O professor em pauta

O professor em pauta

Atualizado em 30/06/2008 às 18:06, por Kátia Zanvettor.

Vou mudar um pouco meu olhar essa semana, tentando não perder com isso o foco do nosso debate: o ensino em jornalismo. Quero falar de professores, mas não só dos professores de jornalismo, mas de todos os professores que escolheram como destino uma profissão que teima em ser desvalorizada apesar da sua inegável importância. Falo disso motivada por um acontecimento que me fez (ou me obrigou) a pensar muito na moral da profissão. É que na última sexta-feira, no exato momento em que os professores do Estado de São Paulo, em greve há alguns dias, faziam uma assembléia na Avenida Paulista, em São Paulo e paralisavam o trânsito na região, eu pegava um ônibus naquela direção.

Depois de duas horas e meia presa no corredor preferencial da Consolação já pensava em fazer coro com os outros passageiros que almadiçoavam a manifestação promovida pelos professores paulistas. Claro que não é nada prazeroso ficar em um ônibus cheio, apertado, em pé, durante horas em um trânsito caótico, mas tentei abstrair e não simplificar a questão pensando nas alternativas que os professores tinham para chamar atenção da sua causa. Sejamos honestos, quem estaria falando de educação naquele ônibus se os professores estivessem fazendo uma passeata em algum lugar que não atrapalhasse o trânsito? E os jornais? Será que fariam alguma cobertura? Dariam espaço para alguma manifestação e para a lista de reivindicações?

Não quero entrar no mérito da questão e discutir a legitimidade do ato, quero apenas fazer uma constatação simples: há pouco espaço para os professores no noticiário. Infelizmente no espetáculo diário da notícia sabemos que as pautas de educação não são privilegiadas e, a não ser que tenhamos os resultados assustadores de alguma avaliação educacional aplicada pelo Estado, uma greve ou alguma mudança significativa da política educacional pouco se fala das adversidades diárias que o professor tem que enfrentar na sala de aula.

Nós mesmos já analisamos algumas das dificuldades que os professores universitários passam em classes de jornalismo, vamos transpor essas dificuldades para a Educação Básica, não tenho dúvidas que elas triplicam conforme diminui o nível de maturidade dos alunos. Claro que na era do politicamente correto a educação também virou chavão para matérias sorridentes em que exemplos de superação são tratados como milagres que devem ser aplaudidos e copiados.

Não sou contrária a estas matérias, mas não é disso que estou falando, cobrir educação poderia ir além dos bons e maus exemplos, da divulgação de dados oficiais e da cobertura de um evento. Falta um acompanhamento concreto das políticas educacionais brasileiras, falta espaço para o diálogo e o debate sobre que educação temos e qual educação queremos, falta olhar para o professor como uma função de prestígio, de uma pessoa responsável pela formação humana e, portanto, com muita responsabilidade.

Quem está acompanhando se a aplicação da Lei de Diretrizes e Bases é cumprida, quem está investigando se as verbas previstas para a educação estão chegando nas escolas, quem está questionando se o novo sistema de bolsas para a educação superior está realmente transformando positivamente e garantindo o acesso ao ensino de qualidade? Mas, principalmente, quem está indo além dos dados oficiais e ouvindo o professor no seu lugar de trabalho, vendo a educação pelo seu ponto de vista? Bom, é aqui que eu queria chegar.

Avaliando essa realidade dá para notar que uma das prioridades no ensino do jornalismo deve ser provocar o aluno a ir além dos dados oficiais. Chegamos a tal ponto nas redações que nada se fala se não foi dito ou confirmado por alguém, o trabalho de apuração e investigação se resume à confirmação dos dados por uma fonte e a culpa não é só da redação existe certa reverência da academia pela fonte e, em nome da objetividade, deixamos de lado a intuição jornalística, que é real e fundamental. Claro que existem as bravas exceções e é a essas que eu tento me apegar na hora de ministrar uma aula.

É por essas e outras que compreendo perfeitamente a estratégia dos professores, eles precisam criar um fato com força suficiente para virar notícia. Infelizmente nossa sociedade está viciada no espetáculo, passamos dias falando de tragédias particulares, e esquecemos que vivemos diariamente tragédias coletivas com crianças fora da escola ou com dificuldades de alfabetização. Professores desestimulados, desvalorizados e despreparados, que só viram notícia quando param o trânsito e agravam o caos de uma cidade pronta para explodir. Quem sabe se tivéssemos mais espaço para o professor e a educação no jornal o trajeto, não só do ônibus, mas o da vida de todas as pessoas que estavam nele seria outro.