“O protagonismo da imprensa na Lava Jato é importantíssimo", defende Marcelo Beraba

O último painel do 8º Fórum Liberdade de Imprensa & Democracia, idealizado por IMPRENSA e realizado no auditório da OAB, em Brasíli

Atualizado em 03/05/2016 às 13:05, por Vanessa Gonçalves e  enviada a Brasília (DF).

O último painel do 8º Fórum Liberdade de Imprensa & Democracia, idealizado por IMPRENSA e realizado no auditório da OAB, em Brasília (DF), discutiu os “Desafios da cobertura política em tempo de vazamento de informações e segredo de Justiça”. Participaram desta mesa Carolina Bahia, do Grupo RBS, Fernando Rodrigues, do UOL, Marcelo Beraba, de O Estado de S.Paulo , Mauro Tagliaferri, da RedeTV!, Sérgio Fadul, de O Globo , e Eliane Cantanhêde, comentarista de política de Estadão, Rádio Estadão e GloboNews.

Crédito:Vanessa Gonçalves Debate sobre os “Desafios da cobertura política em tempo de vazamento de informações e segredo de Justiça”

Há 16 anos fazendo coberturas em Brasília, Carolina Bahia diz que a bola da vez no debate da imprensa são os vazamentos de processos da Lava Jato. Ela afirma que “o vazamento de um documento é a base de uma reportagem, não o único fato em si”. Porém, “o vazamento não se encerra em si mesmo. E se tem interesse público não é o repórter do dono do sigilo. Ela tem de ser levada à diante da forma mais transparente possível para o leitor, ouvinte ou telespectador”.

Para a jornalista da RBS, o grande problema é que “a Operação Lava Jato tem uma característica diferente: os donos absolutos da informação são os investigadores – Ministério Público, Polícia Federal e Justiça – e aí vem a crítica de que os vazamentos são seletivos”.

Fernando Rodrigues acredita que após a redemocratização, “vivemos um momento onde há um quarto poder no país: o Ministério Público. Ele ainda comentou sobre a revelação da lista da Odebrecht com mais de 200 nomes, que foi divulgada em um dos processos da Lava Jato, mas que só ganhou atenção após um repórter do UOL achá-la em meio a um calhamaço de anexos divulgado à imprensa e, que à primeira vista, não ganhou destaque. “Estamos num oceano de informações e não temos capacidade e nem material humano para investigar e talvez os órgãos de investigação também não tenham”.

Por essa razão, talvez alguns documentos venham à tona sem querer, pois nem os próprios investigadores têm como dar conta de tanto material. “Sabemos que há 20 anos era muito difícil conseguir dados, mas hoje somos reféns da Justiça, pois não temos acesso direto aos dados. Sabemos que as fontes revelam fatos de acordo com algum interesse e filtrar isso é um desafio”, concluiu.

Beraba, que acabou de assumir a sucursal do Estadão na capital federal, acredita que o atual período faz com que a imprensa tenha um impacto um tanto irresponsável por parte dos governos. “A cobertura da Lava Jato não é uma investigação jornalística tradicional, como grandes casos que partiram de redações e jornalistas, como aconteceu no caso Riocentro. Nesse caso, ele tem um compromisso maior de tentar levar as informações de forma transparente via agentes públicos, mas tendo de checar esses dados, num esforço grande”.

“O protagonismo da imprensa nas apurações da Lava Jato é um ponto importantíssimo, pois dessa vez temos como contar com o apoio de instituições como o Ministério Público e Justiça”, destaca Beraba. Para ele, ao contrário do que se aventa, “não há vazamento seletivo, mas um trabalho de cultivar fontes”. Para ele, há um uso político, uma certa hipocrisia, quando se defende essa ideia, desmerecendo e desmoralizando, assim, o trabalho da imprensa por parte do governo. “Isso desqualifica um dos principais elementos da democracia que é a imprensa”.

O repórter da RedeTV!, Mauro Tagliaferri, “a imprensa luta contra uma força grande [os poderes Executivo e Judiciário], mas ela [imprensa] é muito mais forte do que objeto que ela se debruça”, garante. Na opinião dele, a sociedade tem a ideia de que a imprensa tem um poder muito forte de destruir a imagem de alguém, pois no dia a dia vê como o noticiário policial, por exemplo, não garante o direito à privacidade e da dúvida de acusados. “Se damos isso aos agentes públicos, porque não estender a essas pessoas comuns?", questiona.

Comparando com a imprensa portuguesa, ele acredita que os jornalistas brasileiros não têm um devido cuidado na exposição e na acusação de pessoas. Há, de certa maneira, na visão de Tagliaferri, uma espetacularização das notícias. Para ele, no Brasil “poderemos fazer um jornalismo de qualidade quando tivermos todas as informações, sem falar “supostamente” ou “teria feito”, fugindo da espetacularização de alguns casos, antes de acusar alguém”.

Fadul, o último a falar, provocou o público dizendo que o papel do jornalista é revelar os fatos, mas é preciso parar de usar o repórter para vazar uma informação, pois quem vaza tem algum interesse nisso. “Cabe ao profissional avaliar a relevância e revelar os fatos. Mas vivemos num ambiente muito perigoso, pois essa discussão do vazamento começa a flertar um pouco com a censura. Quem determina esse sigilo?”, disse.

Como jornalista, ele acredita que o repórter tem o papel de ser o “fofoqueiro” e não o guarda de uma informação. Preocupado, chama a atenção: "Temos de estar muito alertas a esse questionamento sobre o vazamento de dados sigilosos, pois podemos estar retorcendo nas questões da liberdade de imprensa”.

Para a moderadora Eliane Cantanhêde, o Partido dos Trabalhadores quis manter como aliados o MP e a imprensa, manipulando as informações a seu favor. "Pimenta no olho dos olhos é refresco", disse. Para a comentarista de política, se os vazamentos fossem contra a oposição, o governo não estaria reclamando e falando em vazamentos seletivos à imprensa.

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