma plataforma de petróleo sendo transportada por um navio.
Sabe-se que numa redação passam centenas de notícias por dia. Verdadeiras, falsas ou truncadas, ou ainda, com pedaços verdadeiros e outros falsos. Cabe ao jornalista filtrar o que o leitor, telespectador ou radialista vai ler, ver ou ouvir. E o filtro depende de uma boa checagem. A notícia pode chegar boca a boca, por telefone, WhatsApp, e-mail. Os meios mudaram, o que não mudou foi a necessidade de se checar a notícia; essa aumentou. Nos tempos de hoje, não se exige do repórter apenas mais conhecimento das novas tecnologias. Exige-se precisão duplicada na checagem, pois as novas tecnologias, em vez de acabar, tornaram muito mais obrigatório o rigor com a checagem da informação.